Monday, November 27, 2006

cartun cartuns


Curitiba, 20 de novembro de 2006

dedicado ao amigo foca


cartun cartuns

Milton Friedman, figura maior do pensamento econômico liberal desde Smith, morreu semana passada.

Suas idéias quando postas em pratica foram um sucesso, principalmente se você acredita que os fins justificam os meios, como no caso do Chile.

Pensei em escrever como será seu paraíso perdido, onde tudo é privado, mas desisti. Respeito à morte, ao menos enquanto recente.


Tanto que dias atrás mandei um e-mail mal criado a Globo, protestando pela piada horrenda que a Ana Maria Braga fez em seu lamentável programa. Tinha há ver com dar um Legacy para cada jogador do Cohrintias para que acertassem o Gol (argh).

Cuida-te primo, ou vai acabar dando receitas na tela.

Já um cartum não ofende, a não ser é claro que você seja muçulmano, portanto se soubesse desenhar, poria o velho Milton ao lado de Marx numa nuvenzinha daquelas e, olhando para China, um dos dois diria:- Onde foi que acertamos ?

Alias, que falta faz o Henfil. Conversava com o amigo OD II sobre o que, a propósito de Hanna Harendt, chamei de banalização da tragédia.

A filosofa judia cunhou o termo Banalização do Mal a partir das impressões colhidas durante o julgamento de Adolf Eichmann que ela cobriu em Jerusalém para a New Yorker.

Nada de mais no responsável pela logística dos campos de concentração Nazis, nenhum monstro verde babando sangue, nem sinistros bigodinhos ou poses ridículas, somente um cinzento e eficiente burocrata, desses presentes nas repartições de qualquer tempo ou lugar.

Seus despachos, que organizaram corretamente trens e fornos levando a morte milhões, num outro regime teriam resultado em, por exemplo, um belo programa de aleitamento infantil.

Já eu tratava da nossa indiferença crônica enquanto sociedade, às crianças que jogam bolinhas nos sinais das cidades em troca de trocados, e que já são figurinhas fáceis do cotidiano urbano, como os shoppings e os outdoors da Gisele.

Parado num sinal, vi recentemente dois dos inevitáveis malabaristas instantâneos inovando. Usavam monociclos.

Pensei logo no pai do Baixim e da Graúna desenhando uma situação na qual um circo seria montado no intervalo do sinal, com trapezistas se pendurando no semáforo, corda bamba no fio de luz, domador de vira-latas e o apresentador de cartola e calça culote em cima de uma lata de lixo a gritar o inevitável respeitável publico.

Gosto do Henfil, por que abstraio seu esquerdismo primário, e o Br tem alias toda essa geração ótima de cartunistas, como o Laerte e o Angeli, cujo nome, Millor sacou, é anagrama de genial.

Mas meu favorito é mesmo o Gary Larsen, das tirinhas Far Side.


Tem o Crumb também, mas no fundo acho que o que ele faz é literatura em quadrinhos e não cartun.

Pouco conhecido no Brasil, Larsen é de uma inocência e pureza que só os americanos sabem tornar engraçado e esbanja duas grandes qualidades humanas que prezo tanto ou mais que qualquer outra - imaginação e curiosidade.

Suas vitimas são seres humanos, vacas, extraterrestres, tamanduás, elefantes, insetos, monstros, tubarões, alces, senhoras que jogam bridge e toda espécie de criaturas estúpidas.

Numa tira um caipira condena a raça humana à extinção por sacudir efusivamente pela cabeça um ET em forma de braço.

Em outra, Tarzan dá uma festa em sua casa e tudo ia muito bem até que Tantor, o elefante, vê um piano com teclado de marfim.

Poesia pura.

Certa vez saiu com uma que mostra uma macaca que, achando um cabelo loiro nas costas do marido, diz – Aquela vaca da Jane Goodal... (that Jane Goodal tramp), se referindo à maior especialista e defensora dos gorilas das montanhas de Uganda, essas bestas sagradas, eternamente ameaçados de extinção pelos caçadores que vendem suas mãos como cinzeiros (quem compra tais atrocidades???).

Consta que a assessora da cientista ligou para o recluso e ultra tímido Larsen, que relutou em atender, antevendo um longo e custoso processo judicial, tão comum nos USA. Na verdade, tudo o que ela queria era licenciar o cartum e imprimi-lo em camisetas da Fundação Jane Goodal, o que acabou sendo feito com enorme sucesso.


Gary é visivelmente um ex-menino cientista maluco, daqueles que todos conhecemos um ou mais exemplares na infância. Desses que dissecavam sapos e faziam experiências misturando os perfumes e os temperos da mãe, passavam horas com a lanterna no quintal observando insetos e sempre tiravam 10 na prova de ciências.

Os famosos nerds americanos, que invariavelmente dão em bem sucedidos médicos, cartunistas, ou donos da Microsoft.

O meu foi o Enzo, amigo do colégio Medianeira, hoje cirurgião, e que a época desenhava monstrinhos durante as aulas de religião. Sua criação imortal, o UrubuSauroHumaNeuza, que ainda hoje diverte meus filhos, tinha cabeça de urubu, corpo de dinossauro, pés de ser humano e o cabelo enrolado da Neuza, sua empregada, que, por exclusão, não era humana.

Se isso não ilustra bem o preconceito e a até certo ponto saudável maldade infantil, não sei o que o faz.

Carlos Fluentes, o outro grande mexicano que me esqueci de mencionar em meu texto-novela-mexicana, conta no seu recente de A a Z que ora leio que, perguntado por Milan Kundera se já havia lido Kafka, respondeu que claro que sim . Mas em alemão? – o checo escrevia em alemão, sua segunda e às vezes primeira língua

- Se não, nunca leu.

Pois bem, desde que comecei me interessar por poesia e literatura, passei a desconfiar de traduções. Com as raras exceções de gente como o Augusto de Campos que chega às vezes a superar o traduzido, o bom mesmo é ler no original.

Devíamos todos, de pequenos, sermos mais forçados a aprender línguas. Vale para os clássicos e para os cartuns.

Se não, vejamos:


Numa tirinha do doce bárbaro Hagar, o Horrível do Dik Brownie, alguém pergunta ao Lucky Ed, o intelectualmente prejudicado escudeiro do Viking, como reconhecer seu chefe.

Fácil diz Ed, é o cara de barba com chifres. No próximo quadrinho vemos o sujeito em duvida diante de um inusitado trio: Hagar, um bode e um barbudo musico de jazz tocando uma corneta, alem de mais alguns instrumentos largados pelo chão.

Como traduzir "horn", ao mesmo tempo chifre e instrumento de sopro, de forma a preservar a graça da piada?


E, se tradução é traição, refilmagem não fica atrás. Fui ver o remake do Homem de Palha com Nicholas Cage, traduzido pra cá como O Sacrifício.

No fim não é um mal titulo, já que sofremos duas horas procurando em vão tudo àquilo que era legal no original.

Onde estará o erotismo não vulgar presente em toda trama?

E a Brit Ekland, substituída por uma-la–qualquer ?

E, principalmente cadê a estupenda trilha sonora?


Essa versão prescinde justamente do conflito (que remete ao imperador Juliano) entre o policial irlandês, ultra cristão e o Conde vivido pelo vampirão Christopher Lee, que cultua e cultiva os deuses celtas e os rituais carnavalescos pagãos da idade media, reduzindo o primeiro a um policial tipo CHIPS e o segundo numa senhora de meia idade que parece mais uma freira a paisana.

Ou seja, a mesma inocência americana que faz a graça de Larsen, transmorfa historia do Homem de Palha em mais um banal psycho-thriller, desses que dão em pilhas nas locadoras.

Alias a minha favorita aqui em CWB chama-se justamente, Cartoon.



Wednesday, November 01, 2006

tower of song

a pedido do beutifull loser AV traduzi como pude o classico coheniano


Tower of Song

Bem, meus amigos se foram e meu cabelo embranqueceu,

Sinto dores nos lugares em que sentia prazer,

Estou louco de amor, mas não estou entrando em êxtase.

Eu simplesmente pago meu aluguel todos os dias, na Torre das Canções.

................................

Eu perguntei a Hank Willians, quão solitário se pode ficar.

Hank Willians ainda não respondeu,

Mas eu o ouço tossir, a noite inteira.

Cem andares acima ,

Na Torre das canções.



Eu nasci assim, não tive escolha, eu nasci com o dom dessa voz dourada,

E vinte sete anjos, do Grande Alem.

Eles me amarraram aqui nessa mesa,

Na Torre das Canções

..................

Portanto você pode enfiar seus alfinetes naquela boneca Vodu.

Sinto muito babe, não se parece nada comigo.

Eu me encosto na janela, onde a luz é mais forte.

Eles nunca deixam que uma mulher te mate,

Não na Torre das Canções

.......................

Você pode dizer que eu me tornei mais amargo, mas disso você pode ter certeza:

- Os ricos têm túneis que levam direto pro quarto dos pobres,

E um Grande Julgamento se aproxima,

Mas eu posso estar errado.

Você ouve essas vozes estranhas

Na Torre das Canções.


Eu te vejo lá no outra margem,

Eu não sei como o rio se tornou tão largo

E eu te amei babe, desde sempre

E todas as pontes que queimamos, e que podíamos ter atravessado.

E eu me sinto tão próximo de tudo que perdemos,

E nunca mais teremos de perder novamente.

..............

Então Adeus meu amor, eu não sei mais quando volto

Amanha eles nos mandarão praquela Torre no final da rua.

Mas você vai ouvir falar de mim,

Bem depois da minha partida

Eu vou te dizer coisas belas da janela,

Na Torre das Canções.

bear food

I’ve seen the future, brother it is murder
(Leonard Cohen – the future)

Dedicada a Nalva, my beloved shrink

Se

eu fosse reitor de um desses cursos de psicologia que hoje pululam em cada esquina, faria do documentário O Homem Urso de Werner Herzog, matéria obrigatória.

Nada que tenha lido ou visto ultimamente ilustra a estranheza e a capacidade de se auto- iludir das pessoas, nem retrata de forma tão crua as neuroses de alguém quanto a historia de Thimoty Tradewell, esse americano com cabelinho de Príncipe Valente, que por doze verões se muda para a península do Alasca, região infestada de ursos pardos, sob o pretexto de cuidar deles e eventualmente até tornar-se um.

Ao final do décimo segundo, cumpre sua vocação e estranha obsessão e finalmente vira - comida de urso.

A primeira vista Tim é mais um underdog, um loser fruto da repressão sexual e do contrato com o sucesso que cada americano já nasce assinando, desses que aquela sociedade produz, rejeita e depois contrata como ícone.,


Mas é muito mais que isso.Na sua infantilidade e senso pueril, acredita que os ursos são seus irmãos cósmicos no jardim de infância do éden, e que esta lá no papel de uma espécie de guerreiro do arco írisda lenda indígena. Um Messias que veio para levar o povo urso à terra prometida.

Não ursos quaisquer, mas ursos pardos – grizzling bears - essas estranhas criaturas, um teddy bear, fofinho e gracioso quando calmas e sobre as quatro patas, mas que se transformam sem aviso prévio na mais perigosa maquina de matar a serviço do General Natureza, assim que se postam nas patas traseiras e crescem para mais de dois metros de músculos e gordura de peixe, com as garras do Wolverine e presas de tubarão branco.

A verdade e a natureza são muito mais prosaicas e tal qual Gertrude Stein se referia as rosas, um urso é um urso é um urso é um urso.

O bando (qual é o coletivo de ursos, Prof. Correa ?) talvez possa até ter se acostumado com aquele ser imberbe e estranho vagando por ali, mas quando a fome apertou ,um deles o enxergou exatamente como um urso nos enxerga cada vez que nos encontramos em seu território, desarmados e disponíveis:- Um degrau abaixo na cadeia alimentar.

Essa busca da pureza perdida que os americanos e de resto a raça humana vez ou outra nos lançamos em vão, seja no passado, na religião ou eventualmente na natureza, invariavelmente termina mal.

Os anos sessenta começaram com a liberação dos costumes, Abie Hoffman, os verões do amor, a solidariedade extremada e as crianças cósmicas.

Acabou em Helter Skelter escrito com o sangue de Sharon Tate grávida numa parede de Hollywood.

Hitchens diz que comparar os USA de hoje na questão do Iraque com os do Vietnã é um erro, aquilo esta mais para um neo Camboja, já que uma retirada das tropas as pressas não significaria uma reedição do governo Vietcong, mas sim um Khmer Rouge Contrataca.

Quem se esqueceu dos meninos e meninas de Pol Pot que queriam purificar o ser humano, acabando com as cidades, os intelectuais (ou qualquer um que usasse óculos) e de resto com todos os signos da modernidade?

Pois é, perpetraram o maior massacre per capta da historia do século dos massacres.
Por muita sorte e trabalho de inteligência que se sobrepôs a repressão, o Peru não foi pelo mesmo caminho luminoso.Tim e o urso não deixam de ser uma metáfora. .

É patético, mas chega a ser terno ouvir sua voz, quase feminina, recitando bobagens permeadas de genialidades (Tim é quase um autista) em contraste com a locução teuto lógica do próprio Herzog.

As tomadas feitas pelo próprio Tradewell ou por uma eventual namorada sobremesa de urso, utilizadas na medida pelo cineasta, são enfadonhas e ultra narcisistas, mas algumas lindas, como a do final quando ao vê-lo andando acompanhado de dois ursos como se na coleira, quase acreditamos que ele finalmente se integrou ao bando.

Timmy é extremante irritante e nem o alemão que melhor filmou personagens obsessivos e que dirigiu o mais idiossincrático ator ever - se é que isso é possível - Klaus Kinsky, parece suportá-lo

.Numa das cenas mais reveladoras, vemos a mãe de Tim com um ursinho de pelúcia no colo.

Numa das mais constrangedoras, ele encosta a mão nos excrementos ainda quentes do urso, como se adivinhasse seu destino.