Friday, February 24, 2006

o pais das caras queimadas

Muito legal essa serie de livrinhos da coleção Reportagens Literarias da Cia das Letras, que reproduzem as grandes reportagens do Século 20.

Tinha lido o devastador " HIROSHIMA" e o clássico "A SANGUE FRIO" do Capote, que inspirou esse belo filme ai em cartaz, e que embora minimizado por tantos massacres mais recentes, è perfeito na forma.

Terminei agora o IMPERADOR do Ryzard Kapucisnky, jornalista da agencia PAP, prima pobre-polonesa da Roiters e a única minimamente independente do então bloco soviético.

Apos cobrir 27 golpes de estado, revoluções e guerras sem as credenciais nem as facilidades dos seus colegas mais a leste, Kapucisnky se mandou pra Etiópia logo do movimento militar de 74 que derrubou o último Negus, o Eleito de Deus, o Rei dos Reis, o Leão de Judá, sua Majestade Imperial Haile Selasie.

Alem desses e outros títulos tirados direto do velho testamento, Selasie recebeu de Jah em pessoa o posto de Ras Tafari, o príncipe escolhido. Dai ser cultuado pelos Rastas jamaicanos que o consideravam o Rei Negro da profecia de Marcus Gravy , aquele que uniria a raça negra dispersa desde a Babilônia. Bob Marley, muito maior como legado, o idolatrava. Chamava os USA de Babilônia, aliais tem um belo disco gravado durante uma turnê americana - Babilon by Bus, e tentou ajudar financeiramente o Imperador desempregado, mas não deixaram.

É uma graça ler a historia através de relatos dos ex-servidores do palácio, clandestinos e caçados pelo exercito golpista, num tom que nunca se divisa a ironia contida por anos de submissão da real subvserviencia, mas sempre num ar de muita desolação.

Afinal onde aqueles homens que levavam suas ocupações muitas a serio a arrumariam emprego ? Que corte do mundo aquela altura estaria precisando de um Colocador de Almofadas que passou 20 anos acomodando travesseiros em baixo dos pés imperiais para que não ficassem balançando no ar feito os de uma criança (HS era quase um anão), ou do Limpador do Xixi do Pequinês Real, que fazia questão de urinar nos sapatos dos comensais durante os banquetes, ou de um Abridor de Portas, ou ainda do serviçal que gesticulava discretamente avisandso o imperador que era hora de partir para outro compromisso ?

A Etiópia, do grego "Pais das Caras Queimadas", que era em ultima analise como os gregos se referiam a toda a África Negra, foi um império até 1974, causa e efeito de ser o único pais da Africa a não ser colonizado pelas Europas.

Por um breve período nos anos 30 foi conquistada pelo trapalhão Mussolini, e posto pra correr logo em seguida pelos guerrilheiros locais apoiados pelos ingleses, o que deve ter deixado Hitler fulo e Rommel embaraçado.

O Imperador que se refugiou em Paris durante a ocupação, assim que voltou pra casa tratou de executar os lideres da resistencia. Vergonha ou medo da concorrência.

Assim como muitos outros que terminaram mal, HS até que começou bem - quem viu o filme recente com a Kidmann e o Penn, em que um ficcticio tirano africano vaiado na ONU lembra de como anos antes, então um jovem guerrilheiro alçado ao poder, foi recebido na mesma NY com flores e confeti ?

Afinal Sua Divindade modernizou os pais , acabou com o canibalismo e outros costumes tribais como o interessante sistema judicial que consistia em se manter uma criança com supostos dons de profecia apontando criminosos nas ruas e nas casas, que eram imediatamente linchados e desmembrados pela malta . Brilhou com um histórico discurso na liga das Nações, a avó da ONU, denunciando a invasão de seu pais pela Itália, concluindo, profeticamente aos ouvintes europeus perplexos, ¨ Os próximos serão vocês¨..

Tinha alguma simpatia internacional, mas se perdeu como sempre ao nomear pelo critério da lealdade, da bajulação e pela aversão a competência e capacidade técnica, que imaginava pudessem eclipsar sua solaridade.

Talvez tenha inspirado o filme bobinho no qual o também baixote Eddie Murphy faz um rei africano, diante de quem todos se curvavam para parecerem menos altos.

O estopim do golpe foi um documentário europeu, A Fome Oculta, espécie de Hearts and Minds versão paralelo 10, que mostrava o Palácio Imperial contrastando com as choças do norte do pais, Salassye alimentado seus tigres a file minhon de antílope e as tradicionais crianças infranutridas da região.

Armazéns dos nobres especuladores cheios de comida, banquetes no palácio e mortos de fome ás moscas.

O exercito, talvez também de inicio bem intencionado, reagiu. De principio aprisionando a corte e os ministros, tudo em nome do Imperador, que ainda ainda contava com algum prestigio junto a massa que, lamentavelmente, nunca assiste documentários. depois de muito trabalho de convencimento popular, o destituíram.

Como é possível a opinião pública descolar os chefes de estado ((e )) das quadrilhas que os cercam ? O povo Etíope tal qual o russo (alem de muita gente por aqui afora) quando soube dos crimes do Big Bigode relutou em aceitar que o Chefão tinha algo a ver com suas agruras, culpando como sempre os que o cercam na clássica atitude tipo - Quando o Imperador se aperceber o que os nobres vem aprontando, tudo vai mudar.

Quem pode entender esses casamentos históricos entre alguns lideres e seus povos que se comportam como viúvas copiosas a chorar nos funerais dos Stalins, Francos, Perons e outros, depois de décadas de infidelidade conjugal e violência domestica ?

Esse descolamento explica a boa performance recente do presidente Molusco nas pesquisas de opinião.

Mas enfim, o livrinho é otimo, embora soe quase surrealista. Uma corte das 1001 noites num dos países mais pobres do mundo, na segunda metade do sec 20.

Mas, pense se tanta coisa mudou assim, ou seja, a monarquia se foi mas ficaram os reizinhos.

Li agora mesmo que o prez. da Etiópia, que pode ter sua divida cancelada graças ao trabalho de gente bem intencionada e importantíssima como Bono e Geldoff, desmarcou eleições e passou fogo na oposição.

O bom presidente de Malawi (onde fica?) acabou de trocar sua frota de Maybachs, carros alemães feitos a mão, a 350 mil retratinhos de George Washington cada.

Gostaria de ter tido tempo de perguntar ao polaco Leminsky porque seus branquelos conterrâneos que não tem tradição alguma de África como por ex. os ingleses de Índia - o que explica um Kipling - nos trazem os mais belos relatos sobre o Continente de Triste Figura. Embora bem diferentes entre si, esse aí e o Heart of the Darkness do Conrad.

O horror, O horror Cher Kurtz.

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