Tuesday, February 26, 2008

this is kansas toto


NYC 25 fev 2008-02-25

Localizada no centro geográfico dos Estados Unidos, Wichita Kansas é a maior cidade do estado natal de Dorothy e adotivo de Clark Kent.

A mundialmente mais famosa Kansas City apesar de maior, fica somente 25% no Kansas e o saldo no Missouri, separados por uma rua a qual uma vez atravessada, provavelmente livrava os fora-as lei dos seus captores, como ensinam os velhos filmes de cow-boy.

Nunca pensei em vir a Wichita, Kansas, ou a Wichita Falls no Texas, ou qualquer outra, ate por que desconhecia a existência de qualquer uma delas.1Vim parar aqui nesse descampado gelado e árido que mais parece uma margem de estrada de um daqueles road movies do que uma cidade, para visitar uma empresa chamada, digamos, K.

Somos recebidos como reis pelo pessoal da K, coisa rara nessas visitas que faço pelo mundo, onde a gentileza e o tempo disponível das pessoas são quase sempre limitados, e a inferioridade do visitante fica patente, mesmo que de forma discreta.

Entre eles estava certo CK, de uns 30 anos, cujo cartão dizia vice-presidente, assim como o de todos seus colegas presentes. Revela-se preparado e eloqüente, um hábil e duro negociador pero sem perder a gentileza e a cortesia jamais. Apresenta seu grupo a partir de um caderno xerocado que é distribuído a todos os presentes, numa simplicidade que contrasta com meu pretensioso power point.


Para mim ainda é um choque o fato de que quase sem perceber, deixei de ser o mais jovem ao redor dessas mesas de reunião. Não raro, embora aqui não tenha sido o caso, estou entre os mais velhos.

Na minha vez uso meu lap top na difícil missão de descrever nossa empresa, cujo faturamento é exatamente 2.000 vezes menor do que o deles

Brinco com CK dizendo que ele usa um caderno para aumentar o consumo de papel, já que eles recentemente compraram uma das maiores fabricantes de produtos florestais da América, numa aquisição de 20 bilhões de dollares, que os tornou a maior companhia privada do mundo, ultrapassando a toda poderosa Cargill .

Privada e publica nesse país tem um sentido bem diverso do nosso. Empresas púbicas aqui realmente pertencem ao publico e não o governo e a alguns burocratas e políticos como as daí. São companhias listadas na bolsa (que chamamos de capital aberto) das quais as pessoas comuns realmente podem ser donas, ainda de que de uma pequena parte, simplesmente comprando ações.

Já as privadas são as de capital fechado. Ponto.

O CEO da K disse uma vez que só abre o capital " over his dead body". Não quer perder mobilidade nem ter de dar a cada hora, satisfação a analistas janotas ou a banqueiros xeretas. Ah, as iniciais do CEO também são CK, aliais ele é pai daquele menino humilde e gentil que nos recebeu e nos tratou como iguais e inclusive nos levou pra jantar.

CK sênior é simplesmente o nono americano da lista da Forbes, e junto com seu irmão tem 80 % da empresa. Se fosse filho único, estaria em terceiro no rank dos bilionários made in USA , atrás apenas de Willian Gates II e Warrem Buffet. Cada um dos K brothers tem perto de 17 bi de George Wshintons, o que confere ao meu novo amigo CK jr (que tem somente uma irmã, jornalista, alheia aos negocios) algo como potenciais 8,5 liquidos.

O que há de especial em tudo isso?

Nada. São gente como nosotros, com a diferença que sabem disso. Tem a clara noção que se ninguém tirar o lixo das calçadas, a neve das ruas ou cuidar das vacas amanhã, de nada vale esse everest de cash que possuem. A propósito, CK conta que começou a trabalhar com 15 na fazenda da família, shoveling the cow shit.

Sabe muito bem que aquele bando de latinos subnutridos de capital trazem um expertise local de um mercado difícil como o Br, que só o dinheiro não compra, por isso aposta nas relações. Mas, acostumado que estou com executivos cheios de si e vaidosos a medula, não posso deixar de louvar o comportamento dessa gente.

Pergunto a ele durante o jantar, depois que o gelo é definitivamente removido, qual o sentido de manter uma empresa daquele porte num lugar meio inóspito, de onde para se ir a qualquer destino dos USA ou abroad tem-se de fazer escala no mega aeroporto de Atlanta, onde uma conexão equivale a uma meia maratona. Aqui, explica do seu jeito, é um celeiro da ética protestante maxweberniana que fez dos USA o que são. Trabalho, dedicação, meritocracia, honestidade e respeito pelas pessoas, sejam quem for. Coisa que não se vê mais tanto assim em Chicago ou NY onde as pessoa s saem pontualmente as 5 para beber no bar ou correr no parque..

CK não vai a uma reunião do setor em Viena em Maio por que tem a formatura da namorada, em enfermagem.

No caminho para NY, que uma nevasca nem tão inesperada assim transforma um vôo direto em uma odisséia intermodal, envolvendo dois aviões e um trem partindo de Washington DC, algo inusitado me acontece.

Detesto aglomeração no corredor de aviões, portanto fico sempre no final da fila de embarque. Eis que um monge budista que poderia ser gêmeo do Dalai Lama e que também havia ficado para trás intencionalmente, se aproxima e puxa conversa.

È tailandês e vive num mosteiro na Bolívia (!) e quer saber qual é meu assento no vôo, pois deseja trocar de lugar comigo caso o dele seja ao lado de uma mulher e o meu não. Seus votos não permitem qualquer contato com universo feminino, nem mesmo o tênue proporcionado por uma poltrona de avião.

Batata, eu que originalmente estaria sentado ao lado de um rapaz negro tipo rapper, enquanto ele penaria uma hora entre dois demônios de saia faço a troca, mesmo tendo de abrir mão de um corredor por um assento do meio, sempre menos confortável.

Talvez por obra de minha boa ação, o vôo chega a Washington sem que ninguém tente nos jogar contra o Pentágono ou o Capitolio, ou mais heroicamente , uma palnaçao de batatas..

Na saída lá esta ele me esperando com um quase sorriso e uma medalhinha do Buda nas mãos, que guardarei para sempre como um pequeno tesouro.

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