Thursday, May 31, 2012

nem paris nem vegas

Influenciado por amigos cuja opinião respeito, que por aqui andaram e detestaram, quase não vim a Dubai. Mas,como sei que gostar ou não de determinado lugar depende muito do grau pessoal e intransferível de expectativa, baixei a guarda, vim, vi e gostei.

O que eles esperavam, afinal: Paris no deserto?

Como disse recentemente o Olavio: grana, apenas, não compra nada. No entanto, dentro do que é possível fazer “somente” com recursos financeiros (quase ilimitados!), Dubai tem coisas admiráveis e merece, assim como Meca para os muçulmanos, ao menos uma visita na vida.

Entendo o mau humor dos amigos. Também não sou fã da estética árabe e sei perfeitamente que este é um lugar sem alma. Mas, aqui, até o kitsch é relativo, não se vê todo aquele dourado e veludo vermelho que temia encontrar — pois, como disse em relação à Doha, até bom gosto é comprável.

Só agora no BR é que estamos deixando de ser provincianos no que tange à arquitetura (o fim da ditadura Niemayer?) e contratando um Santiago Calatrava para o museu do Rio, enquanto aqui eles já trabalham com Ando, Hadid, Norman Foster e outros do mesmo naipe há anos.

Há claro, construções de extremo mau gosto, como uma réplica muito maior do Big Ben (um tapa de luva de boxe na antiga metrópole?) e outras monstruosidades, mas veem-se também coisas muito belas como as torres Emirates e o Burj Khalifa, de onde escrevo e cujo desenho remete muito sutilmente a um minarete. Mesmo o Burj Arab, o tal hotel-vela que dizem ser horrendo por dentro (não quis pagar para ver), é lindo por fora.

Tem muito de preconceito nisso. Ninguém reclama, por exemplo, do castelo da Cinderela no meio dos pântanos da Florida, copiado do já ultra-cafona Neuschwanstein de Ludwig II da Baviera, o rei biruta. Nem de uma pirâmide egípcia, uma Veneza ou a torre Eiffel (olha Paris ai de novo gente...) no deserto de Nevada. E Vegas não foi também uma forma de transformar areia em dinheiro? Aqui, ao menos, o genial Sheik Mohamed, o Deng Xiaoping local, não teve que lançar mão da casadinha infalível jogo, bebida e prostituição.

Na China dos anos oitenta, permitiu-se a existência de zonas especiais onde o capitalismo era incentivado, que acabaram tomando conta do resto do país. Aqui, cria-se pela mão de gente inteligente e bem intencionada como Mohamed (que, afinal, poderia ter enterrado esse dinheiro todo, como fizeram seus antecessores nas primeiras altas do petróleo, comprando, por exemplo, Paris!) o que poderá vir a ser um laboratório da mudança de costumes no mundo árabe. Tudo bem que, como no Catar, o consumo de álcool ainda aconteça só nos hotéis e que beijos nos shoppings (as placas avisam) nem pensar. Mas, na Arábia Saudita ou no Irã, eu teria sido preso junto com o namorado da Paulinha Scalco, que vive aqui e me recebeu gentilmente, só pelo fato de estarmos os três no mesmo carro. Namorados por aqui não passam a noite juntos, me conta o concierge brasileiro (se os vizinhos dedam, correm risco de ser deportados), mas podem passear de mãos dadas na rua sem tê-las cortadas.

Gosto de skyscrapers desde que meu avô me contou que, ao passear por Nova York nos anos cinqüenta, teve que deitar no chão para poder ver o Empire State Building por inteiro. Naquela época, quase ninguém ia aos EUA. Era proibitivo. O dólar era Dólar, os transportes caríssimos e não havia as CBC e Tias Augustas de hoje em dia. Meus avos precisaram vender um carro e raspar a poupança para que minha mãe pudesse retirar um pulmão doente num hospital de lá (o que, hoje, seria feito, no máximo, em SP).

Por conta dessa fixação, me hospedei no Burj Khalifa. Não no hotel fictício que o Tom Cruise escala no ultimo “Mission Impossible” (cuja trama é risível: quem venderia segredos nucleares num lugar tão high profile?), mas no Armani, que ocupa, para minha frustração, os andares mais baixos do edifício. De qualquer forma, é inusitado dormir em baixo de um milhão de toneladas.

Era para chamar-se Burj Dubai, mas a conta ficou alta demais e o califa de Abu Dhabi, que manda aqui, só liberou uns dinares a mais em troca do nome. Com 800 metros de altura, às 17h46min do dia 22 de maio de 2012, quando escrevi isso, detinha o titulo de o mais alto do mundo. E assim será até que outro sheik desses se invoque e faça um ainda mais alto, em qualquer outro dos Emirados. Ou aqui mesmo, como já está nos planos. Meu avô teria de se enterrar na areia para vê-lo de baixo a cima . E o velho King Kong, comer muita banana para escalá-lo, já que tem mais do que o dobro da altura do seu predecessor nova-iorquino.

Na sua frente fica o Dubai Mall, também- adivinhe? – o maior do mundo. Experimente perder uma criança por lá e irá encontrá-la já adolescente. Todas as marcas que interessam estão presentes, além de várias que nunca ouvi falar. Penso comigo que os curitibanos que levam uma existência bondosa, vêm parar aqui depois que morrem.

Por algum motivo que não entendi bem, a temperatura e bem mais amena que a do Catar.

Enfim, não vou substituir Londres, Chicago ou Barcelona por Dubai na minha escala de preferência, mas gostei de ter vindo aqui. Vale para perceber exatamente o que o dinheiro compra. E o que não.

Thursday, May 24, 2012

alah e quatariano


Abriram as portas do inferno. É o que penso cada vez que saio de um táxi e entro em qualquer recinto fechado, ou vice versa, aqui em Doha, no reino do Qatar.

Todos os anos participo de uma conferência internacional sobre fertilizantes que já me levou a lugares fantásticos como Istambul, Moscou, Shangai e outros nem tanto. Quanto a este aqui, só posso dizer que é surpreendente por certo aspecto, extremamente perturbador por outro e quente, quente como a sauna do capeta.

Mesmo durante a madrugada, a temperatura é insuportável, desmentindo aquela ideia que o deserto é frio à noite. O mar, no qual mergulhei a mão por curiosidade, tem a temperatura de uma Jacuzzi. Os peixes por aqui já vêm cozidos no anzol.

Sempre li sobre esses “petroreinos” nos quais as fortunas das famílias reais se confundem com a riqueza do Estado, como se o Emir tivesse (e tem!) um cheque em branco do Banco Central. Ocorre que essa gente hoje é um pouco mais esclarecida (estudaram em Londres e na Suíça), mas ainda projetam seus egos imensos nas construções e na maneira com que administram seus potentados.

O “skyline” de Doha rivaliza com os de Shangai e Hong Kong. Desde que os americanos fizeram de Nova York um outdoor à sua pujança econômica no começo do século XX, todos os novos ricos do mundo almejam sua própria Manhattan. E, inevitavelmente, cometem exageros típicos do “novo-riquismo” (imagino quão jecas Rockfeller e Vanderbilt pareciam aos olhos da aristocracia europeia), ao mesmo tempo em que erguem coisas belas. Afinal, os grandes escritórios de arquitetura estão aí para isso mesmo. É só pagar. O resto é calor, areia e tédio.

Os habitantes daqui pouco fazem além de fumar seu narguilés e andar em bando, fingindo nos ignorar. Os homens, vestindo as indefectíveis e idênticas túnicas brancas, e as mulheres, as burkas negras, mostrando que em qualquer sociedade quem sofre mais sempre são elas. (É curioso como uma das principais características da independência econômica, que é a afirmação da individualidade por meio da livre escolha das roupas que vestimos, por aqui não consegue superar a tradição.)

Não há como não pensar em Metrópolis (não aquela do Superman, mas a do Fritz Lang), no qual a belíssima cidade-modelo do futuro é viabilizada pelos escravos em seu submundo. Aqui, quem trabalha de verdade são os indianos, paquistaneses, sri lankans, filipinos e outros primos pobres, além dos nativos da África Sub Saariana. Simpaticíssimos (simpatia do tipo “Sahib”, que fique claro) e incansáveis, vivem em condições terríveis (barracas no deserto) e passam dois anos, no mínimo, sem poder voltar pra casa (“a.k.a” escravidão). Além disso, nunca recebem cidadania e após cinco anos têm de partir para sempre – uma política radical de prevenção a favelas que priva os verdadeiros construtores da cidade de desfrutá-la. Provavelmente, também não entram na conta da renda per capta, que coloca o Qatar somente abaixo do bairro suíço que é Liechtenstein, povoado por vinte e três mil pessoas e vinte e quatro mil automóveis.

Quem paga isso tudo não é o petróleo, mas o gás natural, que turbina joint-ventures para produção de fertilizantes e petroquímicos. O Sheik se associa a empresas estrangeiras, mantendo a maioria do capital e entregando a gestão e a governança aos sócios. Uréia e areia.

Não é possível existir civilização a mais de 35º C, a menos que seja comprada. Portanto, o Qatar não deixa de ser o reverso da medalha de Nunavut, território do Canadá no qual o governo paga cinco mil dólares para quem estiver disposto a morar a trinta graus abaixo de zero, com três horas de claridade por dia. Como aqui ninguém paga imposto, fica fácil de fazer, por exemplo, da Catar Airways, a companhia aérea com o melhor serviço do mundo, o que pude comprovar no tapete mágico que nos trouxe aqui.

Agora, fosse eu o honorável Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani (conhecido aqui por الشيخ حمد بن خليفة ال ثاني‎), deixaria um gerentão cuidando do gás e compraria um pedaço de terra mais aprazível (praticamente qualquer lugar do mundo é mais aprazível do que esse) onde construiria a cidade. Não há como não imaginar esses hotéis, réplicas maiores e mais luxuosas do templo de Amenófis III (aonde príncipes árabes vindos de Estados mais rígidos bebem álcool no quartos) habitados por cabras e lagartos no futuro, quando o gás acabar.

Quanto será que o Sarney quer pelo Maranhão?





Tuesday, May 15, 2012

Wednesday, April 11, 2012

is justice just ice?

Ela é um caso raro de multiartista: excelente cantora, inspirada compositora, poeta sofisticada e guitarrista de mão cheia. Minha paixão por ela reacendeu-se ao assistir pela milésima vez “Love Actually”, filme que o Cescatto chamou acertadamente de “a comédia romântica definitiva”, no qual ela canta “Both Sides Now” enquanto Emma Thompson interpreta uma das mais tristes cenas do cinema, ao menos do ponto de vista feminino:a cena do presente de natal.

Logo após a reprise do filme, revi “Painting With Words and Music”, registro em DVD de um mix de concerto e vernissage que rolou em Los Angeles, no qual ela, Joni Mitchel, canta e expõe seus personalíssimos quadros. Depois de uma magnífica versão de “Hejira”, a canadense engata um discurso ao qual eu não havia prestado a devida atenção em minhas visitas anteriores ao disco, que me emocionou a ponto de me tirar do bloqueio para escrever que eu atravessava.

Logo após os “L.A. Riots” de 1992, quando os negros dos bairros pobres tocaram fogo em metade da cidade dos anjos, em resposta à morte de certo Rodney King pela “LAPD”, Joni parou num sinal de transito atrás de um Cadillac em cuja placa dizia tão apenas: “Just Ice”.

O trocadilho a intrigou tanto que ela chegou a consultar vários advogados sobre o conceito de Justiça. Nenhum deles a satisfez. Alguém, então, sugeriu a ela que lesse a República, de Platão, texto em que a justiça social é descrita como uma sociedade de especialistas – o que, tomado ao pé da letra, só deu errado pela história a fora. Nunca li filosofia a sério e sou pouco familiarizado com Platão (talvez porque tenha elegido Joni, Leo, Bob, John, Pete e outros como meus “filósofos”), mas acho tudo aquilo um tanto fascista, algo como uma sociedade de formigas.

Joni prossegue contando que a pintora Georgia O’Keeffe disse a ela que adoraria ter aprendido a tocar um instrumento (JM é eximia guitarrista e já teve em sua banda gente do calibre de Pastorius, Brecker, Metheny, Hancock e Shorter,“to name a few”),mas que achava não ser possível fazer decentemente as duas coisas no intervalo de uma vida. Ela, que passou a vida cantando, pintado, escrevendo e compondo, de forma magistral, disse achar perfeitamente possível e lamentou que Georgia tivesse sido criada numa época em que lhe foi imposta essa espécie de conceito de criatividade “monofásica”. E imagina que a velha e genial pintora poderia ter sido, também, por exemplo, uma grande violinista.

Quanto à sua sede de justiça, provavelmente a única coisa que a saciou, ainda que parcialmente, foi escrever essa bela letra que traduzi em sociedade com o sábio Prof. Correa, de forma meio literal. Admito que o contexto da época (AIDS e destruição da camada de ozônio, problemas relativamente sob controle hoje em dia) soe ultrapassado, mas vivi aquele momento e gosto da forma com que ela o descreve.

Além do mais, a ânsia por compreender essa estátua de gelo, com os olhos vendados e a balancinha na mão é algo, a meu ver, atemporal.

“Sex Kills”

Parei atrás de um Cadillac outro dia
E li a placa que dizia:
“Just Ice”!

Será só isso mesmo a justiça:
“Just Ice”?
Uma roleta movida por cobiça e luxuria?
Os fortes dando as fichas
E os fracos sempre entrando numa fria?

E dá-lhe gasolina pingando.
Olha quanto óleo derramado.Sexo vende qualquer coisa.
Sexo mata!

As pílulas dos doutores causam novas dores.
E uma avalanche de contas soterrou
Nossos valores.
Advogados nunca foram tão populares
Desde que Robespierre mandou
As guilhotinas pela França cantarem.
.
Os velhos caciques sabem
Que o equilíbrio se desfez –
Os átomos endoidaram de vez!
Veja o trânsito: motoristas aos gritos,
Volantes voláteis,ódio e conflito.



E dá-lhe gasolina pingando.
Olha quanto óleo derramado.Sexo vende qualquer coisa.
Sexo mata!

Masturbadores malucos nos escritórios,
Molestadores subaquáticos nas piscinas,
Tragédias nos berçários,
Garotos aos tiros nas escolas,
Úlceras na camada de ozônio,
Tumores brotando na pele,

E o sol,nem aí,lá no alto,
Botando fogo na casa.

E dá-lhe gasolina pingando.
Olha quanto óleo derramado.Sexo vende qualquer coisa.
Sexo mata!

Friday, February 17, 2012

Pais, Paz, País

Desde o nascimento de meu primeiro filho em 92, tramas que envolvam pais/filhos me emocionam, muitas vezes às lagrimas. Vi dias atrás (e recomendo) o documentário Os Pecados De meu Pai sobre o cidadão colombiano/argentino Sabastian Marroquin, que até os dezesseis anos atendia pelo nome de Juan Pablo Escobar.

Juan/Sebastian teve uma infância de sonhos. Vivia numa fazenda com leões, elefantes e girafas. Uma estátua de John Lennon em ouro e o primeiro teco-teco/mula do pai num pedestal (nada pode ser mais kitsch de que um bandido rico) adornavam o jardim. Brincava nos lagos privados da propriedade com jet-skis quando esses ainda eram protótipos e tinha até uma pista de corrida para carrinhos infantis. De repente vê o mundo cair em sua cabeça, quando Pablo Pai se torna o inimigo publico numero um do planeta Terra.

Em meados dos anos 80 Pablo Emilio Escobar Eviria já há muito era o maior capo do trafico colombiano. A Forbes chegou a considerá-lo o sétimo homem mais rico do mundo, posição que hoje é do Eike B. Ai comete o erro fatal de se meter em política (ela, sempre ela) se filiando ao recen-formando Partido Liberal. Seus fundadores Lara Bonilla e Gallan, quando se dão conta de quem era aquele benemérito membro do diretório de Medelín, temerosos por suas imagens e respectivos futuros políticos (tipo assim, político pode ser bandido, mas bandido não pode ser político), o expulsam da agremiação. Passam então a atacá-lo sem dó nem piedade.

Lara, nomeado ministro da Justiça, não lhe da trégua, ate que PE, humilhado pela expulsão e cego de raiva pela campanha movida contra ele, lhe envia uma de suas famosas cartas nas quais a vítima era convidada para seu próprio enterro, e digamos, certifica-se que ele compareça.

Decreta por conseqüência o início de sua derrocada.

Gallan então se candidata a presidência da Colômbia encampando a bandeira anti Escobar e também é morto, na frente dos filhos. A partir daí o presidente Cesar Gavira faz da caça e destruição de Escobar a prioridade numero zero de seu Governo.

Mas o que teme um homem com dinheiro suficiente para corromper todo um estado, adepto da política do plata ou plomo?

Resposta: A extradição para um estado quase incorruptível (ao menos quando se trata de traficantes cucarachas) - os Estados Unidos da America do Norte. A partir daí Escobar inicia uma campanha ultra-terrorista, seqüestrando e matando, explodindo prédios e aviões, e que visa forçar (e força) o parlamento a tornar ilegal a extradição de cidadãos colombianos.

Tarde demais, o DEA, o governo e os Pepes (Perseguidos por Pablo Escobar - agremiação de ex-colaboradores, membros de cartéis rivais e parentes de vitimas) querem o seu bigodão separado do resto do corpo e ele acaba morto num patético telhado de Medelín.

Juan Pablo jura vingança e escapa com a mãe por pouco de um aeroporto já quase tomado pelos Pepes.Pena mundo a fora levando portas na cara de vários países, até parar na solidaria (e sempre afeita a um caixinha ) Argentina.

Pois bem, dois momentos do documentário marcam sobremaneira:

- JPablo recordando a cena dele quando menino em uma casa cercada pelo exército, que não ousava invadir mas impedia a entrada de viveres. Faminto, olha para dois milhões de dólares em cima da mesa de jantar e percebe a inutilidade do dinheiro naquelas circunstancias. Serviria talvez para acender a lareira, não fosse verão na Colômbia.

-O encontro e os diálogos de Sebastian com os filhos de Lara Bonilla e Gallan numa suíte de um Hotel em Bogotá.

Na primeira tem-se a nítida impressão(e JP conclui isso, ao renunciar a seu pai e seu legado) que nenhum dinheiro, além do honesto vale a pena ser ganho. Gasta-lo e aproveitar-se dele tem muito haver com o modo pelo qual foi obtido, e se não se tem liberdade para usá-lo, vale menos do que um cacho de banana. Penso que nossos homens públicos, e mesmo alguns privados, perceberiam isso e não teriam vida fácil se a sociedade brasileira não fosse tão invertebrada e passasse a desprezar seus estilos de vida incompatíveis e inexplicáveis. Deveríamos todos levantar de um restaurante caro e ir embora quando entrasse um corrupto comprovado, mas ninguém o faz.

A segunda remete ao necessário corte nos ódios e sentimento de vingança que é preciso fazer em certas circunstâncias históricas, em nome do futuro e da própria vida. Assim como os meninos da Colômbia, a geração européia pos 45 fez tal opção. Resultado: dez anos após o termino da guerra era possível para um alemão tirar uma foto com a torre Eiffel ao fundo sem ser importunado

Angelo Jagger

Meu amigo Angelo Vanhoni esta na Rolling Stone. Essa ai da capa com o Jimi Hendrix, que traz a matéria sobre os maiores guitarristas da historia (como o Clapton aparece em segundo atrás somente do Hendrix, passa ser o maior guitarrista vivo, seguido do Page...chupa essa manga Walmor !) . ]

Não, Ângelo não é um herói das cordas, e sim um Quixote da educação. Montado no Rocinante da perseverança, vem há anos se batendo contra os dark satanic mills da burocracia, imobilismo e desinteresse do(s) governo(s) e da sociedade como um todo nessa que é a Jerusalém que deve ser construída em nossas verdejantes e aprazíveis pastagens .

Qualquer político pode (mas não deve, a não ser que deva) sair na Veja ou na Folha de SP. Mas na RS, bíblia de minha geração, só quem tem a fúria sagrada de Jimi, o toque arco-angelical de Eric e a sabedoria celta de Jimmy.


Wednesday, December 07, 2011

satis-fashion

Londres 29.11


Gosto da The Eye. Acho que a roda gigantesca a beira do Thames de alguma forma quebrou um pouco da sisudez e da pompa da Casa do Parlamento e adjacências, sem ter de se apelar para um Guy Fawkes da vida.


A iris monumental que os aros de bicicleta sugerem, evoca signos da Britania, de Orwell à discreta indiscrição desse povo, louco por tablóides. De Sherlock Holmes, o private eye original, ao fato de Londres ter o maior numero de câmeras nas ruas por habitantes, contradição estranha no berço das liberdades individuais.

Um moinho que retira energia do dirty old river e movimenta a cidade que deve quase tudo a ele.

Ontem assisti na BBC a uma edição do programa de entrevistas Eye to Eye cuja piada (britânica, off course) é entrevistar celebridades dentro de uma das cabines da Eye, olho no olho, por assim dizer.

A própria palavra interview da pano pra manga, principalmente por que a vitima era o fashion designer e empresário Paul Smith, dono da grife cujas roupas, descontando algum exagero em uma ou outra peça, sempre me agradaram.

Imaginava-o porem, completamente diferente. Meia idade (mais para inteira) lembra uma cruza de Ron Wood com Dudley Moore e se veste de forma discreta, sem casacos de mink ou coletes do Minc. Fala e age como um legítimo businesman da City, embora, assim como Branson e outros de sua geração, seja visivelmente contaminado pela radiação da Londres swinguing. Simpático, engraçado, falante e claramente heterossexual. Um sujeito comum, até por que seu nome equivale a algo como Jose da Silva aqui nessas ilhas. Mas bem sucedido ao ponto de transformar esse mesmo nome em marca mundial.

À inevitável pergunta: - “ Você se arrepende de algo? “ Paul responde que sim, de um tal agasalho azul com estampas de dinossauro de uma antiga coleção. Dias atrás numa estação do Metro – sim, bilionários aqui são gente como você e eu, só que com muito mais dinheiro - ao topar com alguém vestindo um exemplar do quase extinto item, teve ganas de empurrar o desavisado jurássico sob as rodas do trem. Melhor seria ter (re) comprado a peça e queimado num ritual pagão, de preferência em Stonehenge.

No final da entrevista, ao perceber um Agusta passando rente ao Olho, o leve, feliz e viril, Mr.Smith se despede. : - Eis o meu taxi.

+++

Pouco antes de viajar para ca, tinha visto o Louco Amor, documentário que conta a relação do infante terrível Yves de Saint Laurent e seu marido e complemento existencial, Pierre Berger.

No final dos anos 50, Yves era o mais talentoso designer da Maison Dior. Defenestrado pela família assim que o velho Cristian vestiu seu derradeiro terno, ele se obriga a abrir uma pequena loja na preferia de Paris. Pede a Pierre (um sujeito razoavelmente masculino na postura e nos trejeitos) que se encarregue dos negócios e nunca mais toma conhecimento de nada que não seja a criação.

O resto é historia. YSL, o homem e a grife se tornam aquilo que são ate hoje, um sucesso planetário. Sua criatividade e genialidade porem, só eram comparáveis a sua imensa tristeza, a qual PB tentava mitigar adquirindo uma das mais impressionantes coleções de arte particulares já reunida, e recentemente leiloada, logo da morte do companheiro.


Ainda que jovial no aspecto, Yves tinha milhares de anos de melancolia acumulada, e suas pequenas vitórias pessoais a cada desfile anual, embora sucessos enormes no mundo fashion, eram precedidas de um calvário, pré e pós.

Berger fazia o que podia. Esperava-o acordado chegar bêbado e drogado das farras com os Rolling Stones, Andy Warhol e outros bichos. Comprava mais um Goya aqui, um Picasso ali. Arrematou propriedades fantásticas em Marrakesh e na Normandia e aprendeu inclusive a pilotar helicópteros quando o outro já não tinha mais disposição de viajar de automóvel. Tudo na tentativa frustrada de animar o proustiano e trágico personagem. Não conheço melhor marido.

Fica a impressão que gênios sem relação nenhuma com aspectos práticos da vida sofrem muito (não vou falar da intrínseca tristeza do universo gay, para não polemizar desnecessariamente) e o desafio de se superar a cada nova investida, acaa por virar um fardo. A busca pelo sucesso financeiro, embora não um fim em si mesmo, tem a vantagem de nos manter ativos e em contato com a realidade.

PS não é YSL, mas tem um PB dentro de si que lhe ajuda a balancear as coisas.

Thursday, October 27, 2011

melancholia by lars v t

planet earth is blue (and there is nothing we can do)