
Istambul, 25.05
Aos amigos Tânia e Cláudio
... Em certos lugares, a geografia faz a historia.
Joseph Brodski – Fuga de Bizâncio
Borges dizia que Buenos Aires é a capital de um império que nunca existiu. O que dizer de Istambul, que foi capital de três por quase dois mil anos ?.
Aos amigos Tânia e Cláudio
... Em certos lugares, a geografia faz a historia.
Joseph Brodski – Fuga de Bizâncio
Borges dizia que Buenos Aires é a capital de um império que nunca existiu. O que dizer de Istambul, que foi capital de três por quase dois mil anos ?.
A sensação é aquela de outros sítios, como Peru e México, que ainda choram o leite derramado de seus respectivos Inca e Asteca, elevada ao cubo por conta do senso de fatalidade próprio dos muçulmanos.
E claro, um forte sentimento de inferioridade em relação às metrópoles européias que a cidade tenta macaquear desde que o onipresente Ataturk fundou, com o que restou do Império Otomano, a pequena e ocidentalizada Republica da Turquia.
E o fez no dia do seu aniversario, provando vez mais que o que move a historia é mesmo a vaidade dos homens.
E o fez no dia do seu aniversario, provando vez mais que o que move a historia é mesmo a vaidade dos homens.
Kemal Mustafá, a.k.a. Ataturk, literalmente o pai da pátria, cujos retratos e cartazes brotam das paredes, é uma mistura de Abraham Lincoln, George Washington, De Gaulle e o Zequinha das balas (aparece nas fotos nadando, beijando crianças, passando as tropas em revista, tirando leite de cabras, em roupas de caça, ufa..,) com uma colherada de Stálin, pelo trato que dispensou as minorias que não aderiram a seu projeto ocidentalizante.
Fechou haréns e conventos dervixes, proibiu o uso de roupas típicas e línguas exóticas e obrigou as pessoas a usarem sobrenomes.
Dá nome a praticamente tudo por aqui, e me faz lembrar a Aracaju da minha infância, onde tudo se chamava Lourival Batista.Todo o culto a personalidade, mesmo póstumo (o retratado perdeu a voz ativa em 1928) é condenável, mas nesse caso reconheço uma atitude valida do governo que, ao promover sua imagem à exaustão, exalta o caráter secular do atual regime as vésperas de uma eleição ainda incerta que pode, em tese, levar a Turquia pelo caminho do Irã.
Fechou haréns e conventos dervixes, proibiu o uso de roupas típicas e línguas exóticas e obrigou as pessoas a usarem sobrenomes.
Dá nome a praticamente tudo por aqui, e me faz lembrar a Aracaju da minha infância, onde tudo se chamava Lourival Batista.Todo o culto a personalidade, mesmo póstumo (o retratado perdeu a voz ativa em 1928) é condenável, mas nesse caso reconheço uma atitude valida do governo que, ao promover sua imagem à exaustão, exalta o caráter secular do atual regime as vésperas de uma eleição ainda incerta que pode, em tese, levar a Turquia pelo caminho do Irã.
O dilema dos países muçulmanos que ainda se mantém razoavelmente democráticos (existe outro alem da Turquia?), é que eleições livres e limpas trarão cedo ou tarde radicais islâmicos ao poder, como efeito da bomba relógio demográfica.O pêndulo nesses lugares sempre vai das ditaduras militares ao Islã mais cruel.
Bush tentou, atabalhoadamente, quebrar esse paradigma e criar uma terceira via, não importa tanto assim com que motivações, e mesmo Israel, o único enclave democrático do Oriente Médio, também corre riscos já que os judeus ortodoxos de Jerusalém e dos assentamentos se reproduzem por mitose, enquanto os habitantes americanizados de Haifa e Tel-Aviv planejam suas famílias.Parece que o futuro da região (e da religião) é mesmo tão negro quanto as burcas islâmicas ou as roupas dos judeus barbudos que lamentam junto ao muro.
Bush tentou, atabalhoadamente, quebrar esse paradigma e criar uma terceira via, não importa tanto assim com que motivações, e mesmo Israel, o único enclave democrático do Oriente Médio, também corre riscos já que os judeus ortodoxos de Jerusalém e dos assentamentos se reproduzem por mitose, enquanto os habitantes americanizados de Haifa e Tel-Aviv planejam suas famílias.Parece que o futuro da região (e da religião) é mesmo tão negro quanto as burcas islâmicas ou as roupas dos judeus barbudos que lamentam junto ao muro.
A primeira coisa que impressiona quando se sai do Aeroporto (Ataturk, naturalmente) é a quantidade de navios de todos os tipos e tamanhos esperando na fila para atravessar o Bósforo.
Parece que aqui ninguém se assusta em virar uma esquina e dar de cara com um Post Panamax. Soube depois que vários habitantes das margens do estreito já acordaram com um petroleiro russo ou um caça minas do Arzebaijão na sala de estar.
Parece que aqui ninguém se assusta em virar uma esquina e dar de cara com um Post Panamax. Soube depois que vários habitantes das margens do estreito já acordaram com um petroleiro russo ou um caça minas do Arzebaijão na sala de estar.
A segunda é a silhueta branca-preto-azulada da cidade, grandiosa e melancólica, capital de império nenhum se equilibrando por sobre a ruína de três.
Quem quiser saber do que falo, pare de ler agora e corra comprar o Istambul do Nobel Orhan Pamuk, que define essa atmosfera que envolve a cidade melhor do que eu jamais poderia.Arrisco–me no máximo a uma tradução pessoal e idiossincrática para Hurzun, o termo turco que ele usa para definir essa névoa triste:
Quem quiser saber do que falo, pare de ler agora e corra comprar o Istambul do Nobel Orhan Pamuk, que define essa atmosfera que envolve a cidade melhor do que eu jamais poderia.Arrisco–me no máximo a uma tradução pessoal e idiossincrática para Hurzun, o termo turco que ele usa para definir essa névoa triste:
- Istamblues.Coincidência, ou sincronicidade como quer Paula, Pamuk é a palavra turca para algodão, cuja colheita ajudou a criar o lamento que por sua vez remete a ladainha.
Passar pelas revistas e detectores de metais nos aeroportos, o que Hitchens chama de prestar tributo a Bin Ladem, aqui começa na porta da rua.
Não importa se você vai buscar um passageiro ou tomar um café no saguão, tem de se passar pelo mesmo calvário de quem vai voar. E se como nós, você se hospedar num hotel americano, terá o porta malas do seu táxi aberto e antes de entrar no lobby, prestar novamente tributo.Como poderia ser diferente num país que faz fronteira a oeste com o berço da civilização ocidental, Grécia, e a leste com seu túmulo, a dupla Irã /Iraque.
Passar pelas revistas e detectores de metais nos aeroportos, o que Hitchens chama de prestar tributo a Bin Ladem, aqui começa na porta da rua.
Não importa se você vai buscar um passageiro ou tomar um café no saguão, tem de se passar pelo mesmo calvário de quem vai voar. E se como nós, você se hospedar num hotel americano, terá o porta malas do seu táxi aberto e antes de entrar no lobby, prestar novamente tributo.Como poderia ser diferente num país que faz fronteira a oeste com o berço da civilização ocidental, Grécia, e a leste com seu túmulo, a dupla Irã /Iraque.
E como não ser um e ser muitos numa cidade que se pretende européia, mas onde um dos bairros mais populosos fica na Ásia?
O que prevalece nessa montagem social, o coletivo oriental/muçulmano ou o individualismo western?
Como viver completamente imparcial na capital dos dois impérios que fundamentaram civilizações antagônicas do presente?
Noventa e tantos por cento da população é islâmica e boa parte nostálgica do período otomano, mas se vêem retratos de Ataturk, o Reformador, pendurados por iniciativa das pessoas comuns.
Muita gente que atende o chamamento para as quatro ou cinco rezas diárias, que nos dias anteriores ao relógio funcionavam como uma espécie de apito de fabrica para as atividades cotidianas luta para manter a divisão entre estado e religião e participa ativamente das manifestações pro inclusão da Turquia na UE.
Só não sabem como construir um país que se encaixe na democrática e liberal Europa (a Rússia é a exceção), pois mesmo o viés laico dessa sociedade é autoritário e preconceituoso.
Dias atrás o site You Tube foi tirado do ar por que alguém postou um vídeo onde se insinua certa homossexualidade latente no próprio Kemal e nos turcos em geral.
Só não sabem como construir um país que se encaixe na democrática e liberal Europa (a Rússia é a exceção), pois mesmo o viés laico dessa sociedade é autoritário e preconceituoso.
Dias atrás o site You Tube foi tirado do ar por que alguém postou um vídeo onde se insinua certa homossexualidade latente no próprio Kemal e nos turcos em geral.
Meu guia na Hagia Sofia comenta o caráter soft-iconoclasta da religião muçulmana nos primórdios, mostrando que nas mesquitas, antes catedrais, os belos mosaicos bizantinos não foram arrancados mas pintados por cima. Alguns foram recuperados, mas com os olhos invariavelmente riscados, outros destruídos, não pelos seguidores do profeta, mas pelos próprios cruzados quando invadiram a cidade em mil e qualquer coisa.
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Insiste naquela historia de que só Alah cria e que é blasfémia representar graficamente os profetas, mesmo que de forma elogiosa.
È verdade que o Islã já foi bem mais tolerante, e que a história deles andou para trás, culminando na destruição talibã dos budas gigantes. Cem anos depois da queda de Constantinopla, os espanhóis não deixaram pedra virada em Tetchuaclan ou Cuzco, mas aqui sob o julgo de Mehmet II , o Conquistador e também na Jerusalém tomada aos cruzados por Saladino, se soube manter certa liberdade de culto e espaço para outras crenças.
Curioso como as civilizações trocaram de papeis a partir da Renascença.
Apesar dos Cortezes e Torquemadas de ontem e dos Ratzingers de hoje, o sucesso do ocidente é fruto da indulgência cristã, mesmo em países da periferia, como o BR.
Conto ao guia, que não acha graça alguma, como nos plúmbeos anos 70, o Jaguar fez um cartum clássico que mostrava um dialogo entre Cristo e Maria Madalena, onde Ele da cruz diz :
- Agora não Maria, eu estou pregado. E que ninguém foi crucificado por isso.
Muito antes da própria fundação de Constantinoplabizâncioistambul , a região era alvo de cobiça de todo o mundo conhecido.
Os Dardanelos ou Helisponto, que meu antepassado atravessou a nado, e por onde os gregos cruzavam para atacar os persas e vice -versa, fica a poucos quilómetros daqui.
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Insiste naquela historia de que só Alah cria e que é blasfémia representar graficamente os profetas, mesmo que de forma elogiosa.
È verdade que o Islã já foi bem mais tolerante, e que a história deles andou para trás, culminando na destruição talibã dos budas gigantes. Cem anos depois da queda de Constantinopla, os espanhóis não deixaram pedra virada em Tetchuaclan ou Cuzco, mas aqui sob o julgo de Mehmet II , o Conquistador e também na Jerusalém tomada aos cruzados por Saladino, se soube manter certa liberdade de culto e espaço para outras crenças.
Curioso como as civilizações trocaram de papeis a partir da Renascença.
Apesar dos Cortezes e Torquemadas de ontem e dos Ratzingers de hoje, o sucesso do ocidente é fruto da indulgência cristã, mesmo em países da periferia, como o BR.
Conto ao guia, que não acha graça alguma, como nos plúmbeos anos 70, o Jaguar fez um cartum clássico que mostrava um dialogo entre Cristo e Maria Madalena, onde Ele da cruz diz :
- Agora não Maria, eu estou pregado. E que ninguém foi crucificado por isso.
Muito antes da própria fundação de Constantinoplabizâncioistambul , a região era alvo de cobiça de todo o mundo conhecido.
Os Dardanelos ou Helisponto, que meu antepassado atravessou a nado, e por onde os gregos cruzavam para atacar os persas e vice -versa, fica a poucos quilómetros daqui.
A grande ironia é aqui - e não Jerusalém ou Roma - é o verdadeiro o divisor de águas do cristianismo, de seita secreta de poucos entre muitas, á religião oficial do Império Romano, pelas mãos de Constantino I, o fundador da nova capital.
Diz a lenda, após ter tido um sonho no qual via uma cruz flamejante no céu, na noite anterior a uma batalha da qual sairia vencedor.È mais provável que só tenha homologado uma tendência.
Os cristãos de ontem já haviam conquistado corações e mentes, agindo nas deficiências do estado romano, servindo como uma espécie de previdência social e saúde publica, mais ou menos como os traficantes cariocas e os evangélicos fazem hoje.
Diz a lenda, após ter tido um sonho no qual via uma cruz flamejante no céu, na noite anterior a uma batalha da qual sairia vencedor.È mais provável que só tenha homologado uma tendência.
Os cristãos de ontem já haviam conquistado corações e mentes, agindo nas deficiências do estado romano, servindo como uma espécie de previdência social e saúde publica, mais ou menos como os traficantes cariocas e os evangélicos fazem hoje.
Mil anos mais tarde, no período Bizantino, outro Constantino, o décimo quarto, perdeu a cidade para os turcos muçulmanos, que a época detinham a tecnologia das armas.
E quem a domina, controla também o acesso ao Bosforo, única saída do Mar Negro, na verdade um lagoão, em cujas margens estão a Roménia, Bulgária e Ucrânia, assim como o sul da Rússia, transbordando gás e petróleo, que só chegam ao Mediterrâneo cruzando Istambul.
O Império Otomano acabou de vez quando da derrota da sua aliada histórica, Alemanha, na Guerra Quente I.
Tanto melhor, pois em outro contexto, poderia ter dado a Hitler todo o petróleo do mundo.
Nos seus dias de gloria dominava parte da Europa do leste, África e Oriente Médio, o que explica por que os imigrantes Árabes que vieram para a AL eram chamados erroneamente turcos.
Tanto melhor, pois em outro contexto, poderia ter dado a Hitler todo o petróleo do mundo.
Nos seus dias de gloria dominava parte da Europa do leste, África e Oriente Médio, o que explica por que os imigrantes Árabes que vieram para a AL eram chamados erroneamente turcos.
Depois da Guerra Quente II, já na Fria, o Império Soviético teria dado os bigodes de Stalin para ter o Bósforo. Só uma providencial base da OTAN (leia-se USA) os fez desanimar.
Os romanos possuíam numa das praças próximas à belíssima cisterna subterrânea, um marco zero de pedra que ainda esta lá, espécie de umbigo do mundo, a partir do qual mediam as distancias do império.
Não era à toa
Os romanos possuíam numa das praças próximas à belíssima cisterna subterrânea, um marco zero de pedra que ainda esta lá, espécie de umbigo do mundo, a partir do qual mediam as distancias do império.
Não era à toa