I
Normalmente não escrevo sobre assuntos do momento. Simplesmente por que provavelmente alguém o fará muito melhor do que eu poderia. Se o BR não é la muito prodigo em escritores, temos alguns bons cronistas.
Ocorre que domino o assunto. Li praticamente tudo que me caiu nas mãos sobre as guerras internas entre a esquerda armada e a direita militar nos diversos países da AL durante os tais anos de chumbo, portanto me acho credenciado a mexer nesse vespeiro.
Considero meio esdrúxula essa discussão sobre direitos humanos, o tal PNDH do Lula, principalmente no que se refere a fatos ocorridos há mais de trinta anos. È como se abusos contra presos e pobres e principalmente presos pobres não fossem cometidos todos os dias por aqui, e a sociedade ainda não tivesse de ser convencida que justiça nada tem haver com vingança.
Como se da ditadura para ca, tivéssemos virado a Suécissia.
Gosto de me aprofundar nesse período histórico, assim como quem estuda a Revolução Francesa ou as Guerras Púnicas, desapaixonadamente. Ou quase, ja que vivi tudo aquilo, embora menino que pouco entendia o que se passava. Absolutamente influenciado pela opinião publicada, lembro que a cada rapto de embaixador me imaginava transformado numa espécie de Capitão Brasil, partindo para o resgate, surrando os terroristas e sendo condecorado pelo vovô Médici em pessoa. Sim, pois éramos todos facistinhas, cantando o hino duas vezes por dia, não só o nacional, mas do soldado, o da bandeira (salve o lindo pendão da esperança..) e, graças às doses massivas de propaganda e aulas de OSPB, tinhamos como certo de que vivíamos no melhor lugar do mundo. Muito embora as vezes eu mudasse de lado e partisse para “seqüestrar” o Galaxie do meu avo, pilotado pelo impagável seu Milton, para um lugar estranho chamado Cuba.
Para começo de conversa, não houve no BR uma Guerra Suja como na Argentina. Aqui foi mais uma caça ao coelho dada assimetria das forças, como dizem os americanos. De um lado um exército coeso e bem aparelhado. Do outro, grupelhos mal armados e mal amados. Tanque contra atiradeira.
La embaixo o buraco era outro. Los combatientes tinham algum apoio popular, principalmente entre peronistas de esquerda (uma contradição em termos já que Peron era proto-nazista, mas mais do que tudo um oportunista), e contavam com armamento pesado e recursos financeiros vultosos, provenientes de seqüestros e extorsões. Só o dos irmãos Born, donos e época da empresa que viria ser a Bunge rendeu aos Montoneros 60 milhões de dólares, e isto em 1974!! E as forças armadas, sem querer lutar por uma presidenta que desprezavam, nunca desferiam um golpe mortal as guerrilhas. Ate que tomaram o poder em 76, e ai desceram a borduna.
Embora processo "civico - militar" argentino tenha sido de longe o pior do Cone Sul (ate como reposta a uma guerrilha mais cruenta, mas que não se limitou a ela), a questão foi resolvida, no momento oportuno e da forma correta. Raul Alfonsim, o primeiro presidente civil pos ditadura, que a Deusa da Justiça o tenha, meteu todo mundo na cadeia, desde o líder fujão dos Montoneros, Mario Fiermenich que abandonou o barco nos primeiros meses do golpe deixando a meninada para morrer, até o ex-presidente Videla e toda a cúpula militar-facínora.
Se o seu sucessor, o mega pilantra e ultra cafona Menem concedeu anistia aos fascismos das duas extremidades, supondo como todo populista messiânico que inaugurava a historia, isso é outra conversa.
Talvez tenha sido mais fácil para Alfonsín, advogado ligado a presos políticos , do que teria sido para o conciliador Tancredo ou vira casacas Sir Ney, mesmo por que o galho dos gorilas argentinos caiu de podre depois do fiasco das Malvinas. Aqui e em outros lugares a saída da milicada foi “negociada” fuzil na mão. Ainda assim ele teve de encarar o movimento dos Carapintadas e outras escaramuças, perpetradas por parte da tropa que via como uma infâmia julgar os generais salvadores da Pátria.
No momento certo, cadeia teria sido aqui o lugar para os dois demônios, como Alfonsín definiu os dois lados da mesma moeda, tanto aqueles que pegaram em armas para tentar impor suas idéias de felicidade aos outros (que não as compraram, ou nenhuma repressão teria sido suficiente), quanto para os que os combateram a margem da sociedade. Quem pretende o poder que se organize politicamente, mesmo que leve anos. E quem o exerce tem obrigação de fazê-lo dentro a lei, mesmo que o tenha tomado a força.
Farred Zacharia disse com razão que se o pai que denunciou recentemente o filho terrorista preso a bordo de um avião nos EUA imaginasse por um segundo que o ele seria torturado ou morto (mesmo com Guantánamo e tudo mais), não o teria entregado as autoridades
Ao combater o terrorismo com as próprias mãos sujas, os militares Sudacas perderam a legitimidade e o apoio da população, que na maioria dos países da região os apoiou num primeiro momento como alternativa a corrupção civil a delinqüência da esquerda.
II
Sou adepto a Teoria dos Dois Demônios. Execro esse aspecto means to na end dos militares do continente que os nivelou aos stalinistas que combatiam – mesmo podendo reconhecer algum mérito neles. E embora despreze a maioria dos movimentos guerrilheiros da época e mais ainda os que viriam depois, confesso ter certa simpatia histórica pelos Tupamaros uruguaios. Assim mesmo somente em sua primeira fase, quando eram surpreendentemente ousados e inteligentes, pero sin perder la ternura jamas.
Nunca matavam e escapavam por baixo da terra , usando os esgotos de Montevidéu como os vietcongs usavam seus tuneis, cujo traçado, após terem pacientemente trocado as plantas originais do subsolo da cidade na prefeitura por registros falsos, só eles conheciam.
Perderam-se quando os líderes históricos foram substituídos por uma geração mais nova e militarista, alinhada ao perros do ERP argentino, críticos da postura Robin Hood dos primeiros tempos. Foram os primeiros a negociar seu salvo conduto com os militares, entregando os velhos líderes de bandeja.
Após presos, a cúpula histórica, nove ao todo, foram sacados numa noite do presídio de Liberdade (!) e, em grupos de três, revezados pelos quartéis do país. Trancados pelos catorze anos seguintes em buracos mínimos e sem janelas, quando não em poços com água até o joelho, passavam dias sem que lhes dessem de beber e comiam no chão aquilo que a tropa se recusava a ingerir. Proibidos de ler, escrever e receber visitas, alguns ficaram ao todo até cinco anos sem comunicação com ninguém alem das sentinelas, que não perdiam chance de maltratá-los, principalmente os mais jovens e aqueles que, por não ter tido a chance (ou a coragem) de combatê-los, tentavam impressionar o comando.
O que a não ser a reles vingança e sentimento de impunidade dos donos do poder, ultrajados com o fato de alguém haver questionado o monopólio do uso das armas que as forças armadas entendem ter, explica tal punição? Afinal eles não tinham mais nenhuma informação relevante e o movimento ja havia sido destruído.
Acontece que tiro saiu pela culatra. Ao tirá-los do convívio da militância encarcerada em Liberdade (!!), os militares os pouparam de longos debates e autocríticas próprias da esquerda, que fatalmente os teria desmoralizado e os devolvido a reles condição humana. Ao isolá-los dos outros e submetê-los a um tratamento barbaro, criaram os mártires e mitos com fama de indestrutíveis que quiseram evitar ao não matá-los no momento de suas prisões.
O fundador do movimento Raul Sendic, baleado no rosto ao ser preso em 72, não foi morto por que não se queria “criar outro Che Guevara”. Embora tenha morrido quatro anos após liberado, em conseqüência das seqüelas da prisão, outro dos Reféns da Ditadura (sim por que os generais alegavam que os matariam se o movimento continuasse a combater) Pepe Mujica é hoje o presidente da República Oriental do Uruguai. Coisa impensável para um Fierminich ou Vaca Narvaja na Argentina. Seu companheiro de movimento e calabouço Fernandes Huidobro, senador mais votado nas eleições que disputou, disse que pela primeira vez na historia o Uruguai tinha um presidente que já havia tomado a própria urina.
Aqui no BR, a esquerda armada não empolgou a época, mas também não é odiada. Dilma, que segundo a própria lavou muita louça com Lamarca é séria candidata a colega de Mujica. Assim como Serra, que não foi guerrilheiro, mas esteve exilado e quase foi morto no famigerado Estádio Nacional, transmutado em campo de concentração durante o golpe do Chile.
Trinta e sete anos depois daquele outro onze de setembro, Marco Enriquez, o filho do líder do MIR - Movimento da Esquerda Radical, foi também bem votado nessa eleição presidencial. Seu pai Miguel, morto pela Dina, poderia ter tomado o poder se Pinochet não o tivesse feito, já que Allende iria cair para um lado ou para o outro. Apesar da boa votação da esquerda, a presidente Bachelet acabou saindo pela direita, no movimento pendular próprio do continente.
Prova que o mundo mudou, durante seu mandato que agora finda no pico da sua popularidade, a dama do Chile optou por construir um museu que mostrasse para as novas gerações uma parte importante de sua historia, a perseguir esse ou aquele, apesar de também ter tido o pai assassinado pelo bondoso General Contreras e ter sido ela própria torturada.
E mesmo o velho Tupa parece não querer se alinhar com a esquerda carnívora do continente, representada por Chaves, cuja folha de lutas ao contrario da de Pepe e outros, é marcada pela covardia e oportunismo.
III
Mas voltemos ao Plano iluminado. É extremamente difícil entender e julgar comportamentos e atitudes daqueles tempos, auge da quentíssima guerra fria, seus maniqueísmos, perigos reais e inventados, pela ótica atual de um mundo completamente diverso e praticamente resolvido nos aspectos ideológicos. A grande questão hoje não é mais optar-se entre socialismo e capitalismo, já que o primeiro, esta provado, só funciona (e mal) com a policia na rua e o outro não necessariamente. Hoje se discute com muito mais propriedade o que deve permanecer publico e o que deve ser privado.
Alguns dos ex combatentes da esquerda mais esclarecidos, o presidente uruguaio entre eles, se alegram de não ter vencido, já que teriam de ter dizimado muitíssima gente pára consolidar e manter o poder. Allende não quis fazê-lo e caiu para direita, como teria caído para a esquerda um pouco mais a frente.
Se o preço a pagar pela paz social foi deixar facínoras de ambos os bandos soltos, agora é tarde. Parece mais demagogia eleitoral do que compromisso com a historia. Ou algo muito pior, uma desculpa esfarrapada para dar vazão ao ímpeto totalitario de parte da turma no poder.
Já que não foi feito na época devida, melhor seria fazer como disse o Marley via Gil:
-Deixar pra trás.
+++
`Epilogo:
Quanto a velha Argentina, que adotem agora e para sempre o slogan :
“O Peronismo se Evita”.
Tuesday, February 02, 2010
Tuesday, January 12, 2010
black super powers
Gostei de saber que o Capitão America será vivido no cinema pelo Will Smith. Alem de simpático e bom ator, Will é preto, o que da uma sobrevida a um personagem datado e maniqueísta.
Uma bela metáfora nesses tempos de Obama.
O herói nos anos 70 já tinha um sidekik negro, o Falcão e a Marvel Comics contava com alguns black heróis de segundo time, como o Pantera Negra e o Luke Cage. Mas daí a Steve Rogers, o alter-ego do Capitão, sempre pintado como um legítimo WASP, louro de olhos azuis – a cara que a América imaginava ver no espelho - vir a ser interpretado por um afro-negão, é uma dessas inovações que me fazem acreditar nos USA como instituição. Uma sociedade que sabe se reinventar começa por rever seus ícones. Muito antes de BO, hollywood já elegera vários presidentes negros. Repare, em quase todas essas produções B sobre o fim do mundo o presidente americano e preto.
.
Algo assim há meros quarenta anos nos USA, quando eu lia os gibis Marvel editados por aqui pela falecida EBAL, teria provocado certamente um boicote à editora de Stan Lee e Jack Kirby. Naquela época os pretos de la tocavam fogo nos subúrbios e até milícias armadas tinham (os Black Panthers, a quem o genial Stan homenageara com o já citado personagem, um príncipe duma pra la de fictícia civilização africana high tech) e os fantasmas da Klan ainda assombravam o Sul, enquanto nos aqui nos gabávamos de ser uma democracia racial instalada em uma ilha de paz e posteridade.
Resultado, quarenta anos depois quantos prefeitos ou deputados negros, para não falar em senadores ou ministros, você conhece no BR ? Pelé, Gil e outras instituições não contam. Agora pense nos médicos famosos, empresários, executivos ou modelos. Mesmo que Juliana Paes e outras tenham papeis de destaque nas novelas, não temos aqui um equivalente a Will, Denzel ou Morgan Freeman (que até Deus já fez) que, ao contrario de Sidney Pottier, não fazem necessariamente papeis de “pretos”.
Uma bela metáfora nesses tempos de Obama.
O herói nos anos 70 já tinha um sidekik negro, o Falcão e a Marvel Comics contava com alguns black heróis de segundo time, como o Pantera Negra e o Luke Cage. Mas daí a Steve Rogers, o alter-ego do Capitão, sempre pintado como um legítimo WASP, louro de olhos azuis – a cara que a América imaginava ver no espelho - vir a ser interpretado por um afro-negão, é uma dessas inovações que me fazem acreditar nos USA como instituição. Uma sociedade que sabe se reinventar começa por rever seus ícones. Muito antes de BO, hollywood já elegera vários presidentes negros. Repare, em quase todas essas produções B sobre o fim do mundo o presidente americano e preto.
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Algo assim há meros quarenta anos nos USA, quando eu lia os gibis Marvel editados por aqui pela falecida EBAL, teria provocado certamente um boicote à editora de Stan Lee e Jack Kirby. Naquela época os pretos de la tocavam fogo nos subúrbios e até milícias armadas tinham (os Black Panthers, a quem o genial Stan homenageara com o já citado personagem, um príncipe duma pra la de fictícia civilização africana high tech) e os fantasmas da Klan ainda assombravam o Sul, enquanto nos aqui nos gabávamos de ser uma democracia racial instalada em uma ilha de paz e posteridade.
Resultado, quarenta anos depois quantos prefeitos ou deputados negros, para não falar em senadores ou ministros, você conhece no BR ? Pelé, Gil e outras instituições não contam. Agora pense nos médicos famosos, empresários, executivos ou modelos. Mesmo que Juliana Paes e outras tenham papeis de destaque nas novelas, não temos aqui um equivalente a Will, Denzel ou Morgan Freeman (que até Deus já fez) que, ao contrario de Sidney Pottier, não fazem necessariamente papeis de “pretos”.
Tuesday, January 05, 2010
anchovas ou faça sol II
os gnominhos que batizam os restaurantes de Floripa estao cada vez mais criativos. Esse ano despontam o Maria Vai Com As Ostras e no quesito "por quilo" o ja tradicional Fi-lo Por que Kilo.
Friday, August 14, 2009
Thursday, August 13, 2009
Friday, August 07, 2009
ex-terminators
Na medida em que a longevidade aumenta e que a política aos poucos deixa de ser um monopólio dos velhos, teremos mais e mais de conviver com ex-presidentes,que, como num filme de George Romero,após seus mandatos continuarão a nos assombrar por um bom tempo.
Quando Clinton assumiu em 93 lembro de ter lido que pela primeira vez na historia um presidente americano era mais jovem do que Mick Jagger.Hoje a maioria dos heróis musicais de minha geração é pelo menos dez anos mais velhos do que Obama.
Se reeleito, BO terá uns 55 anos quando se tornar, conforme a tradição americana, moralmente inelegível. Não é fácil continuar vivo já tendo ocupado o trono no topo do mundo, principalmente quando se é relativamente jovem. Será duro para ele se manter ativo para não virar um estranho como Neil Armstrong, ao mesmo tempo em que mantém a dignidade pessoal e protocolar do seu ex-cargo.
No que diz respeito à postura e comportamento só temos um ex- presidente americano no BR:FHC. Os outros, Sarney e Collor (Itamar quem?) valha-me Deus. Os militares, felizmente para nós e para eles, já se foram, evitando constrangimentos.
Enquanto Bill, como um Capitão America de verdade salva mocinhas das garras desse Fumanchu moderno, o pequeno líder Kim Jong, e o velho Amendoim Carter este sempre disposto a praticar uma boa ação em qualquer canto do mundo, Sarney e Collor fazem coisas de Sarney e Collor, só que agora em bando.
Quando Clinton assumiu em 93 lembro de ter lido que pela primeira vez na historia um presidente americano era mais jovem do que Mick Jagger.Hoje a maioria dos heróis musicais de minha geração é pelo menos dez anos mais velhos do que Obama.
Se reeleito, BO terá uns 55 anos quando se tornar, conforme a tradição americana, moralmente inelegível. Não é fácil continuar vivo já tendo ocupado o trono no topo do mundo, principalmente quando se é relativamente jovem. Será duro para ele se manter ativo para não virar um estranho como Neil Armstrong, ao mesmo tempo em que mantém a dignidade pessoal e protocolar do seu ex-cargo.
No que diz respeito à postura e comportamento só temos um ex- presidente americano no BR:FHC. Os outros, Sarney e Collor (Itamar quem?) valha-me Deus. Os militares, felizmente para nós e para eles, já se foram, evitando constrangimentos.
Enquanto Bill, como um Capitão America de verdade salva mocinhas das garras desse Fumanchu moderno, o pequeno líder Kim Jong, e o velho Amendoim Carter este sempre disposto a praticar uma boa ação em qualquer canto do mundo, Sarney e Collor fazem coisas de Sarney e Collor, só que agora em bando.
Thursday, July 23, 2009
Child of the moon
Planet earth is blue, and there is nothing i can do
DBowie – Space Oditty
Eu tinha seis anos quando a Apolo XI pousou na Lua. HQ freak que eu era, enchi dúzias de cadernos de desenho com a minha interpretação da saga lunar. Como cada desenho ocupava uma pagina inteira, devo ter dizimado alguma floresta por ai
Tinha os astronautas entrando no foguete Saturno, a decolagem, o foguete se decompondo em três partes, cápsula e o modulo lunar voando grudados em direção a Lua, o desacoplamento, o pouso da aranha, Armstrong saindo de bordo para uma volta pelo Mar da Tranqüilidade, a cabeça do modulo sendo lançada de vota ao espaço deixando o corpo para trás e para sempre na superfície lunar, a volta a Terra, a cápsula caindo de para quedas, o Porta aviões recolhendo a balsa, os astronautas desfilando num conversível sob uma chuva de papeis picados..
Tudo na interpretação pueril de menino que as amigas de minha avó, carentes de filhos e netos, tratavam como se fossem os esboços da Capela Sistina.
No Brasil pró- EUA que vivíamos era como se a bandeira enfiada no solo lunar fosse verde amarela. A imprensa ocidental fazia crer que o mundo livre tinha finalmente devolvido aos russos a bola nas costas do Sputnik., e a lua não seria enfim uma base de mísseis soviética.
No colégio nem nos dávamos conta disso. Ficávamos imaginando que la pelos 2.000 poderíamos escolher entre morar na Terra, numa daquelas bases lunares que a revista Manchete trazia em desenhos hiper realistas, ou nas mega estações espaciais que girariam no espaço ao som de Strauss, como em 2001 de Kubrick.
Astronauta era a escolha de dez entre dez garotos quando respondíamos à inevitável “o que vai ser quando crescer”.
Portanto nada poderia desapontar mais um menino de 1969 do que ser transportado 40 anos para o futuro e ver que nada daquilo ocorreu. Os maravilhosos foguetes da Classe Saturno que remetiam a Jules Verne e eram devoradas por seus filhos cápsula e aranha a cada viagem, foram substituídos por burocráticos ônibus espaciais, mais baratos e rentáveis justamente por serem reaproveitáveis. Parecendo toscos aviões, faturam uma bolada para a NASA, eparando e posicionando satélites, um fim melancólico para a Escola de Sagres do Século XX, que acabou virando um misto de oficina mecânica e empresa de entregas espaciais, uma Planet Express de Futurama.
Nada nesses quarenta anos, evoluiu como as comunicações e sua variante a mais nobre, a informática. Todas as outras conquistas tecnológicas foram quase pífias em comparação. O pouso da Águia, que assisti numa imagem borrada preto e branca de uma Telefunkem monstrenga, seria visto hoje em altíssima resolução digital num IPod do tamanho das extintas caixas de fósforo olho, beija flor e moça. . De qualquer forma duvido que recém saídos de uma Camara de criogenia ou da maquina do tempo, ficássemos impressionados com micro computadores ou celulares quando esperávamos carros voadores e naves que nos levariam por cruzeiros pelas luas de Júpiter.
Nunca saberemos ao certo o quanto a indústria que ajuda a desenvolver novas tecnologias impede em alguns momentos o avanço de outras, que seriam prejudiciais aos seus negócios. Nada de teorias conspiratórias como acreditar que a Exxon ou a Shell teriam comprado e arquivado o plano de um carro movido a suco de melancia ou algo assim, mas sempre me questionei o por que de o avião que já tem mais de cem anos e ninguem ter feito um modelo barato e fácil o suficiente para ser manejado pelas pessoas comuns.
E quanto à roupa voadora, que foi apresentada na Olimpíada de Los Angeles e depois no Sambódromo como novidade, mas que já existia desde os anos 60 e que nunca foi produzida em escala industrial. E eu que achava que aos 40, teria um guarda roupa cheio delas, nas mais diversas cores e modelitos.
Não significa que a raça humana não tenha avançado. Parafraseando não sei quem, costumo dizer que o mundo é horrível, mas nunca foi tão bom. Não trocaria a época atual por nenhuma outra e essa idéia romântica que temos do passado é muito fruto dos filmes de Hollywood que retratam um príncipe desdentado e fedorento com os dentes do Tony Curtis e as roupas impecavelmente passadas, mesmo tendo passado dias em cima de um cavalo.
Não vou retroagir aos tempos pré anestesia ou das invasões bárbaras, quando você podia acordar com um Ostrogodo ululante na sua sala de estar. Fiquemos no momento em que os rapazes da Apolo viram a bolinha azul nascendo por detrás das montanhas lunares. .
- Para um período conhecido por guerra fria, as coisas estavam bem quentes por aqui. O Vietnã habitava os corações e mentes dos jovens e inspirava um até certo ponto merecido antiamericanismo, que por pouco não pinta o mundo de vermelho. O quaker Dick e o judeu Henry com seus truques e armações, embora tenham importância histórica vistos de hoje, não ajudavam em nada melhorar a imagem do país.
-A União Soviética no mapa, parecia estar a ponto de engolir a Europa, e a juventude do continente que dava por certa uma terceira guerra em seus quintais, cultivava aquela atitude de no tomorrow.
- A America Latina disputada por guerrilheiros insanos e militares desmiolados, criava uma divida que levaria trinta anos de crescimento zero para ser paga.
- O Brasil era uma mistura de quartel e fazenda no qual os que não macaqueavam os americanos, torciam pelo Fidel, onde as pessoas que tinham algum contato com o exterior eram quase tão astronautas quanto Neil, Buzz and Mike.
Poderia se dizer que haviam naqueles anos movimentos culturais como a musica que eram elementos de transformação, e que isso se perdeu para o aspecto puramente entertainement. Não acho isso ruim e concordo com o Prof. Correia que diz que a tecnologia é hoje o fator de mudança social. Se você quiser ouvir Dylan berrando contra o Vietnã, é como se ele estivesse ali ao seu lado.
Mas quem imagina que o terrorismo islâmico ou a gripe suína sejam uma ameaça, realmente não viu nada.
DBowie – Space Oditty
Eu tinha seis anos quando a Apolo XI pousou na Lua. HQ freak que eu era, enchi dúzias de cadernos de desenho com a minha interpretação da saga lunar. Como cada desenho ocupava uma pagina inteira, devo ter dizimado alguma floresta por ai
Tinha os astronautas entrando no foguete Saturno, a decolagem, o foguete se decompondo em três partes, cápsula e o modulo lunar voando grudados em direção a Lua, o desacoplamento, o pouso da aranha, Armstrong saindo de bordo para uma volta pelo Mar da Tranqüilidade, a cabeça do modulo sendo lançada de vota ao espaço deixando o corpo para trás e para sempre na superfície lunar, a volta a Terra, a cápsula caindo de para quedas, o Porta aviões recolhendo a balsa, os astronautas desfilando num conversível sob uma chuva de papeis picados..
Tudo na interpretação pueril de menino que as amigas de minha avó, carentes de filhos e netos, tratavam como se fossem os esboços da Capela Sistina.
No Brasil pró- EUA que vivíamos era como se a bandeira enfiada no solo lunar fosse verde amarela. A imprensa ocidental fazia crer que o mundo livre tinha finalmente devolvido aos russos a bola nas costas do Sputnik., e a lua não seria enfim uma base de mísseis soviética.
No colégio nem nos dávamos conta disso. Ficávamos imaginando que la pelos 2.000 poderíamos escolher entre morar na Terra, numa daquelas bases lunares que a revista Manchete trazia em desenhos hiper realistas, ou nas mega estações espaciais que girariam no espaço ao som de Strauss, como em 2001 de Kubrick.
Astronauta era a escolha de dez entre dez garotos quando respondíamos à inevitável “o que vai ser quando crescer”.
Portanto nada poderia desapontar mais um menino de 1969 do que ser transportado 40 anos para o futuro e ver que nada daquilo ocorreu. Os maravilhosos foguetes da Classe Saturno que remetiam a Jules Verne e eram devoradas por seus filhos cápsula e aranha a cada viagem, foram substituídos por burocráticos ônibus espaciais, mais baratos e rentáveis justamente por serem reaproveitáveis. Parecendo toscos aviões, faturam uma bolada para a NASA, eparando e posicionando satélites, um fim melancólico para a Escola de Sagres do Século XX, que acabou virando um misto de oficina mecânica e empresa de entregas espaciais, uma Planet Express de Futurama.
Nada nesses quarenta anos, evoluiu como as comunicações e sua variante a mais nobre, a informática. Todas as outras conquistas tecnológicas foram quase pífias em comparação. O pouso da Águia, que assisti numa imagem borrada preto e branca de uma Telefunkem monstrenga, seria visto hoje em altíssima resolução digital num IPod do tamanho das extintas caixas de fósforo olho, beija flor e moça. . De qualquer forma duvido que recém saídos de uma Camara de criogenia ou da maquina do tempo, ficássemos impressionados com micro computadores ou celulares quando esperávamos carros voadores e naves que nos levariam por cruzeiros pelas luas de Júpiter.
Nunca saberemos ao certo o quanto a indústria que ajuda a desenvolver novas tecnologias impede em alguns momentos o avanço de outras, que seriam prejudiciais aos seus negócios. Nada de teorias conspiratórias como acreditar que a Exxon ou a Shell teriam comprado e arquivado o plano de um carro movido a suco de melancia ou algo assim, mas sempre me questionei o por que de o avião que já tem mais de cem anos e ninguem ter feito um modelo barato e fácil o suficiente para ser manejado pelas pessoas comuns.
E quanto à roupa voadora, que foi apresentada na Olimpíada de Los Angeles e depois no Sambódromo como novidade, mas que já existia desde os anos 60 e que nunca foi produzida em escala industrial. E eu que achava que aos 40, teria um guarda roupa cheio delas, nas mais diversas cores e modelitos.
Não significa que a raça humana não tenha avançado. Parafraseando não sei quem, costumo dizer que o mundo é horrível, mas nunca foi tão bom. Não trocaria a época atual por nenhuma outra e essa idéia romântica que temos do passado é muito fruto dos filmes de Hollywood que retratam um príncipe desdentado e fedorento com os dentes do Tony Curtis e as roupas impecavelmente passadas, mesmo tendo passado dias em cima de um cavalo.
Não vou retroagir aos tempos pré anestesia ou das invasões bárbaras, quando você podia acordar com um Ostrogodo ululante na sua sala de estar. Fiquemos no momento em que os rapazes da Apolo viram a bolinha azul nascendo por detrás das montanhas lunares. .
- Para um período conhecido por guerra fria, as coisas estavam bem quentes por aqui. O Vietnã habitava os corações e mentes dos jovens e inspirava um até certo ponto merecido antiamericanismo, que por pouco não pinta o mundo de vermelho. O quaker Dick e o judeu Henry com seus truques e armações, embora tenham importância histórica vistos de hoje, não ajudavam em nada melhorar a imagem do país.
-A União Soviética no mapa, parecia estar a ponto de engolir a Europa, e a juventude do continente que dava por certa uma terceira guerra em seus quintais, cultivava aquela atitude de no tomorrow.
- A America Latina disputada por guerrilheiros insanos e militares desmiolados, criava uma divida que levaria trinta anos de crescimento zero para ser paga.
- O Brasil era uma mistura de quartel e fazenda no qual os que não macaqueavam os americanos, torciam pelo Fidel, onde as pessoas que tinham algum contato com o exterior eram quase tão astronautas quanto Neil, Buzz and Mike.
Poderia se dizer que haviam naqueles anos movimentos culturais como a musica que eram elementos de transformação, e que isso se perdeu para o aspecto puramente entertainement. Não acho isso ruim e concordo com o Prof. Correia que diz que a tecnologia é hoje o fator de mudança social. Se você quiser ouvir Dylan berrando contra o Vietnã, é como se ele estivesse ali ao seu lado.
Mas quem imagina que o terrorismo islâmico ou a gripe suína sejam uma ameaça, realmente não viu nada.
Made in china – hong kong

Decio Pignatari escreveu que o que interessa na poesia é o que não e poesia. Pois é, Hong-Kong é a China, sem ser a China, mesmo sendo a China, o que a faz mais interessante que a própria China.
Explico:
Certas coisas que eu esperava ver na China continental tais como aglomeração de gente, mercados de rua vendendo monstrinhos alimentícios, boat people e juncos navegando, acabei vendo somente em Hong-Kong.
Não que essas coisas não existam nas outras cidades, só que você, restrito as áreas especiais onde os visitantes ficam confinados, não vê. Já não é necessário como até bem pouco tempo ter um guia oficial do partido colado em você, e formalmente pode-se ir onde quiser em Peking ou Shangai. Somente que as regiões onde estão os hotéis, restaurantes e escritórios são justamente as mais novas, portanto menos representativas do nosso imaginário.
Já na ilha as coisas estão menos segregadas, e a falta de espaço cria uma saudável promiscuidade. Não trabalho bem com dados, mas algo em torno de seis milhões se espremem num lugar relativamente pequeno, fazendo de HK uma cidade vertiginosa.
Um movimentadissimo sistema de barcaças e embarcações menores liga as duas margens da baia nas quais a cidade, limitada entre a montanha e o mar como um Rio de Janeiro high.-tech, cresce somente para cima, sob a forma de arranha-céus e em construções nas encostas das montanhas que nada lembram nossas favelas. Uma escada rolante publica provavelmente a mais longa do mundo faz às vezes de transporte urbano.
Aqui respira liberdade política, coisa que a anexação a China, num modelo que eles chamam de “um território, dois sistemas“, não conseguiu apagar, graças à bendita influencia britânica. Nesses dias que antecedem o aniversario do Massacre de Tiannamem, milhões de pessoas que passam por dia pelo píer das barcaças são expostas a fotos horrendas de pessoas desmembradas e da carne moída no quatro de junho de 89, alem de denuncias de tortura (chinesa já ouviu falar?) infringida a um grupo chamado Falun Gong, que se assemelha a pratica de taichi ou yoga, mas que por algum motivo é perseguido pelo PCI. O líder do improvável Partido Liberal tinha acabado de receber uma ameaça de morte que ele não atribui aos comunistas continentais:
-Eles não seriam tão estúpidos.
Encontro meu velho amigo Jon, neozelandês com passagem por Curitiba e partimos para um mundo a parte em Lantai, uma ilha próxima, onde o fato da terra ser sujeita a deslizamentos, impediu a mega especulação imobiliária que muda a face de Hong-Kong a cada ano Uma estatua no topo da montanha, espécie de Buda Redentor e um mosteiro budista são o contraponto perfeito a megalópole super-populosa.
The end.
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