Wednesday, November 30, 2005

a cream come true/digerir/redigir


Dedicado ao amigo Vila

Comigo é assim, demoro pra digerir. Quando fui ao Japão cinco anos atrás, não fui capaz de formar uma opinião até mais ou menos uns seis meses depois da volta. A mistura de sentimentos e experiências sensoriais da megalópole silenciosa, arranha céus de vidro e templos de bambu dividindo a mesma quadra, a luta mental do godzila cibernético- neom de Tokio com o samurai de chinelos de madeira de Kioto (notem o anagrama), o trem bala no túnel do tempo, tudo isso foi demais pra minha cabeça e só começou a ganhar forma com a devida distancia espaço-temporal.

Assim só agora consigo falar do CREAM que vi em Maio desse ano em seu retornou aos palcos londrinos (e mundiais), no mais londrino dos palcos, o Royall Albert Hall, 37 anos depois do Goodbye Concert que aconteceu no mesmo local.

A ultima e a mais relutante das grandes bandas a se reunir, e talvez a única a voltar exatamente na formação original, ja que não faria sentido se fosse diferente pois foi certamente a mais individual da historia.
Ginger Baker, Jack Bruce e Eric Clapton, a nata da cena inglesa do fim dos 60, cada um uma escola e uma instituição nos respectivos instrumentos, estavam lá com suas rugas e rusgas, passando por cima de desentendimentos, tragédias pessoais e carreiras desiguais, visivelmente contentes e orgulhosos de serem capazes de vencer esse supremo desafio com dignidade e elegância.

Esqueça John Bohan ou Neil Peart, ombro a ombro com Peter Edward Baker só os velhos mestres do jazz. É só ver no recen- lançado DVD (cuja visão também me ajudou a organizar as idéias) o que ele faz em Toad, Desert Cities of the Heart, We are Going Wrong e Sweet Wine, essa uma belíssima melodia escrita pelo próprio que mostra quão melódico pode ser um baterista.

Jack é um cantor de arrasar e enquanto baixista de rock esta no podium em alguma posição junto com Paul e Entwisltle. Apesar do recém transplante de fígado que obriga a usar por vezes um banquinho bossa nova no palco, ainda é a alma do set(e isso dividindo -o com uma estrala de primeira garndeza do showbizz).

. Eric Clapton é Eric Clapton.
Se tiver um dia de elencar os momentos de maior de emoçao da minha vida, estara la em algum lugar, o momento em que Jack diz, depois de Eric entregar uma pefomace quase sobrenatural em Stormy Monday:
Ladies and gentleman, it is a privilege to ber playing with him...EC
As criticas que em 68 ajudaram a acabar com a banda - Lester Bangs da Rolling Stone fez Clapton desmaiar e acordar convertido em fã incondicional do som americano ao detonar a do Cream performance do Filmore East - agora só teceu loas.

Mas who cares , se alguém quer saber o que acho de críticos de Rock , leia no novo gibiografico do Crumb que saiu recentemente, a historinha da invasão chinesa á América.

Alguns fãs em seus blogs reclamaram do fato de Eric não ter usado uma Gibson como nos velhos tempos. Eu entendi. Ele quis dar um enterro de Vicking a sua guitarra favorita, blackie, a Fender Straotocaster preta, presente de Stevie Winwood, que ele ja declarou estar a beira de se tornar umplayable (não achei palavra em português). Segundo o amigo Harrison, uma guitarra é um pedaço de pau sem vida num canto. A mão, a escolha das notas e (no caso de EC) o vibratto, fazem o guitarrista. Ouça We Are Going Wrong de olhos fechados e veja a Les Paul miando gostosa.

Bruce e Baker, que amam se odiar estavam em paz (armada, pois em NY ja se estranhavam sobre a altura do som), rindo um pro outro o tempo todo.

Clapton sábio, em Janeiro desse ano ao anunciar o concerto para Maio observou - Se a banda durar até la...

Celebridades á granel no RAH. No DVD vemos o Brian May em transe e Jude Law e Sean Penn de olhos fechados como em prece. Li que Jimmy Page deu uma festa num camarim e parecia muito feliz, e que Alice Cooper fretou um avião nos USA pra trazer uns amigos.

Milionários ponto com compraram fileiras e grandes companhias camarins para clientes.

Só vi de perto, na saída, o David Gilmore que entrou numa daquelas vans imensas com vidro preto sem dar bola pro único estúpido que o chamou pelo nome, eu.

Nas galés gente do mundo inteiro. Do meu lado na segunda noite que assisti, dessa vez bem de longe ( o ingresso naquela altura era quase o pib da Somália) uns Australianos de bota e tudo, talvez mais perto de casa do que do palco.

Que posso dizer da performance? O DVD esta ai ao alcance de todos na FINAC, mas se uma banda realmente merece chamar-se Titãs, não são aqueles meninos do Sumaré.

Só uma reclamação, assim como passei uma semana no Japão e não vi o Monte Fuji, encoberto por nuvens, os Cream não tocaram em Londres ( mas sim em NYC) minha favorita, Tales of Brave Ulisses.

Que a águia bique o fígado novo do Jack por isso.

missis siena burining


pour mon frere PM
>

> Dias atrás escrevo nessa pouco (ou nada) lida coluna de debytes sobre as soluções urbanas da França, implementadas pelo prefeito Hausserman para resolver o problema dos guetos.

Logo depois os subúrbios ardem. Não deixa de ser irônico e de confirmar a regra.>Por que a França?

Por que no século 18, de todas as monarquias podres e decadentes da Europa onde os populachos trabalhadores morriam de fome, obrigados a ficar longe das reservas de caça dos nobres preguiçosos e inúteis, a França explodiu primeiro?

A Inglaterra teve seu Cromwell, mas isso somente foi o resultado de uma briga de facções e não um> movimento popular legitimo, e que no fim não acabou com a monarquia, embora a tenha modernizado tornando-a parlamentarista.

>E por que outros tantos lugares com periferias pobres e marginalizadas> próximas de cidades riquíssimas (SP por ex) são como se a prova de fogo?

Talvez por que a França que todos nós amamos enquanto civilização seja tão> cínica enquanto nação, tão míope e auto-indulgente consego mesma.Vivem de> certa forma uma ilusão de igualdade, liberdade e fraternidade que existe> muito mais no escudo nacional e na cabeça do Vanhoni do que na pratica.

A constituição e as leis francesas proíbem a palavra "minoria". Não> reconhecem o problema e não o resolvem, como se todos usufruíssem> igualmente> do leite da mãe pátria. Quem não se lembra dum quadro da época da Revolução> que> retrata a própria como uma tetuda combatente?-,

Por acaso são iguais condomínios de Clichy > sus> Bois e os moradores da ilha São Luis, vizinhos da NotreDame .

Quem é mais francês, a inútil Lolita Pile ou a prestativa atendente marroquina do McDonalds ??

O descendente de Carlos Magno da Av. Foche que para preservar seus negócios colaborou com o regime de Vichy, ou os netos de policiais, servidores públicos e cidadãos comuns argelinos que apoiaram a França nos anos 50 contra os fanáticos separatistas e que tiveram deatravessar o Mediterrâneo a nado pra não serem mortos, direto pros condomínios? Pontecorvo, a quem Marlon Brando acusava racista e cruel, fez um belo filme a respeito desse momento - A Batalha de Argel.

A França e a sua pretensão de farol do mundo, de filha predileta do iluminismo, mas que nutre uma irracional atitude anti- EUA - tão bem colocada pelo Revel no seu Obsessão Anti Americana, talvez por que de certa forma esses levaram mais a frente os ideais da Revolução francesa do que ela própria.

E como disse um amigo inglês, se todo mundo que diz que lutou na resistência francesa de fato tivesse lutado, os alemães não teriam durado 5 minutos.

JFK teve de reconhecer o racismo e o apartheid no sul dos Estados Unidos para melhor combatê-lo. Os primeiro negro a se matricularem no Alabama, contou com tropas federais para conter os distúrbios e garantir seu acesso a faculdade.Alan Parker mostra em Mississipi Burning que o Hoover, embora racista, não mediu esforços do seu FBI pra desbaratar as Klu Klux Klans (onomatopéia de um rifle sendo carregado, pode?) da vida, que eram ninguém menos que a policia, os prefeitos o e Lions Club daquelas cidadezinhas sulinas , under their hoods.

A Grã Bretanha, muito mais ex- império que a França, acomodou infinitamente mais minorias e nacionalidades por m2. Tem 12 ou 15 imigrantes no parlamento contra zero do outro lado do túnel.

Escrevi sobre a nova política de ensino e saúde da Suécia em outro debyte, mas acho que não citei que ela foi imaginada por um chileno exilado do Pinochet que é deputado já a vários mandatos.

Às vezes e necessário alguém de fora ou de dentro das comunidades para achar a solução, que não esta nem em políticas sociais ultrapassadas nem num tratamento das minorias com praticas netas dos pára-quedistas da Argélia.

Não vai funcionar.

Uma vez passei o 14 de Julho na França. A visão da bleu, blanc, rouge pendendo do Arco do Triunfo dá uma inveja danada daqueles que efetivamente tem uma pátria pra comemorar.

Só que a França idiossincrática e bairrista, ao mesmo tempo humanista e contra a imigração, fundadora do capitalismo moderno mas que vota contra o bloco europeu, única força capaz de equilibrar a hegemonia americana - apesar de odiar os EUA, não pode mais agir como aquela pequena aldeia gaulesa que conhecemos tão bem.
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is the end of the world as we kow it ?/ one (wo) man show


Até as couves de Bruxelas já perceberam que o mundo esta mudando, cumpre-se uma fase, um ciclo se fecha.

Assisti um DVD com meus filhos nesse final de semana chamado O Guia dos Mochileros da Galáxia. O filme é meio chatinho, mas o começo é legal. Os golfinhos, a segunda espécie mais inteligente do planeta segundo o narrador (nos somos a terceira e a primeira nunca é revelada)sabendo que o mundo vai acabar, se mandam, provavelmente de volta ao seu planeta, cantando uma canção engraçada na qual nos agradecem por todos aqueles peixes

Eu que não sou golfinho ando meio assustado com tantos furacões, terremotos e a "rain forest" amazônica onde nunca choveu tão pouco.

Tem haver principalmente com a exaustão do modelo energético do Petróleo, mas é obvio não se limita a ela.

Ja faz 30 e pico de anos, desde o primeiro choque nos 1970´s que ouvimos, vimos e lemos essa lenga lenga de fim das reservas e estragos ambientais causados pelo uso de combustíveis fosseis. Só que dessa vez Zé, parece que é sério..

Alguns paises da cozinha como China, Índia e desse do qual vos escrevo, não estão mais dispostos a andar de riquixa, carroça ou mula enquanto a turma la de cima desfila seus utilitários beberrões pelas highways e autobans , e o mundo ex comunista consome mais e mais. Ninguém mais tem de esperar 8 anos por uma pia nova pra escola dos filhos, conforme me conta o amigo Ballão a respeito do meu texto sobre a DDR.

Alguém ja disse e eu repito: o dia em que o mundo inteiro consumir no padrão da Califórnia, adeus mundo cruel, a não ser é claro que a tecnologia que ja desmentiu o velho Malthus com sua progressão geométrica x aritmética, de o seu jeito.

Pela primeira vez desde sempre, a curva do consumo de petroleo supera a das novas descobertas de poços e a intensidade / velocidade da crise que vira inevitavelmente, depende, valha me Deus, das políticas externas da Russia e ASaudita . Eu se eu tivesse uma terrinha, iria plantar cana. As guerras da próxima década, diz com certa obviedade um especialista entrevistado pela Folha dias atras, serão mais e mais de alianças e agressões aos pertrolisados (te cuida HC..) .

Só quem não conhece a historia do Mossadegh no Irã (aos quais recomendo o excelente Todos os Homens do Xa assim como me foi recomendado pelo arqui-ámigo Cescatto) acredita que a invasão do Iraque nada tenha a ver com o petróleo.

Só os chatos, os míopes históricos e os fãs do Michael Moore imaginam que os motivos se limitem a ele.


Fazer a guerra em determinadas circunstancias muito especificas é quase uma obrigação do Príncipe.

Que tal se por exemplo Rossevelt não tivesse ido a luta? Philip Roth imagina em Complô Contra a America que comecei a ler, sua propria infância num mundo paralelo onde aviador Lindeberg , o desconhecido piloto do correio americano alçado a idolo por ter sido o primeiro homem a cruzar o Atlântico num tecoteco, e mais tarde promovido a condição de heroi tragico por ter perdido um bebê assassinado num seqüestro ainda hoje obscuro, ganha de lavada a eleição presidencial de 1940.

Lindeberg (e eu que achava que todo sobrenome com sufixo berg fossem judeus como naquela piada definitiva sobre o antisemitismo, do Titanic e o Iceberg, ) ganha por que defende que um terceiro mandato de Roosevelt, talvez o maior presidente da historia mundial, significa Guerra. FDR, segundo ele, faria o jogo da minoria judaica em detrimento da maioria americana, amante da paz.

Lindy do mundo real, como aliais muita gente na época, simpatizava com Hitler, que parecia, aos olhos de cera da direita,uma barreira natural e um mal menor ao bolchevismo e para os míopes da esquerda, uma alternativa ao imperialismo inglês.

Veja as filamgens do enterro das vitimas do desatre do Hidemburg, e notara americanos da gema fazendo a saudaçao nazista para os mortos.

O aviaodr ja contava, antes da presidência (ficticia) com uma medalha (real ) entregue pelo gordo Goering e logo nos primeiros meses de seu (ficcticio) governo faz uma acordão de não agressão com Alemanha e Japão, deixando a velha senhora a sua própria sorte.

Dai pra frente (não li tudo ainda) é a família Roth e a vida under the new order.

Mas eu não chegaria a tanto se quisesse imaginar um desfecho diferente para o seculo 20. Bastava que Churchill morresse do atropelamento que sofreu aqui mesmo na Terra 1 aos 20 e poucos para que os Beatles, 20 anos depois não fossem a Hamburgo. Hamburgo teria vindo ao eles.

Quem a não ser o Buldogão (aliais xará de John Winston Lennon, o Lenin da contracultura ou Lennon Trotsky como queria o querido Leminsky) para se impor a Chamberlain o e outros nobres covardoes, alguns deles protofascistas, louquinhos para fazer um acordo com o Capetão.

Todo mundo sabe que Hess, o secretário de Hitler pulou de pára-quedas perto do castelo de um desses nobres atrás de um acordo. Churchill o meteu na prisão da qual so saiu morto.

Qual outro político de qualquer século você conhece que tenha prometido a seus eleitores a Guerra e seus horrores alem de Blood, sweat and tears ??? Isso é o que chamo de one man show.

Mas back to the future, o que ocorre hoje é também o fim da festa da queda do Muro, a ressaca quando capitalismo tem de encontrar vertentes dentro de si próprio, sem o espelho invertido pra se mirar.

A riquissima Europa tem de pensar como manter as conquistas sociais sem perder (mais ainda ) a competitividade, pois hoje não só as camisetas e as calcinhas são feitas na China, os serviços ja estão migrando. Quando v. liga no exterior pra um desses call centers reportando a perda do seu Amex , esta falando sem saber com alguem na Índia, que tem sido usada pelas companhias dado a extrema inteligência e cordialidade dos atendentes, inglês impecável e é claro, baixissimos salários.

Como suprimir a imigração e seus supostos males, quando se necessita desses novos consumidores para comprar a primeira geladeira, da mão de obra pau-pra-toda obra e de alguem pra contribuir com a combalida previdência.

A Suécia parece que saiu na frente. Mantem a anos duas vagas para estrangeiros na Câmara dos Deputados, ocupadas no momento por um chileno fugido do Pinochet e uma africana, e ja criou um sistema de cupons validos em escolas e hospitais públicos. Lá você pode escolher em que escola matricular seu filho ou que hospital internar sua avó, criando uma saudavel disputa pelos cupons que garantem aos administradores publicos maiores verbas e melhores salários.Meritocracia e excelencia sem ter de ser transformar tudo em negocios profit oriented, como por aqui.


Parece inteligente.














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happiness is a warm gun ?

Para Paula e AV

Não me emocionou a discussão sobre o desarmamento. Ao contrario, me pareceu completamente fora de hora e, correndo risco de aderir as teorias conspiratórias, diversionista ao extremo.

Mas como só samambaia não muda de opinião, lendo ontem um articulista da Folha passei a concordar que o plebiscito e a vitória do NÃO, acachapante em alguns estados como no nosso Texas, o RS, foi útil pra mostrar que a população não quer ser tutelada por um governo ao mesmo tempo paternalista e inútil.

O que resolve ou ao menos ameniza a questão da violência urbana não é só os empoeirados argumentos do emprego, educação, lazer, melhores condições para os agentes da lei etc.. mas a urbanização radical das periferias, cara sim, mas barata em comparação aos efeitos do crime a médio e longo prazo.

Acabar de vez com os santuários do crime criando acesso e condições decentes de vida nas favelas e, quando isso não é mais possível como nos morros do Rio, reloca-las completamente. E isso não é tão difícil quanto o que vem depois, que é cuidar para que não virem guetos de novo.

Ver Cidade de Deus para maiores esclarecimentos.

Alguém citado pelo Xará Gaspari dias atrás diz mais ou menos o seguinte:

- As favelas do Rio não são problemas mas soluções urbanas para aqueles que trabalham para nós, como office boys, ascensoristas, domésticas, garçons, motoristas e demais "lumpens" como quer o Décio, que premidos pelo problema real, falta de transporte adequado (trens, metros, dirigíveis , barcos ou o que seja ) e de sacadas urbanas satisfatórias, morem próximo do trabalho. È isso ou pagar salários que os permitam pernoitar no Copa.

Paris fez algo assim na época do Hausseman. O que é Etoile, o feixe de largas avenidas que irradiam como uma estrela a partir do Arco do Triunfo e cortam a cidade em todas as direções se não forma encontrada para o poder do Rei via coletores de imposto, saúde publica, policia etc.. em suma, o Estado, chegar aos guetos antes que um aventureiro lance mão.

O que me enche de esperança com relação a cidades que amamos como Rio/SP e outras que vão no mesmo caminho é que Paris e Londres foram num passado nem tão distante assim, piores do que as nossas são hoje, é só ler Dickens ou Vitor Hugo. No caso de NYC então, até muito mais recentemente.

Quando visitamos, Angelo, Lucca, Paula e eu, o Palacio Panfilli , sede da embaixada do Brasil em Roma, alguém perguntou ao diplomata que nos acompanhava o por que daquelas escadarias com degraus baixos e largos. Simplesmente por que os nobres chegavam a cavalo até a porta no segundo andar já que ninguém parava pra abrir o portão que dá pra Piazza Navuona, agradável local para se tomar um gelato hoje, mas na época covil de assassinos e pestiados, como aliais toda a cidade.

Embora o resultado do referendo possa ter sido sociologicamente útil, o processo todo foi de matar elefante. Artistas com carinha de querubim defendendo o SIM sabe-se lá a soldo de quem , argumentos estapafúrdios pros dois lados, apelação .
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Um email apócrifo me chamou atenção. Dava conta que Hitler e Stalin desarmaram as respectivas populações antes dos respectivos massacres. Nunca li nada a respeito e me parece argumento daquele pessoal do lobby americano das armas - o NRA - presidido por Moisés em pessoa,parentes próximos dos macacos albinos que voaram com uma igreja de negros nos 1960's só por que esses começaram a frequentar a piscina publica em Birminghan, Alabama (alguém lembra de Alabama do Neil Young, que deixou os red necks do Lynard Skynard fulos e que responderam com ¨Sweet Home Alabama" ???), numa expressão mais exaltada dão em Thimothy Mac Veight, o bom rapaz que ao enxergar um complô governamental no prato matinal de corn flakes, dinamitou uma repartição publica matando centenas. perdeu o posto de maior terrorista da historia americana em 11 de Setembro de 2002. Pois é, esse sujeito foi incompreensivelmente defendido pelo meu herói das letras Gore Vidal. Li os argumentos, mas não me convenceram. Fiquei passado.

Pelo que sei os bolchevistas ganharam uma guerra civil contra os brancos, e os nazis uma eleição e (repare) um plebiscito que após a morte de Hindemburg, deu a ao primeiro ministro do bigode depilado, o status de Fuher uber alles. Se realmente desarmaram, talvez tenham poupado massacres ainda maiores, pois o que pode meia dúzia de armas de mão contra o monopólio da força que o exercito e policia, principalmente em estados militarizados, detém ??

O crime organizado faz frente, mas esse não compra arma em loja.

Contra massacres do século 20, a arma é mesmo a democracia e a paciência de saber esperar a sua consolidação, o que leva anos e as vezes séculos.

Me ocorre o exemplo da sempre exaltada Argentina, onde nos violentos e virulentos 1970´s os Montoneros, peronistas contra Peron (só la mesmo.) e a extrema esquerda do ERP estavam armados até os dentes afiados. Os Montos com mais de 100milhões de dollares de sequestros e extorçoes, importavam até armeiros europeus. perdiam em ferros e plata para a OLP. O ERP entrava nos quartéis para roubar armas, humilhando o exercito. Deu no que deu.

De que vale um M 16 em casa quando o exercito invade no meio da noite em bando, com auxilio de todo o aparato que possui, e te leva prum porão, arranca tua pele atrás da próxima vitima ??

No BR de 64 a esquerda não tinha armas e morreu muito menos gente do que em Santiago aquele dia, um 11 de Setembro também.

Mas para entender que alguém sempre vai ganhar esse dinheiro da venda de armas, sejam as grandes corporações (que ao menos pagam imposto) ou os arm dealers, recomendo esse filme com o Nicholas Cage, não pelo filme em si , dado a exageros e caricaturas.

De qualquer forma votei NÃO, mas se eu pudesse teria votado com ressalva. Numa sociedade que proíbe a maconha que afinal só faz mal, se é que faz, a quem usa ( e que por ser ilegal arma os traficantes) e pede receita médica pra vender Prozac na farmácia, as armas não devem ser vendidas como sapatos. Alguma prescrição maior do se faz agora me parece o caso.

Penso que deveriam ser criados clubes de tiro credenciados com supervisão técnica de militares ou policiais aposentados, nos quais se ensinasse a atirar ( e principalmente não atirar), cuidados com as crianças, exames psicotécnicos etc..

Os clubes seriam co-responsáveis e caso um dos socios chacinasse alguem, responderiam junto, ou seriam descrenciados, algo assim.


.O que achas Ângelo ??

é pouco ?

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SP, 05 de outubro 2005

Na segunda feira assisto o Roda Viva, atingindo a incrivel marca de quase mil programas, (de onde tiraram tanta gente pra entrevistar ??) com o presidente da Republica Bolivariana da Venzuela, nosso velho conhecido Hugo Chavez.

Deixei rolar por curiosidade, esperando um desfile do que minha mente Pignatariana logo apelidou de Chaves e seus Chavões.

È claro que não faltaram perolas Allende/Castro/Guevaristas, mas o que vi foi um sujeito muito mais articulado e inteligente do que esperava. Sabemos que o que mais incomoda nos cliches é que eles quase sempre estão certos, e ele tem certa razão quando diz que para o mundo rico ainda somos produtores de monoculturas, só mudaram as bananas.

Simpatico sem ser bajulador com os entrevistadores que não perdem uma chance de provoca-lo, tem uma habilidade incrivel de lidar com a imprensa, forjada provavelmente em 7 anos de brigas com os Marinho da Venezuela, a familia Cisneros. Disse ter se dado bem com o patriarca nos primeiros meses de governo, até este pedir-lhe pra nomear o Ministro da Comunicação e ter levado, como dizia um outro caudilho as vezes inteligente, um não rotundo.

È claro que um Sargentão tipo HC não é de modo algum modelo a ser seguido por aqui, mas um militar, disciplinado e cartesiano por formação, quando é inteligente dá , em sua expressão maior, em Napoleão, e pode trazer alguns avanços.

E como disse meu arqui-amigo Ricardo Correia, com aquela elite de la, o que v. queria ??

A Venezula é , sabemos, uma Veneza flutuando em 330 bilhões de Barris de petroleo (a 60 dollares, faça a conta) contra 20 e poucos de reserva dos EUA - fora o gás - e explora essa riqueza desde 1905. Cem anos depois continua tão pobre quanto alguns de seu vizinhos muito menos favorecidos em sopa de dinossauro. Até os arabes fizeram melhor.

Meu Chavez favorito continua sendo o namorado da Chiquita, mas acho agora que não se deve demonizar o sujeito, o que seria tão estupido quanto santifica-lo . Ele é no momento o maior expressão de um pensamento nem tão novo assim na America Latina, mas que tem alguma razão historica de ser. Não se deve cometer o erro inverso quando louvamos dez anos atras o Raul Salinas, que parecia ser o surfista prateado de um Galactus chamado mercado e que iria abrir uma distancia intrasponivel entre o México e o resto da AL. Acabou desviando do seu rico povo algo como 5,2 bilhões de dollares.

Mas mesmo os mega corruptos latinos mais recentes como esse moço ai, Menem e Collor deixaram algum legado positivo. No caso do Collor quem mais daria a prensa necessaria no mimado capital nacional ??

O prorio Fujimori acabou com uma guerrilha de dementes e é possivel que o HC deixe tambem algo de bom . Ou, como dira Therciano Velloso, não.


O mundo de hoje impos a esquerda um limite natural de radicalização. Experiencias estanques como o comunismo europeu , separado por um muro de lugares mais prósperos e livres, não teriam sobrevivdo de qualquer forma ao celular e a internet.

Meu medo aqui na AL é o crescimento dos partidos ligados as Igrejas Me$$ianicas, mas isso é outra historia.

Perguntado sobre Cuba , ele saiu com essa:

- La , nos furacões, que alias são os mesmos que atingem a Florida e New Orleans, até as galinhas são retiradas.

A proposito de New Orleans achei e transcrevo ao fina um artigo do Ray Davies dos Kinks, que Paula e eu tivemos a graça de ver dias atras no Alber Hall, tratando da materia.

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Desgaste do poder, decadencia etc. é tão antigo quanto o proprio poder ( e tanto quanto essa afirmação, suponho) e a competencia de um partido ou individuo esta em atrasar ao maximo esse processo. Significa dizer que o PT é mais que tudo, incompetente (dessa vez não vou ceder a influencia concretista que me arranha o cerebro).

Passaram por esse processo o partido Socialista que consolidou a Espanha rica e esta passando agora o Neo Trabalhismo do Blair, só que nos dois casos, depois de varios anos no poder.

Quando estava la agora, acontecia uma convenção do Labour Party no balneario de Brighton, que os tabloides acusavam de estar sendo animada por drogas, prostitutas e outros mimos - fringe benefits, my dear. La pelo menos os tabloides não se imaginam imprensa seria e nunca mentem totalmente.

Mas o que pegou mesmo mal para um povo que prefere ser bombardeado a ser invadido ou ter seus direitos basicos negados, foi um velhinho, trabalhista desde antes de Blair e os outros lideres aprenderem a cantar Deus Salve a Rainha, fugitivo da Alemanha Nazista (imagine o caldo) ter sido retirado a força do salão de convenções ao vaiar o discurso de algum labour-figurão que elogiava a posição da Gran Bretanha vis Iraque.

De qualquer forma os Tories não tem ninguem no momento e o Blair so perde prum outro trabalhista, assim como a Tatcher caiu para o Major, não sem antes chutar as bundas dos facinoras argentinos, do corrupto sindicato dos mineiros britanicos e junto com o cawboy Ronnie e o o Papa Polaco mandar USSR de volta para o inferno.

È pouco ???



New Orleans - the ideal place to get shotRay Davies Away from the partying it was obvious to a dedicated follower of the city that disaster was around the corner
I SPENT the early part of last year in New Orleans recovering from gunshot wounds received as I was being robbed. It happened in the early evening as I walked down a quiet street with my girlfriend. There was a football game in town and the streets near the French Quarter were empty. The police presence was elsewhere. The incident itself was over in a flash but it plays over and over in my head and perhaps one day it will make sense to me.
I found out later that there were fewer than 2,000 police in New Orleans at that time and it reached such a point that there was talk of the city was importing officers from Cleveland. Anyway, thanks to someone’s mobile phone, the police eventually got to the scene. Later, as I was carried into the emergency room at Charity hospital, a doctor reassured me that “New Orleans really is the best place to get shot”. They had, he explained, had plenty of practice.
The same week I was shot, I read that three other tourists were killed near to where I was attacked. Tourists were urged not to fight back after being mugged (I was continually reminded of this by the district attorney’s officials, who were critical of the way I chased the man who robbed my girlfriend).
There were additional complications to my injuries and my gunshot wounds were not as clean as first thought. Before I was taken in for my first operation, a priest came and gave me a little spiritual assistance. Later I was even serenaded by a nurse who whispered slow, mournful gospel songs in the style of Mahalia Jackson.
During my initial week-long stay in hospital and lengthy recuperation, I observed first-hand the bankruptcy of the New Orleans health system. Several doctors who treated me actually apologised for the low standard of healthcare in Louisiana. Even so, they gave me the best of what they did have, for which I am grateful.
I have just looked through some notes in the diary I made after I was operated on and one seems chillingly relevant. “How can the USA be expected to look after the whole world when it cannot even look after its own?” So it doesn’t surprise me to see the world reacting with shock to the “Third World” conditions in New Orleans “in this, the richest and most powerful country in the world”. I could have told them that.
But I have been astonished by the reactions and apparent shame of some of the US television reporters who seemed overwhelmed to discover that there actually is poverty in America. They made me want to grab my television and shout “Hello, dear reporter, yes, America actually does have poor and underprivileged people as well. Hello, yes, the President might well be slow to react but at times like this, that’s all that an over-burdened, out-of-touch president can be.”
After watching the scenes on television in the past few days, it occurred to me that if any place in the world could survive this catastrophe, it would be New Orleans. Significantly, in the most deprived parts of the city, there are churches and Gospel halls. Faith has to be strong because often it is all most of the people have.
When I was last in New Orleans, I was driven around the city by a friend who pointed out the pump houses that seemed antiquated to me even then. The levees seemed insufficient for the amount of water surrounding the city. The roads were uneven and the tap water pressure in most houses was weak. The whole system appeared improvised, but according to my friend it all “seemed to have worked well enough so far given that there is not enough funding to improve it ”. Locals would joke: “Yep, it is like the Third World but, hey, this is N’Awlins. Nothin’s perfect. That’s what’s so great about it.”
I agreed but deep down I felt the whole infrastructure was very fragile. New Orleans is a party town, after all, and when tourists walk down Bourbon Street drinking frozen Daiquiri during Jazz Fest, crime, unemployment and environmental issues are far from their minds.
It was clear to me, however, that away from all the festivities something disastrous was on the cards. Too many things pointed in that direction. Why didn’t the people who are supposed to be experts on this stuff react sooner? The problem we all know by now is money. Budgets. America’s preoccupation with wars overseas. Nobody cares about the poor. Etc, etc.
At the time of my shooting I was trying to develop a musical event for a local school in New Orleans to raise funds for instruments and new uniforms for them to wear at Mardi Gras. Music, particularly in the school marching bands, gives many of the kids down there an opportunity to participate in the local community. This in turn raises their expectations and it is to be hoped, stops them descending into the local drug and gang culture waiting around the corner. I was due back later in the year to put on a show for Thanksgiving to raise a few extra bucks for the community. This all seems so trivial now.
But the reality is that without its music New Orleans would have been a forgotten city long ago. The music of the American South inspired me and helped to shape me as a musician. They say that jazz started on Perdido Street in New Orleans and even Louis Armstrong honed his trade in the honky-tonks on Bourbon Street.
I owe as much to music of the Southern states as I do to the British music that inspired me. If New Orleans is allowed to die, a crucial part of the world’s musical heritage will disappear.

now, the flooded streets of New Orleans might seem just an American responsibility but sometimes even the most powerful people need help. Whatever we think of George W. Bush we cannot take it out on the poor and needy in Louisiana and Mississippi. (He won’t be there in four years — they will.) Numerous people befriended me while I was there. Gradually, word is getting back to me that they are safe. One friend made it to Dallas with her family. Others are now scattered across the South: Jackson, Mississippi, Memphis. One musician friend is still missing.
I think about what has happened to some of the faceless, scary “neighbours” who kept me awake at night while they partied and chanted songs on the corner of St Claude and Governor Nichols when I last stayed there. I hope they made it.
nd lastly, I think about the bicycle I left behind. New Orleans is almost entirely flat — as the world knows all too well now — and I found that a bike ride was a great way to get around while strengthening my injured leg.
When I left last year I forgot to put the padlock on my bike. Whoever took it, I pray that they get to ride it around the French Quarter again soon.
Ray Davies was lead singer of the Kinks. http://www.raydavies.info/

castelos no ar


Castelos no ar
Praga 19 de setembro de 2005

"Castles in the air are
awfull expensive to mantain "


Decidi voltar à Praga aproveitando uma vigem á Holanda a trabalho.

Passei a mão num exemplar do Castelo do KAFKA e comecei a ler ja no aviao, para entrar no clima.

O livro é como sempre, um mergulho nas reações humanas diante de situações absurdas e extremas. Um texto super bem costurado dentro da prosa muito especifica do autor, que remete mesmo que sem citar a cidade que o acolheu e o rejeitou. Tem ao mesmo tempo tudo e nada a ver com o Castelo que domina a paisagem local, onde por sinal K. (que e´também o nome do personagem principal do livro) viveu por 2 anos numa das ruas internas do complexo.

A Praga de hoje é muito mais vibrante do que a que eu deixei em 96, num trem que partia de uma estação Stalinista , que me deu a nítida impressão de estar indo prum Gulag na Sibéria e não para França via Munique. A cidade esta mais pra Paris de 2005 do que pra Moscou de 1950, mas naquele verão quando a reconversão ao capitalismo na Revolução de Veludo de 89 que levou na presidência o ultra- cool Vlac Havel ainda era recente e muito das toscas realizações do comunismo ainda estavam la, Trabans, Ladas e Skodas dividiam a rua com BMWs e outros carrões ainda pouco a vontade e as marcas das grandes corporações eram ainda esparsas. Lembro de ter sentido pena de um sujeito de uns 40 e poucos anos que pedia esmola na rua com um olhar perdido. Pensei comigo: depois de 40 anos de comunismo que chance tem ele no que vem por ai, de que adianta dizer que agora ele podera vir a ser um Bill Gates do leste, depois de passar a vida toda tutelado pelo Estado.


A capital histórica da Bohemia se tornou também a da Checoeslovaquia, que uniu meio a contragosto checos e Eslovacos a partir da derrocado do Império Austro Húngaro, ao final da Guerra Mundial I. Quando em 1938 os lideres europeus amedrontados diante de um Hitler supostamente imbatível entregaram-lhe os Sudetos, região fronteiriça com a Alemanha habitada por povos pretensamente germânicos, era so uma questão de tempo até as tropas do Wermarcht atravessarem a belíssima ponte Charles. Os judeus checos, que ja haviam sofrido toda sorte de descriminação séculos antes e confinados em um gueto la pelos 1600 - Hitler não tinha nada de original, só industrializou praticas até então artesanais - foram durante a ocupação alemã levados pra versão tcheca de Auschewitz, Tiresia, nos arredores de Praga.

No bairro judeu, Paula e eu visitamos o perturbador cemitério, onde o pouco espaço disponível durante as segregações fez com que as pessoas fossem enterradas sobrepostas, ferindo de morte o costume hebreu de um corpo por sepultura . As lapides amontoadas dão ao local um aspecto de pesadelo, como se o Golen em não-pessoa fosse sair de tras da cerca e nos agarrar pelo pescoço. A tradiçao judaica da cidade deu ao mundo a lenda do homen de barro que ganha vida através das praticas alquimistas de um rabino local, provavelmente o primeiro conto de Robôs da historia, varios séculos antes de Asimov cunhar o termo e da pequena Miss Shelley ganhar aquela famosa aposta.

Alem da ponte Carlos com seus santos a postos, de onde São Norberto, queimado vivo, foi jogado no Vlatva, a Catedral absolutamente gótica, lembra aquela da Gothan doTim Burton, da qual o Coringa- Nicholson despenca matando o melhor personagem do bativerso ja no primeiro filme para o horror de nós os fãs.
Construções novas quase não existem no centro histórico, exceção ao dançante Ginger and Fred, um prédio provavelmente de escritórios assinado por Mr. Guggenhein Bilbao himself - Frank Ghery, que soube, a exemplo das construções novas de Paris, modernizar sem agredir o panorama muito especifico da cidade.

Praga é junto com Viena provavelmente a cidade mais musical da Europa pra quem acha que a musica morreu no século 19, o que não é meu caso. Mozart compôs Don Giovani aqui, que é apresentada a anos numa montagem com marionetes, outra forte tradição local, tal qual o teatro da luz negra, provavelmente ancestral dos efeitos especiais do cinema. Pessoas vestidas de preto contra um fundo escuro se tornam invisíveis á platéia, fazendo objetos voar, acrobacias impossiveis etc. Todas as noites dezenas de igrejas oferecem concertos de musica clássica, barroca e outras como flamenco, numa inteligente formula que emprega os músicos locais, angaria fundo para as paróquias, ao mesmo tempo que promove uma espécie de turismo musical á cidade. Performances mais elaboradas e grandiosas estão sempre acontecendo no Teatro Nacional.

Passando pela praça principal topamos com um cartaz muito inspirado (o design gráfico checo é, descobri, soberbo) que anunciava a existência e um tal " Museu do Comunismo" - http://www.museumofcommunism.com/, mostrando uma babushca com dentes de tubarão.
Por ironia ou não, fica em cima de um McDonalds em Savarin Strasse. La dentro um amontoado de bustos e cartazes propagandisticos que, como na Rússia, começam com o design revolucionário dos primeiros tempos e vão involuindo até os inevitáveis hiperrealistas trabalhadores de aço, jovens robustos e corados carregando tochas, tratores arando a terra, alem de Stalin e a turma toda. Toscos produtos alimentícios e utensílios feitos a machado, alem de painéis que resume os acontecimentos entre os quase quarenta anos que vao do Golpe Comunista até a Revolução de Veludo, passando é obvio, pela Primavera de Praga.

Para aqueles que como eu pensavam que as tropas soviéticas que liberaram a Checoeslovaquia dos nazistas já instalaram automaticamente uma ditadura do proletariado assim como fizeram com outros paises do Leste Europeu, é uma surpresa descobrir que a democracia voltou ao pais após a Guerra II, somente para ser derrubada dois anos depois. Em 1948 o primeiro ministro Gothwald, uma espécie de Prestes ou Alvaro Cunhal checo a exemplo do que Hitler fez anos antes com Hidemburg, se vale da influencia do partido no parlamento e passa a controlar a policia e o exercito. Por fim, com uma vergonhosa mão (de ferro) do Big Brother Stalin, depõe o presidente passando então a acumular o cargo, tudo com um certo apoio de parte da população, empobrecida pela guerra, ainda rancorosa com a Europa Ocidental pela questão dos Sudetos, grata ao exercito vermelho libertador e atraída pelo canto da sereia vermelha.

O regime Checo nos anos 50 macaqueou o comunismo soviético promovendo julgamentos tão embaraçosos quanto os da URSS, não só contra dissidentes mas também contra os próprios lideres do Partido, a exemplo de tantas outras revoluções que como o Saturno de Goya, devoram seus filhos.

Mas tal qual castelos no ar, o comunismo é impossível de ser mantido a longo prazo, principalmente num pais que ao contrario da Rússia, pobre e agrária antes da revolução, ja era rico e urbano no inicio do século XX, um dos vinte paises mais desenvolvidos do mundo á época, que detinha uma elite intelectualizada e pro-EUA.

A primeira tentativa de dar ao socialismo uma face humana como se dizia a época, acontece em 1968 na gestão de Alexander " Sacha " Dubcec , secretario geral do PC no governo do presidente Svodoba (liberdade em tcheco, Friedda em alemão, a namorada de K. no CASTELO) que abole de uma vez só a censura e dá voz a intelectuais do calibre de um Milan Kundera que, anos depois ganharia o Nobel de Literatura por Insustentável Leveza do Ser - uma historia de amor passada justamente na Primavera de Praga, posteriormente bem filmada por Bertolucci.

E como liberdade se alimenta de liberdade, o que se ve entao é um circulo virtuoso onde a populaçao pede mais e mais direitos e menos filas , muito alem dos sonhos de Sacha, o que poderia ter acendido o estopim da revolta em todas as colônias soviéticas, antecipando em 20 anos a Perestroica /Glansot de Gorbachov.
Bressnev, talvez o mais cinzento burocrata do comunismo, e os outros membros da nomenklatura geriatrica, vendo aquilo do topo do Olimpo sovietico, acabaram com a festa da mesmao forma que ja haviam feito na Hungria dois anos antes, despachando tanques e homens e jogando Dubcec numa espécie de zona fantasma, depondo-o um ano depois.

De qualquer forma é engraçado pensar que enquanto os estudantes ricos de Paris e Berkerley que viviam sob as sanguinárias ditaduras francesa e americana, cantavam hinos e acendiam velas pro Che, Fidel, Lenim e HoChiMim quase que por capricho, seus colegas a leste combatiam tanques de verdade pra ter direito de entre outras coisas, perder o paraíso que a esquerda sempre teima em impor á nós.

Os outros jovens protagonistas, os recrutas russos tirados a força das suas famílias nas republicas rurais da URSS - os Istões da vida - alistados a laço no exercito vermelho, dirigindo os enormes tanques e divididos entre as ordens do comando e os sermões das senhoras checas que lhes falavam da possibilidade de coexistências entre o socialismo e a democracia, ou mesmo de gente da sua idade que, forçados desde o primário aprender russo, subiam nos tanques para doutrina-los. Provavelmente houve por aqui o inverso do que estava acontecendo no Vietnã á época, onde não havia comunicação de espécie alguma entre os dois lados e as diferenças culturais eram irreconciliáveis. Os sofisticados checos eram muito mais cultos do que os pobres russos mas eram todos brancos e se entendiam. Os invsores que saíram dos quartéis russos para combater o fascismo nas ruas de Praga, encontram aqui nao gordos capitalistas com cara de porco incitando as massas a contrarevoluçao, mas gente muito parecida com suas mães e irmãs armadas de panelas e cartazes. Alguns desses jovens nos tanques faziam parte do estado maior Soviético anos anos depois, quando decidiram não reprimir o movimento pro democracia como a China fez em Tiannemen, nem mandar Gorbachov ir passear no Sputnik.

A historia acaba (e começa) em 89, quando a Rússia passa a ter sua Primavera under Gorby & Cia e num efeito domino todas as nações do Leste derrubam seus regimes, numa transição que leva um ano para se consolidar na Polônia, meses na Hungria e somente 10 dias na Checslovaquia, sem lutas nem sangue, nem morte ao tirano como na Romênia

. Um pais civilizado, sem duvida.

Hoje partimos pra Berlin onde pretendo praticar um pouco mais de arqueologia dessa loucura coletiva do século XX chamada comunismo.

Tuesday, November 29, 2005

na berlinda

BERLIN, 20.09
"guive back the Berlin wall, guive me Stalin and St. Paul
guive me Christ and guive me Hiroshima."
LCohen - The Future



Talvez o aspecto mais sinistro do comunismo seja o fato que ele e não o capitalismo como Marx e outros queriam, traz a tona o que há de pior e mais desprezível na raça humana .A pretexto de um humanismo tosco e tortuoso, o regime usava entre outras coisas o estimulo a delação, a intriga e o apadrinhamento, distorcendo completamente as relações pessoais.


Medíocres que existem aos montes em qualquer sociedade, compensavam sua incompetência simplesmente se tornando confiáveis ao Estado, e entregavam os desvios dos outros ás autoridades, as vezes somente como uma forma de tira-los do caminho.

O regime não poupava nem a amoralidade( e por que não a crueldade) normal das crianças, condicionadas a hostilizar as outras quando os pais dessas eram taxados de " inimigos do povo", "contrarevolucionarios" e demais pérolas do abcdario socialista, algumas adaptadas a idiossincrasias locais como gusano, no caso da filial caribenha, transformando a vida delas e por consequência das famílias num tormento. Como na Alemanha nazista, os pequenos eram levados a denunciar os próprios pais por uma medalha ou um diploma assinado pelo papai Stalin da vez.

Essa inversão de valores se manifestava de forma similar em todas as atividades humanas.
Quantos artistas de verdade nesses países que por ironia do destino, sempre foram "think tanks" da humanidade, deixaram de acontecer por apego a sua integridade, simplesmente por se negar a aderir a famosa Arte Engajada, que de qualquer forma não expressaria sua verdadeira arte ??

Em suma, um modelo que ao mesmo tempo promovia a mediocridade, incentivava a falta de criatividade e desprezava completamente a meritocracia , produzia serviços e produtos sempre de péssima qualidade, exceção feita aqueles de interesse especifico do Estado e mesmo esses mais cosméticos do que qualquer outra coisa.

Natural então que, ao negar a diferença de aptidão e talento das pessoas, o sistema nivelou todo mundo por baixo.

Dai o gap visivel ainda hoje aqui em Berlim entre o lado leste e o Oeste da cidade.

Afora a bela torre de televisão de antiga Berlin Oriental , feita justamente para ser vista por cima do muro, o que vemos é ainda aquela corruptela da bauhaus que os Checos chamavam de pamnelaks, mesclada por alguns prédios modernos e excitantes, construídos no pós 89.
Mas mesmo a torre só delata mais uma aspecto odioso do comunismo, a propaganda acima de tudo. Faltava pão e leite mas a URSS tinha sempre alguém no espaço. Não havia carne suficiente mas Cuba e a Checoeslovaquia ganhavam dezenas de medalhas a cada Olimpíada e o Pacto de Varsóvia possuía um exercito de primeiro mundo, fruto também do carater militarizado, fundamental ao regime. No fim, todas ditaduras se tornam militares e todos os regimes, pretextos para conquistar e manter o poder.

Aqui na Alemanha, que sempre se esmera em tudo cujo povo é incapaz como os russos, checos , húngaros, poloneses e cubanos, de fazer piada a seu próprio respeito, os comunistas eram ainda mais comunistas do que na própria USSR, dai o fato da policia secreta daqui, a STASI, ser um modelo no mundo socialista. Pobres alemães, de novo vitimas da sua própria eficiência.

Toda essa conversa parece datada e já melhor abordada por tanta gente muito melhor do que eu, mas estar aqui em Berlim, palco principal das duas mais nefastas loucuras coletivas do século em que nasci, o Nazismo e o Comunismo, é no mínimo intrigante

.Não subestimando a loucura nazista, pra mim talvez até mais incompreensível que o Comunismo, esse ultimo particularmente me intriga já que coexisti com ele por quase 30 anos e se me lembro bem, em determinados momentos parecia que acabaríamos todos postados diante da bandeira vermelha cantando a Internacional, tendo que dividir o banheiro com mais 5 famílias como descreve Brodski no seu magistral Menos que Um. Era só questão de tempo.

Alem do mais todos fomos em maior ou menor grau seduzidos por ele e, por incrível que pareça ás novas gerações, o fomos depois da Primavera de Praga, da condenação do Satalinismo pelo próprio Partido Comunista da URSS, da Revolução Cultural da China e de outros sinais visíveis da verdade horrenda.

Parte da chamada geração de 68 brasileira, hoje no poder, comprou esse peixe quando já estava a tempos cheirando mal, e muita gente que poderia ter sido útil no processo político foi até morta tentando, desavisadamente, substituir uma ditadura por outra bem pior.

Vou ao Checkpoint Charlie por conta do interessante Museu do Muro, que entre outras coisas mostra como a criatividade das pessoas não acaba por decreto, nem que seja para inventar formas das mais ousadas para fugir daquele paraíso dos trabalhadores. Vale também pra entender como é possível dividir-se uma cidade em duas, coisa que pra mim sempre foi difícil de imaginar.

Os russos e seus papagaios de pirata da DDR pré 1960 tinham um problema nas mãos semelhantes ao que os americanos tinham em relação a Cuba, só que pior. Um enclave capitalista que ja começava a mostrar o gap de qualidade de vida e tecnológico, dentro do seu território.

Não havia mais a desculpa de se estar vivendo um "período especial" em função da recuperação dos estragos da Guerra II, pois o outro lado com seu inteligente plano Marshall e os mecanismos próprios ao capitalismo, havia sido mais ágil em melhorar a vida das pessoas.

se havia tentado mandar os aliados embora varias vezes, inclusive fechando-se as estradas que ligavam a RDA a Berlim Ocidental (sim, Berlim, apesar de dividida ficava inteiramente na DDR), o que obrigou aos americanos a abastecer a cidade durante dois anos por via aérea.

Sabiam que se estendessem o embargo ao ar, poderiam provocar uma guerra que hoje sabemos não estavam preparados, e também que se deixassem Berlim Ocidental á mostra, grande parte da mão de obra qualificada e as melhores mentes da RDA acabariam desertando, simplesmente atravessando a rua. Sem falar no resto da população exposta a evidente diferença de costumes e qualidade de vida.

Dai o Muro.

Mas Berlim, óbvio, não é só isso. Não é só a cicatriz mais aparente desse extinto conflito. Não é só a cidade que foi a mais cool do mundo nos anos 70, pico da guerra fria, fruto da atitude desapegada das pessoas que sabiam que se houvesse uma terceira guerra, começaria inevitavelmente aqui

.Não é só a cidade onde Bowie e Lou Reed gravaram seus melhores discos.

É uma cidade planejada e moderníssima, (sim pois foi deixada no stone unturned em 1945, quando os russos, sempre eles, tinham ordem expressa de Stalin de destruir tudo e estuprar todas - um general que tentou evitar os estupros foi parar naquele Summer Camp na Sibéria.. ) onde uma volta de carro equivale a um ano na faculdade de arquitetura, e que conta com pelo menos um museu que na sua categoria é o melhor que já vi.

O Pergamon tem algumas fachadas greco-romanas quase intactas escavadas da Turquia, uma delas, originalmente o portão de um shpopping mall em Miletto, que lembra muito Petra na Jordania ( o lugar onde Indiana Jones acha o cálice), e uma minuciosamente recriada replica doIshtar Gate por onde Alexandre adentrou a Babilônia.

Outras relíquias do império Persa que graças a Zaratustra foram removidos a tempo do Iraque, antes que acabassem adornando algum banheiro do Sadan

.O Pergamon faz parte de um complexo de 5 museus construídos em uma ilha do Spree, chamada ( por que não ?) Ilha dos Museus. .

Tivemos ainda a graça de topar com um show da irmãzinha do Rufus, Martha Weiwarth que cantou pra mim Tower of Song do LCohen e de ir jantar o melhor cordeiro de todos os tempos no bistrô Paris.