Wednesday, May 07, 2008

der engle


O cinema brasileiro que tire o cavalo da chuva. Todos os prêmios existentes e a serem inventados para filmes estrangeiros esse ano, meu palpite, vão para o estupendo A Vida dos Outros.

O amigo Ricardo que me havia recomendado o filme, lembrou bem onde estávamos naqueles nem tão longínquos anos 80 em que a historia se passa, quando descobríamos uma banda nova por semana e ouvíamos muito Echo and the Bunnyman.

Inacreditável, enquanto repetíamos o refrão de Lips Like Sugar em coro com o Maculoch e o pessoal do PCdoB local se reunia para ouvir a radio Tirana , aquelas coisas aconteciam não só na longínqua e rural Albânia, mas também na culta e sofisticada Alemanha, ainda dividida por um inexplicável muro de verdade.

Escrevi nos primórdio desse blog um texto sobre Berlin que deve estar soterrado por vários outros, onde comentava que a Stasi era a policia política mais eficiente do finado bloco socialista, e que a competência dedicação extremada dos alemães os faziam mais comunistas do que os próprios russos.

Independente do contexto histórico ou ideológico, o filme é um reminder de como praticas como tortura, invasão de privacidade e censura não se justificam de maneira alguma, pois cedo ou tarde deixam de ser métodos (duvidosos) de combate à subversão e terrorismo e acabam sempre usadas para fins mesquinhos e pessoais, como vingança, inveja e sadismo.

Quando caíram as ditaduras mais próximas como a nossa e a Argentina também lá pelos 80, houve muita polemica em torno de premissas como se para impedir uma ação terrorista ou algo do gênero, se justificariam torturas ou escutas. Digo que não, pois o dano causado às instituições e a própria civilização é muito maior do que os resultantes de qualquer atentado.


Os EUA, acusados pela esquerda mundial de exportador dessas praticas, ao menos tem o cuidado de não cometê-las em seu território.

Havia também o argumento utilizado pelas defesas dos torturadores e outras bestas do período, que invocavam o conceito da obediência devida, anteriormente empregado pelo notório bancos dos réus de Nuremberg. O agente da Stasi do filme opta por fazer a coisa certa e, tal qual um anjo da guarda torto, salva o herói, ignorando as ordens recebidas. Flagrado pelo chefe, que embora não possa provar a “traição”, o condena a passar o resto da carreira abrindo correspondências alheias, provavelmente o posto mais baixo na inteligência da RDA.


Nesse momento, como dizendo que a historia é maior do que a vontade dos homens, a câmara abre mostrando um jornal com a manchete da ascensão de Gorbachov ao poder na URSS.

Alguém poderia dizer que aquele sujeito em uma ditadura latino-americana teria sido desmembrado e jogado aos cães, e que as torturas na RDA eram jogos de criança e comparados as perpetradas pela Dina, Dói Codi e as FFAAS argentinas, membros do Clubinho do Condor.

Discordo. Não existem suplícios nem ditaduras preferíveis, mas a tortura cientifico-psicologica praticadas em nome de um humanismo disforme por esses regimes pseudo-utópicos que tratavam a sociedade como crianças no maternal ou pior, insetos num microscópio, esta entre as piores coisas na vasta lata de lixo do séc XX

Em certo momento do filme um oficial graduado abre um manual que classifica os artistas de acordo com suas personalidades, e descreve o que esta sendo monitorado como do tipo quatro, i.e. comunicativo, alguém que precisa estar cercado de pessoas, falando o tempo todo. “Dez meses incomunicáveis e eles nunca mais volta a escrever, pintar ou fazer essas coisas que os artistas fazem“. Pior do que destroçar o individuo a choques e porrada é destruí-lo por dentro.

O final da Vida dos Outros é redentor á raça humana, para dizer o mínimo.

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