Thursday, February 16, 2006

sketches from spain


Dedicado ao Beto e ao Zeduardo, companheiros de movida

Volto à Espanha antes que imaginava, mas não do que desejava. Unfinished business, caro Sancho.
Dessa vez venho com Paula e Rodrigo e vamos a primeiro a Valencia, depois Madrid.
Programei desse jeito, porque la está uma das 7 maravilhas arquitetônicas do mundo moderno, a Ciudad de Arts, projetada pelo valenciano planetário Santiago Calatrava, um dos maiores vivos, junto a Ghery, Piano, Foster, Pelli, e um japonês cujo nome me escapa.
É um complexo imenso que lembra de Atlantis dos filmes B a um capacete espacial alienígena com algo de Gaud. Funciona como um Museu de Ciências, outro de Arte Moderna além de um aquário dos mais completos dos que já vi.
Um jardim com a cobertura em vão livre, que é a marca registrada do arquiteto margeia a construção, um deslumbre da cidade que esse ano será o porto de partida da Americas Cup, a copa do mundo da vela. No ano passado o barco vencedor era suíço, algo tão inusitado quanto a vitória daquele time rastafári de trenó no gelo em "Jamaica Abaixo de Zero".
-Acompanho pelo"El Pais" uma polêmica que me prende a atenção:

A demissão de um famoso promotor público de história pessoal trágica, preso a uma cadeira de rodas desde um desastre de automóvel ocorrido justo no dia em que entrou pra faculdade. Duro e competente, arquivo vivo do terrorismo basco, foi responsável por semi-desmantelar o ETA nos últimos 20 anos.
Sobrevivente de vários atentados, um deles inclusive que custou a vida de uma amiga e assessora, foi fulminado por divergências ideológicas com o ministro da Justiça do Sapateiro, isso na semana que o governo estuda um indulto ao maior assassino da banda terrorista, com mais de 80 mortos nas costas, incluso 4 niños num ataque a um quartel onde os soldados moravam com as famílias.
De uma pena de 5 mil anos com 20 já cumpridos, o terrora ficaria mais 6 e sairia, apesar de escrever freqüentemente a cúpula do movimento (sabe-se la como), pedindo para que continuem mandando bomba.
Ninguém entende um grupelho como o ETA que não é querido nem entre os pouco mais de 1,5 milhões de bascos, riquíssimos e já não impedidos de cultuar seus costumes nem de falar sua estranhíssima língua como eram na época do Generalíssimo.
O próprio IRA que apesar dos pesares defendia a independência de um pais e não de uma Curitiba e meia em população, já se acalmou. Afinal, fetichismos nacionalistas aparte, qual a vantagem em se ter mais um pais hoje em dia, com o caríssimo aparato que isso implica - ministérios, forças armadas, Senado, Câmara etc.

Há que se ter escala
.Mas pegou mal e se fala em um acordo secreto Sapateiro-Etarra, incompreensível já que o grupo se encontra mais debilitado que nunca.

Não da pra esquecer que esse gabinete se elegeu no calor dos atentados a Atocha, chamados aqui 11M.Jo no creyo en conspiraciones, pero que las hay las hay
.+++
Não gosto de futebol. Me aborrece, só acompanho a distancia.

Sou ignorante na matéria, mas não um ignorante absoluto, portanto não poderia deixar de ver de perto essa seleção mundial que é o Real Madrid.

O outro time, pouco importa, era o bom Espanhol, que levou de 4 X 0.Poucos times na historia foram capazes de fazer gente do quilate de Ronaldo, Beckham, Robinho, RCarlos , Cicinho e Zidane, esse o melhor em campo, vestir a mesma camisa e lidar com seus egos, diferenças de estilo e principalmente pagar pontualmente a folha.
Hay também que se ter sangue de toureiro quando um time desses toma inexplicavelmente de 6 do Zaragosa, como á alguns jogos.
Não é só uma questão de suporte financeiro, mas de talento empresarial. Não à toa o bord do clube é também um dream team dos mais ricos e bem sucedidos empresários espanhóis.
Quem quer a presidência tem de fazer uma caução bancaria de 50 m de euros.
Outra coisa que no BR somente o nosso Atlético entendeu, embora a comparação seja exagerada, é que não se faz um grande time sem um grande estádio.O Santiago Barnabeu é uma atração em si mesmo. Estivemos la de tarde numa tour paga e a noite pro jogo.Um estádio tem de ser a segunda casa do torcedor, onde ele possa levar as filhas pequenas. Tem de ser algo de que ele se orgulhe e que de alguma forma seja a representação concreta de seu amor pelo time.

O SB é isso e mais.Muito se escreveu a respeito, mas nunca é demais. É incrível a falta de profissionalismo dos clubes da superpotência futebolística que é o BR. Aqui na ES todos esses craques devolvem ao clube seus passes ou perto disso com a venda de camisetas e outros merchandisezinhos.
Embora a renda da população daqui faça toda a diferença, não posso crer que marcas como Flamengo e outras ai não possam ser muito melhor exploradas, se encaradas a sério.Mas cada um na sua.
Meu futebol é outro e emoção de verdade foi ver Mario Vargas Llosa levando o seu La Verdad de Las Mentiras ao completamente lotado Teatro Espanhol, lendo e interpretando com o auxilio de uma boa atriz local, contos de Faulkner, Borges, Rulfo, Oneti e Ayala.

Só consegui entrar por milagre, uma senhora concordou em me vender um ticket de uma amiga que não pode vir. Até o mal estar da Paula que acabou não indo contribuiu, já que nem o fantasma de Cervantes conseguiria outro ingresso aquela altura.

O velho, guapo e dono de uma dicção e de um espanhol perfeitos, vai bem no palco.

Uma celebridade por aqui.

Nada mal para um menino de Arequipa no Peru dos anos 30, cuja família teve de se mudar pra Bolívia pra melhorar de vida. Hoje é 1 dos 100 intelectuais mais influentes no mundo. Escreve, sempre magistralmente para o El Pais onde sua filha Morgana trabalha de fotografa.

Não temos nada parecido no BR, a menos que v. ache que Paulo Coelho é um escritor e não um eficiente criador de livros auto-ajuda, como eu.
Zéduardo me conta que estava em Paris logo após a eleição de 90 no Peru - aquela que MVL perdeu pro Fujimori porque se recusou a se prestar a vulgaridades populistas como se fantasiar de Inca e por pregar um choque liberal que o japonês acabou adotando - Zé ia tomar café no Deux Magots todos os dias mesa a mesa com o velho, entre uma aula e outra na Sorbone onde lecionava, ainda se refazendo da eleição cuja historia esta no seu Peixe NÁgua, pra quem quiser uma aula de política sudamericana.
Falava de filosofia, literatura e o que mais lhe desse na telha, avec uma estudante mais linda do que a outra e uma taça de vinho nacional, já que não é assim tão exigente.

Meu amigo louco para perguntar se ele estava realmente certo de que queria ter ganhado eleição no longínquo Peru e ter pegar a unha o Sendero Luminoso no auge de sua loucura, coisa que ele teria de fazer sem lançar mão da Yakuza quechua que o chino montou e que acabou por tomar conta do seu governo.
Hoje o ex-Xogun dos Andes junto ao se comparsa Montesinos, dividem a cela com o Mao Companheiro Abimael Guzman, chefe do SL , enquanto nosso herói divide seu tempo entre Madrid e Londres reafirmando aquilo que Isabel de Espanha ajudou Colombo a provar de uma vez por todas.

O mundo é mesmo redondo.
Mas não querendo tomar o lugar das saltitantes viajantes curitibanas de meia idade que escrevem pra Revista Aeroporto e que sempre terminam seus instrutivos relatos de viagem com o inevitável... "E Boa Viagem" na língua do pais visitado, recomendo pra quem já viu e reviu Goya no Prado e Picasso no Reina, que faça o que eu fiz no ultimo dia em Madrid.

Alugue um carro e suba a Serra rumo a Ávila pra ver sua muralha, a mais conservada e intacta da Europa, e a vizinha Segovia, de preferência essa época do ano quando o horizonte esta nevado.
Almoçamos no bom Mesa de Candido em Segovia a poucos metros de um também arquiconservado aqueduto romano que ao mesmo tempo destoa e combina com a cidade medieval.

O Alcazar é mais belo do que o de Toledo e a cidade mais agradável, menos opressiva.

Não consegui achar um castelo vizinho, que serviu de prisão para Cesar Borgia, o que teria sido instrutivo já que recentemente li ao mesmo tempo o bom livro do especialista em famiglias Mario Puzzo e a quadrãnizaçao do Manara, mestre dos derriers femininos (que conseguiu melhorar essa maravilha da criação) e que emprestou a Lucrecia os traços de sua personagem favorita, a pin up Mel.
Na volta passamos próximo ao Escorial que fica pruma próxima, ja que o tempo era curto pra exploração que o recinto exige, e pelo Vale de los Caidos, piramide falangista construída pelos escravos republicanos ao final da Guerra Civil.
A distancia se vê a Cruz da altura de um pequeno arranha céu, em meio a um bosque de pinus.
Não paramos. Como disse o Ricardo certo feita, não vou dar essa moleza pro Franco.

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