Thursday, March 08, 2007

que tal a Helvecia ?


Zermatt, 20 de fev 2007.

Então Obelix, que tal a Helvécia?
(Asterix entre os Helveticos
)
Tutatis ou que nome que você queira dar a essa força que forjou as montanhas criou, de quebra, ícones perfeitos para determinadas regiões do planeta. Nada remete mais a Suíça para mim do que o velho Matehorn, que vejo da janela do hotel enquanto escrevo,em toda sua imponência física e jeitão de rainha da cordilheira e não mais nas milhares de embalagens de chocolate, cartões postais e pôsteres da extinta Swissair.

A sensação é de vingança de todas as pessoas que testemunhei a primeira vez no Rio, e que me encheram de inveja quando deram de cara com o Pão de Açúcar, já que não consigo lembrar de quando ele deixou de ser uma mera imagem impressa para mim.

Se alguém imaginasse uma montanha a partir do nada, penso que jamais chegaria a essa síntese perfeita, ao mesmo tempo estranha e elegante que, assim como tantas outras maravilhas geográficas mundo afora, ser chamada acidente soa como uma tremenda heresia, até para alguém com tão pouca atenção pelo metafísico quanto a primeira pessoa do singular aqui.

Difícil também imaginar um planeta Suíça, como aqueles mundos mono-temático de Star Wars, já que, invocando á contradição necessária para existência de todas as coisas, não haveria Comunidade Helvética sem Angola, Bolívia, ou Nigéria.

Não exorbitante leitor, não estou caindo na armadilha banal de associar a pobreza de uns com a riqueza de outros, conceito perigoso e inexato que já legitimou tantos absurdos por ai. Sei perfeitamente que cada metro pavimentado desse país custou sangue, suor e lágrimas em outros, mas não sou naive ou recalcado a ponto de pensar que esses mesmos fluidos não teriam sido derramados de qualquer jeito e o provento desse sofrimento enviado sabe-se para lá onde.

Os ancestrais dessas pessoas que deslizam ao meu redor como se tivessem nascido com esquis nos pés, comeram muita neve para fazer desse lugar um santuário onde o mundo pode mandar seu dinheiro, legal ou ilegal, para longe da cobiça dos governos e dos criminosos, isso quando se pode estabelecer a diferença, e também os filhos para estudar, sem a maioria das preocupações antigas e recentes que todos temos com a cria. Natural, portanto que tenham tido a sabedoria de transformar esse artigo raro que é a segurança pessoal/patrimonial em uma indústria bilionária.
Enquanto a moçada dos trópicos esticava a mão para se alimentar e dormia onde quer que deitasse a cabeça, o pessoal daqui passava a metade do ano com o chão coberto de neve, sem poder plantar, alimentar os animais ou sequer andar direito.
Sofrendo para cobrir poucos metros na neve fofa para apanhar um esqui fujão, fico pensando como seria correr atrás de um cervo com uma lança.Uma amiga disse que não se fica rico ganhando e sim não gastando. De certa forma é o que explica o sucesso desses países glaciais. O Gianetti em seu Valor do Amanhã que tenho de terminar de ler hora dessas, mostra que a queda das folhas no outono é uma forma das plantas se prepararem para o inverno que se aproxima, poupando assim energia quando o sol diminui de intensidade. A hibernação dos ursos e de outras criaturas do frio pode ser entendida pelo mesmo viés. Como parece que todas as sociedades primitivas imitavam a natureza, porcos, gansos, cavalos e vacas ( que a língua mais precisa que existe chama de livestock) eram aqui mantidos no porão das casas, fornecendo comida e calor. Talvez por isso para eles seja cultural ainda hoje levar cães para lugares que nos escandalizam como agências bancarias e restaurantes. O apego a terra e os animais, visível nas milhares de pequenas propriedades ao longo das estradas, me faz duvidar solenemente de que um dia a Europa relaxe os subsídios agrícolas, que me parecem ser menos gravosos do que os males do êxodo rural de outras regiões do globeleza.
Mas alem da desbotada argumentação de como as dificuldades moldam o caráter dos povos, existe sempre o imponderável dos fatos históricos isolados. Na França da idade media, a cobrança de juros era pecado capital - não no mesmo sentido de que os do Brasil de hoje o são, falo de qualquer taxa maior que zero - o que forçou Calvino e seus seguidores a se exilarem nas margens do Lago Leman, fundar Geneve e estabelecerem uma sociedade moralista, tradicional, capitalista ate a medula, formula que, by the way, deu certo também num tal Estados Unidos da América.

Mas como não há estabilidade nem garantia de sucesso eterno, só resta reinventar-se. No inicio dos 90´s isso aqui dava sinais claros de decadência, as escolas enfrentavam concorrência de vários outros centros pelos estudantes árabes, e os relógios já não podiam com os made in Japan. Ai veio a Swatch que devolveu à competitividade à indústria fazendo timepieces de menos de 200 dólares, e que terminou absorvendo e revitalizando marcas tradicionalmente caras como Rolex e Omega. E vieram os novos riquíssimos do pós-Perestroica, certos de que a Mãe Rússia é um bom lugar para se ganhar dinheiro, mas não para guardá-lo, menos ainda para se manter a família. Salvaram as escolas e o mercado imobiliário de roldão, já que a Suíça é convenientemente próxima para seus jatinhos e jatões.
Mesmo os bancos tiveram de sofrer uma serie de mergers e takeovers até criarem marcas mundiais como UBS e Credit Suisse. A rede bancaria local, alias tão criticada pelo sigilo que protegeu alguns dos maiores supervilões da historia,mas que também salvou algumas fortunas ganhas legitimamente quando esses mesmos facínoras resolveram confiscar os bens das pessoas em nome dos mais variados credos, é fruto dessa montagem social Calvinista.

Mesmo a questão do sigilo que com toda razão antipatiza a Suíça aos olhos do mundo já esta sendo revista aqui.
Quem há dez ou quinze anos imaginaria um banco suíço entregando nosso Deputado das Arábias às autoridades, por manter meros 200 milhõezinhos sem origem, que provavelmente Dna. Sylvia usava para ir à feira em Paris?
O Citybank local o fez, cumprindo a determinação da Federação dos Bancos, que penaliza as instituições por abertura de contas que sejam (ao menos muito) suspeitas. Agora, se a as autoridades braz. nada farão para punir nosso Sheik das Obras Publicas, não é culpa deles. Não esqueço do anti-slogan que o Décio criou na época das Diretas Já, quando Paulinho Plaza Athenée se meteu a besta:– Se não podemos ter um presidente sério, tenhamos logo um sírio.

Mas pense no outro lado dessa moeda. È razoável manter grandes quantias em bancos no México ou em outros lugares - alguns bem próximos, - onde seqüestro é meio de vida e o sigilo bancário uma ficção? De novo, a Suíça vende seu bem mais valioso, a estabilidade que essa sociedade alcançou, e que nem Hitler ousou atacar.

Passando pela jazzy Montreaux, mostro ao Thomas o castelo de Chillon onde Byron, Shelley e Cia. passaram em 1816 uma noite de tempestade e excessos, que os teria levado a fazer a famosa aposta - quem dentre eles escreveria o conto mais aterrorizante. Ganhou Mary, a mulher de Shelley, ainda que a posteriori, com a história de um tal Dr. Victor e sua infeliz criatura reciclada. Igor, acho, é invenção do cinema.
Byron, sem paciência para prosa, nunca terminou O Vampiro, mas inspirou Bram Stocker a dar forma ao seu Conde, alem de por o castelo no mapa com seu belo poema Prisioner of Chillon .
Nada sei da tentativa de Percy Blissy Shelley.

Daria um belo filme a historia do Frankenstein Summer, quando os românticos ingleses habitaram a Vila Deodati as margens do Leman, o que deve ter causado nos aldeões um efeito parecido à presença do monstro no conto.

Em termos atuais, algo assim como se a família Osbourn se mudasse de Beverly Hills para a mórmon Salt Lake City.

Em Berna, por falta absoluta de tempo, passo ao largo de conhecer o novo museu Paul Klee. Estive no antigo mil anos atrás, mas ver os quadros devidamente acomodados no edifício concebido pelo Mr. Beubourg Renzo Piano, escolhido pelo próprio pintor em testamento, é mais uma dessas determinações geográficas que me faço.Mas, de volta a pequena aldeia gaulesa:-

Chata! responde o gaulês mais simpático, mas sempre um preconceituoso gaulês, no ultimo quadrinho desse que foi o primeiro episódio que li na vida, durante a inevitável festa do Javali, com um gesto de mão perfeito que só prova a genialidade do desenhista Uderzo (ou Gosciny ??) e que me vem a cabeça sempre que venho aqui.

1 comment:

Anonymous said...

Muito interessante o seu blog. E estremamente poetico. Voce e uma pessoa com um dom. Parabens