Tuesday, August 14, 2007

o primo brasil

Ao Dr. Guilherme, conselheiro juridico.
e de literatura portuguesa.


Muito práticos esses cinemas de Shoppings para pais solteiros com pelo menos um filho grande. Deixei os meninos no A Volta do Todo Poderoso - vi o primeiro, mas Morgan Freeman me livre do segundo - e fui encarar o Primo Basílio, sessão concomitante em sala geminada.

Alguém disse com muita razão que o cinema brasileiro deveria seguir pra valer a formula vencedora da televisão, em especial a da Globo, talvez a única contribuição empresarial do Rio para mundo. E ai, nesse formato, poucos são hábeis como o Daniel Filho.


Também já foi mencionado o inusitado e feliz encontro do Eça com Nelson Rodrigues promovido pelo diretor, que transporta a historia de Portugal das Alfacinhas pro Brasil do JK que, como o marido da historia, deixou o país de lado, nas mãos das Multi (o amante) e foi construir Brasília.

Pode ser exagero meu, mas vi no filme uma bela metáfora do país à época, que não conheci pessoalmente, mas sofri as conseqüências.

Cinespectadores mais jovens devem ter se escandalizado com o tratamento que Lucia, a bela Débora Falabela, uma falsa magra dos sonhos, dispensa a criada Juliana, Gloria Pires, tão eficiente quanto Marilia P. da versão tela pequena. Um acerto de Casting, assim como colocar os bonitões da hora em papeis invertidos aos que vivem nas novelas do momento.

Lembrem que no BR do final dos anos 50, a escravatura estava quase tão próxima quanto estamos do golpe militar que ainda nos assombra, e as empregadas domesticas e outros servos eram realmente tratados como não pessoas, utensílios e não seres humanos com toda a complexidade e contradições inerentes. Algo que não vê, não ouve, não fala e pode ser trocado como o sofá da sala, sem maiores conseqüências. Lembro que em minha casa, e isso já inicio dos 70, ninguém as tratava a pontapés, mas o quarto em que viviam era tão pequeno e insalubre quanto o do filme.

Poucos anos após o momento retratado no filme, parte da massa se comportava como uma Juliana, ameaçando a patroa não com cartas de amor clandestinas, mas com ideologias sinistras, enquanto outra parte agia como a cozinheira negra, saindo em defesa do andar de cima.

Quando Juliana parece que vai ganhar a parada, alguém chama a policia. Felizmente, pois mais horrível do que viver num lugar onde as Lucias insensíveis e aristocráticas reinam, é ter de se submeter às Julianas, seus rancores e seu despreparo.

Li um livrinho ótimo recentemente sobre a infância de um cubano que hoje vive na Austrália. Seus pais eram donos de um armarinho em Banes, cuja direção a revolução entregou a funcionaria mais incompetente, pero comunista fervorosa , que tudo fez para humilhar a ex patroa, muito alem do tratamento que antes recebia.

Apesar do que se diz com toda razão sobre a péssima distribuição renda atual no BR, fruto também dos erros daquela e outras épocas, é certo que ao menos o tratamento entre as classes mudou para melhor, o que é um primeiro passo para uma sociedade mais arrumada. Repare como nossos filhos, tirando as grifes, se vestem igualzinho aos nossos office boys. Ninguém mais se fantasia de pobre ou de rico e só gente em extinção trata mal os subordinados.

Outro aspecto positivo do filme é expor a covardia e canalhice masculina, e a eterna falta de autoestima que faz das mulheres, o animal mais magnífico da criação, alvo fácil para esses improváveis caçadores.

O final é previsível e moralista, mas desconfio que Nelson, (Eça não sei) no fundo, também o fosse
.

noticias da semana

Bestial. Leio na VEJA que a Igreja Americana pagou 660 milhões de dólares em indenizações ás vitimas de padres pedófilos. Deveriam ter arredondado a soma para 666.

Outra noticia da conta que um gato num hospital qualquer, prevê quando um paciente esta à morte. Deita ao lado do leito e horas depois, adeus estrada dos tijolinhos amarelos. Tenho dormido com meu golden retiver debaixo da cama, just in case.

Alias, morreu Bergman. Finalmente a velha senhora apareceu para a revanche daquele jogo de xadrez.


Dia seguinte vai Antonioni. Ou será que, qual Rimbaud, trocou de identidade com um traficante de armas na África ?? (Disse noutro texto que não brincava com a morte, mas aqui o faço em tom de homenagem).

Ouço agora no Jornal Nacional que um frigorífico foi autuado por passar notas frias para Renan Callheiros.


Essa dispensa a piada.