Wednesday, November 01, 2006

bear food

I’ve seen the future, brother it is murder
(Leonard Cohen – the future)

Dedicada a Nalva, my beloved shrink

Se

eu fosse reitor de um desses cursos de psicologia que hoje pululam em cada esquina, faria do documentário O Homem Urso de Werner Herzog, matéria obrigatória.

Nada que tenha lido ou visto ultimamente ilustra a estranheza e a capacidade de se auto- iludir das pessoas, nem retrata de forma tão crua as neuroses de alguém quanto a historia de Thimoty Tradewell, esse americano com cabelinho de Príncipe Valente, que por doze verões se muda para a península do Alasca, região infestada de ursos pardos, sob o pretexto de cuidar deles e eventualmente até tornar-se um.

Ao final do décimo segundo, cumpre sua vocação e estranha obsessão e finalmente vira - comida de urso.

A primeira vista Tim é mais um underdog, um loser fruto da repressão sexual e do contrato com o sucesso que cada americano já nasce assinando, desses que aquela sociedade produz, rejeita e depois contrata como ícone.,


Mas é muito mais que isso.Na sua infantilidade e senso pueril, acredita que os ursos são seus irmãos cósmicos no jardim de infância do éden, e que esta lá no papel de uma espécie de guerreiro do arco írisda lenda indígena. Um Messias que veio para levar o povo urso à terra prometida.

Não ursos quaisquer, mas ursos pardos – grizzling bears - essas estranhas criaturas, um teddy bear, fofinho e gracioso quando calmas e sobre as quatro patas, mas que se transformam sem aviso prévio na mais perigosa maquina de matar a serviço do General Natureza, assim que se postam nas patas traseiras e crescem para mais de dois metros de músculos e gordura de peixe, com as garras do Wolverine e presas de tubarão branco.

A verdade e a natureza são muito mais prosaicas e tal qual Gertrude Stein se referia as rosas, um urso é um urso é um urso é um urso.

O bando (qual é o coletivo de ursos, Prof. Correa ?) talvez possa até ter se acostumado com aquele ser imberbe e estranho vagando por ali, mas quando a fome apertou ,um deles o enxergou exatamente como um urso nos enxerga cada vez que nos encontramos em seu território, desarmados e disponíveis:- Um degrau abaixo na cadeia alimentar.

Essa busca da pureza perdida que os americanos e de resto a raça humana vez ou outra nos lançamos em vão, seja no passado, na religião ou eventualmente na natureza, invariavelmente termina mal.

Os anos sessenta começaram com a liberação dos costumes, Abie Hoffman, os verões do amor, a solidariedade extremada e as crianças cósmicas.

Acabou em Helter Skelter escrito com o sangue de Sharon Tate grávida numa parede de Hollywood.

Hitchens diz que comparar os USA de hoje na questão do Iraque com os do Vietnã é um erro, aquilo esta mais para um neo Camboja, já que uma retirada das tropas as pressas não significaria uma reedição do governo Vietcong, mas sim um Khmer Rouge Contrataca.

Quem se esqueceu dos meninos e meninas de Pol Pot que queriam purificar o ser humano, acabando com as cidades, os intelectuais (ou qualquer um que usasse óculos) e de resto com todos os signos da modernidade?

Pois é, perpetraram o maior massacre per capta da historia do século dos massacres.
Por muita sorte e trabalho de inteligência que se sobrepôs a repressão, o Peru não foi pelo mesmo caminho luminoso.Tim e o urso não deixam de ser uma metáfora. .

É patético, mas chega a ser terno ouvir sua voz, quase feminina, recitando bobagens permeadas de genialidades (Tim é quase um autista) em contraste com a locução teuto lógica do próprio Herzog.

As tomadas feitas pelo próprio Tradewell ou por uma eventual namorada sobremesa de urso, utilizadas na medida pelo cineasta, são enfadonhas e ultra narcisistas, mas algumas lindas, como a do final quando ao vê-lo andando acompanhado de dois ursos como se na coleira, quase acreditamos que ele finalmente se integrou ao bando.

Timmy é extremante irritante e nem o alemão que melhor filmou personagens obsessivos e que dirigiu o mais idiossincrático ator ever - se é que isso é possível - Klaus Kinsky, parece suportá-lo

.Numa das cenas mais reveladoras, vemos a mãe de Tim com um ursinho de pelúcia no colo.

Numa das mais constrangedoras, ele encosta a mão nos excrementos ainda quentes do urso, como se adivinhasse seu destino.

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