Friday, December 23, 2005

I dream of Madrid


Madrid , 20 dez

Para Murillo da Ros, Ricardo Correa e Sergio Cescatto,


Aqui na Espanha as crianças não ganham presente do Papai Noel.
São os Reis Magos que a cada 6 de Janeiro trazem os regalos a los niños, depois de um tradicional desfile de rua que Paula e eu vimos dois anos atrás em Sevilha e não entendemos nada.



Faz mais sentido já que foram eles que trouxeram ouro, incenso e mirra para Jesus nenéns, alias, ate os anos 30, o velho Santa nem existia, teve de ser inventado pela Coca Cola para uma campanha publicitária, desempregando São Nicolau depois de meio milênio de bons serviços.


Realmente esse é um pais que não acredita em Papai Noel ou qualquer outra instituição abstrata do tipo. O capitalismo dinâmico e vencedor que aqui se estabeleceu e que fez 30 anos em 2005, ano do quarto centenário do Quixote, é fruto do empreendorismo, da experiência planetária e do estilo (a vulgaridade é deles.) "nosotros tenemos cohones" dos espanhóis.


Os 280 bilhões que a comunidade européia enterrou aqui a partir dos anos 80 ajudaram, menos pelo dinheiro em si (ora, plata por plata a África seria um jardim) e mais pela aplicação responsável e estratégia de longo prazo no uso dos recursos, franqueados principalmente pela Alemanha que queria uma saída pro Mediterrâneo e, por que não, um balneário. A França, receosa de competição, tentou em vão vetar.


.A conhecida indústria do turismo que espalhou pelo mundo as grifes de hotelaria Made in Spain, transformou a Espanha no segundo destino da Europa, batendo, não é pouco, a Itália que tem a metade do patrimônio histórico mundial, paisagens mais deslumbrantes e talvez a melhor cozinha do mundo. Enquanto o a velha mama a mirou nos super-ricos da Europa, a Espanha enxergou mais longe e montou um esquema de atração à classe media trabalhadora do continente, que, pela via inversa da de Marx, venceu.


A sofisticação é tanta que o hotel do qual escrevo, da cadeia de hotéis para executivos NH, oferece aos hospedes um livro de cabeceira / regalo,que é uma compilação de contos vencedores de um Premio que leva o nome de meu herói Mario Vargas Llosa.


.El pais se tornou também um centro de aprendizagem e excelência em gerenciamento e, se valendo do admirável programa europeu de intercâmbio de estudantes, o Erasmus, pelo qual um aluno pode fazer os dois primeiros anos de uma cadeira, por exemplo, na Espanha e terminar na Bélgica, tem retroalimentado ainda mais a hotelaria, ocupando complexos inteiros com seminários e encontros.Mas nada é por acaso. Aqui Franco não morreu em vão como em tantos outros lugares. O final da ditadura, em 75 não viu aqui uma mera troca da guarda na picaretagem, nem o tradicional assalto dos ratos ao convés apos a ausência del comandante, como ai na AL.


O parlamento franquista, num ato de submissão a um projeto maior de pais, pediu demissão coletiva e os próprios comunistas saudaram o Rei, que votou do exílio ainda por obra do Ditador.


Causador e vencedor da mais cruel guerra civil do século passado,Franco pensava no fim da vida, numa transição mais blanda desde que os facínoras úteis do ETA puseram em órbita o carro do Almirante Blanco (por coincidência alvo em Espanhol), seu substituto natural.


O então jovem Juan Carlos, usou sua autoridade moral e charme pessoal para a partir da recém restabelecida monarquia, re-fundar a republica, tendo inclusive sufocado uma patética tentativa de golpe neofascista, perpetrado por um militar celerado que entrou no parlamento, arma na mão.


O Rei Salva Vidas, exímio nadador que resgatou algumas crianças de morrerem afogadas em suas ferias nas Baleares, manda tanto quanto Elizabeth, mas sua família é discreta e não dada a escândalos e gafes como seus colegas ao norte. Seu filho casou-se recentemente com uma bela repórter divorciada, o que só humanizou ainda mais a monarquia aos olhos dos espanhóis.


O socialista Gonzáles, primeiro governante do pósditadura, desde logo sacou que na Democracia um estado grande não fecha, e que nada tem de socialista o vereador de Murcia influenciar na escolha do Presidente Repsol, a Petroespanha, e que não se faz justiça social com serviços caros e ineficientes.


Tratou, portanto de criar um forte mercado de capitais a partir das poupanças das próprias velhinhas viúvas del generalíssimo, finaciando um projeto de privatizações dignos de La Tatcher, que deu em empresas como a Telefônica, que anos mais tarde desembarcariam vitoriosas na América Latina, ajudando a baixar o preço das linhas de 3.000 dólares para os níveis atuais.


Sim, crianças da era da Internet Grátis, eu conheci Shylocks no BR que viviam de alugar linhas telefônicas.


.Os frutos estão ai para serem colhidos. A cidade de Goya, Mortadelo e Salaminho têm aquela atmosfera inconfundível de lugar por onde o dinheiro circula porta a fora, algo que no Brasil só vê em alguns lugares de SP.


]Vibrante e movida, com aquela cara de capital de império que só Londres supera, calles llenas até a madrugada e uma clara predominância do poder maior que uma nação tem.


Não o legislativo, nem judiciário ou o executivo, mas o aquisitivo.


Vou jantar num lugar fantástico por obra e graça de minha amiga Dani, um velho teatro transformado em restaurante num bom momento do nem sempre genial Stark, o Teatrix, no meio a lojas de design na Calle Hermosilla 15, onde fico sabendo pelo El Pais (eta jornalzinho bom..) da eleição do Evo na Bolívia, cuja primeira declaração publica é " Cerraremos las Rádios e Televisiones que não hablaren la (mia) verdad


]"Ter de conviver com mais esse, alem de Lula, Kirchner, e Chávez ( queimarei no inferno por ter elogiado sua habilidade em lidar com a imprensa num texto anterior, já que um cara desses não se deve elogiar nem as qualidades) no mesmo continente, da vontade de arrumar um emprego de garçom aqui no Teatrix e parar de brincar de grande homem no BR.



Vale?


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