A Claudia, pela mão amiga
A Bolívia existe? Parece que sim.
Alguns lugares só existem quando pegam fogo, portanto de tempos em tempos nos recordamos desse canto miserável do continente que, como na bela imagem de MVL que descreve o vizinho Peru como um índio chorando de fome sentado em um banco de ouro, esta literalmente por sobre uma das maiores reservas de gás natural do mundo.
O líder indígena-cocaleiro e ora presidente Evo Morales que passou de incendiário a bombeiro, sente agora na pele a mesma crueldade e a manipulação que costumava lançar mão quando na oposição, e que infernizou a vida do presidente anterior, Gonzalo Sanches de Losada, o Goni.
O anjo pré-colombiano que nesse momento sucinta indignação e apoio dos desmemoriados de sempre, foi o grande responsável pela queda de Goni (embora alguns erros do próprio possam ter contribuído), como mostra o fenomenal Our Brand Is Crisis da americana Rachel Boynton, que coincidentemente assisti dias atrás, antes do inicio da crise.
Rachel, jovem e bela, explica na entrevista-bonus a João Moreira Sales que inicialmente queria somente filmar a rotina da americana GCS, que presta assessoria a candidaturas mundo afora. Imaginara montar um documentário mostrando três casos distintos em três países de diferentes continentes onde a empresa atuava.
Quis o destino que ela acabasse por se limitar a campanha de Goni a presidência da Bolívia em 2002, bem como o que veio depois.
Empresário de sucesso, filho de exilados e criado nos USA e falando um espanhol com acento tex-mex, Goni já tinha sido presidente nos 90, quando, à moda Menen/Collor/Salinas, privatizou tudo que podia num processo chamado localmente de Capitalização
Desgastado pelos desacertos da sua primeira gestão, começou a campanha atrás de Evo e do favorito, Manfred Reyes Vila, prefeito de Cochabamba, um bigodudo com jeitão de dono de borracharia em Tijuana. Egresso do glorioso Exército Boliviano, cuja única façanha foi matar um Che Guevara amarrado e doente, Manfred era uma farsa total. Com um bigode e um topete desproporcionais e um discurso populista difuso, conseguia ser pior do que Evo, que ao menos era de verdade.
Os americanos não tiveram dificuldade em tirá-lo da frente, bastou uma foto aérea da sua casa de campo, algo assim nem tão grande quanto Versalhes, mas quase tão extravagante.
Evo por sua vez manteve uma posição estacionaria ao longo do pleito, limitado ao voto de seu sindicato e da população andina, de forma que o azarão Goni, indiscutivelmente melhor candidato, acabou assumindo como o bilionésimo presidente do país, não sem antes prometer mundos e fundos que obviamente não teria como cumprir.
Quando anunciou um ousado plano de exportar gás para a Califórnia via um porto do Chile, foi bombardeado pela oposição que usou de um recurso espúrio, o ódio ancestral dos bolivianos pelo país fronteiriço que lhe tomou o mar na Guerra do Pacifico e nunca devolveu.
O já citado Vargas Llosa que passou a infância em Cochabamba lembra num verbete em seu Dicionário Amoroso da AL que antes das aulas, era obrigado a cantar hinos que falavam da nostalgia do mar perdido e do odio contra o Chile.
Evo levou os cocaleiros a La Paz e, como os sindicatos patronais fazem com ele no momento, perturbaram a já combalida economia local até levar o presidente Louzada a renuncia e auto-exílio em DC.
Também fico indignado quando leio declarações proto-r(f)acistas, como a do líder comunitário que afirmou algo assim como – vamos arrancar esse índio infeliz do poder, mas não chego a achar que Evo seja a reencarnação de Ataualpa ou Montezuma e que este processo seja só uma vingança das elites.
Me recuso a aceitar o mito do bom selvagem, e acho uma bobagem do Neil Young – do alto da sua grandeza - que na belíssima ‘Cortez The Killer’ pinta o mundo Asteca como um paraíso perdido e Hernam como um degenerado genocida.
Cortez era um produto da sua época e da lógica católica e imperial do século em que viveu, e tentar entende-lo e a Pizarro pela ética de hoje é primário e oportunista.
Ambos são culpados de desencadear um processo de destruição de civilizações incríveis, mas afinal essa é a lógica da historia, culturas sobrepujando, sobrepondo e assimilando outras.
Cruéis sim, mas também eram crueis os Incas que escravizavam as populações vizinhas, que acabaram por se unir aos espanhóis, e os Mayas e Astecas com seus sacrifícios e pratica sádicas, vide o excelente e mal recebido Apocaliptyo do Mel Gibson.
Alguns países parecem ter uma vocação para a pobreza e o atraso que dificilmente será mudada. A Argentina sempre rasgando bilhetes premiados, e a própria Rússia, riquíssima, parece um cãozinho sempre a procura de um dono. A Bolívia então é um caso perdido.
O documentário mostra toda a manipulação de Evo que exigia o fim do contrato com os USA, e ninguém foi capaz de se perguntar, o que fazer com zilhões de litros de gás num país desindustrializado?
Haja tortilhas para fritar.
Na cartilha tatibitate da AL Evo evoca a revolta, a revolta remove Evo.
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