Friday, October 10, 2008

dinheiro não traz facilidade (a chain of fools)


O capitalismo traz em si a semente da sua própria destruição. (Karl Marx)

O capitalismo traz em si a semente do próprio remédio para suas crises. (Reinaldo Azevedo)



Redescobri ao limpar gavetas, um velho texto do João Sayad chamado Felicidade não traz Dinheiro em que ele imagina que se um mágico anunciasse a platéia que iria transformar papel pintado em quase tudo que existe, seria vaiado e apedrejado com tomates.

Acontece que algum alquimista inventou esses papeis há muito tempo atrás e todo mundo acredita que uma mala cheia deles possa valer mais do que, por exemplo, uma maçã.

As crises econômicas que ocorrem de tempos em tempos e das quais somos sujeitos passivos e passiveis, vêm principalmente para lembrar aos crédulos que o dinheiro é uma ficção, nada alem de um culto. E cultos,voces sabem, só funcionam enquanto as pessoas crêem.


Mas como a um Deus ao qual nos apegamos quando aflitos e desesperados, dessa vez todos preferimos ter o tal papel embaixo da cama do que, entre outras coisas, ações, que ao menos representam pequenas partículas de empresas que possuem (nem todas é claro) fatias de mercado, ativos tangíveis e não raro, dinheiro em caixa. Isso explica por que algumas empresas estão cotadas tão abaixo dos seus méritos e potencialidades e garante que na medida do tempo tudo votará a ser igual que dantes, ainda que de forma diferente.

Quando as torres caíram em 2002, todos viramos Nostradamus. Previsões de todas as espécies foram feitas, todas catastróficas.


Embora NYC possa nunca mais vir a ser a mesma, tudo por la voltou ao normal, a não ser por um detalhe no skyline e pelo fato do Empire State ser novamente o king of the hill. As pessoas vivem, amam e criam filhos e quase ninguém mais olha para cima quando passa um avião. Até os filmes que destroem a cidade, que imaginávamos seriam banidos e boicotados, estão ai de volta com tudo.

Escrevi tempos atrás que foi um choque pessoal descobrir que não era mais o kid das reuniões de negócios de que participo. Fui substituído por uma geração mais gananciosa e melhor preparada, a qual cederei a tentação de culpar, ao menos totalmente, pela confusão atual. Dias atrás um deles me dizia não haver chance do dólar apreciar perante o real, pois os fundamentos econômicos e blah, blah, blah . Pela primeira vez na vida tive o prazer em agir como sênior e, emulando um profeta do velho testamento, dizer:

- Meu filho, já vivi essa historia pelo menos quatro vezes, sei como acaba.

Crises são cíclicas e ao contrario do que imaginam os últimos marxistas, não enfraquecem o organismo capitalista. Ao contrário, como uma doença infantil, ajudam a fortalecê-lo.


Aonde iríamos parar afinal a mercê dessa vertente de crescimento que o mundo vinha experimentando a quase duas decadas, disparando o preço das commodities e a arrogância dos russos e outros petrolizados indefinidamente? Quanto tempo até alguém invadir a Polônia?

De certa forma o fim da inflação no mundo nos 80 foi um remédio necessário, mas não sem contra indicações. Ao ter o dinheiro, mercadoria perecível que era, diariamente desvalorizado, comprávamos imóveis, investíamos em estoques, antecipávamos a folha de pagamento gerando mais renda e riqueza.


Até ontem qualquer estúpido aplicava seus recursos sem risco de vê-los carcomidos, sem precisar empreender ou ousar, o que trouxe os juros para baixo – embora não no BR – e criou um capital especulativo sem precedentes.

Com muita sabedoria os americanos dizem “easy come easy go” o tempo todo. Quando o dinheiro é abundante, perde valor como tudo mais, e pior, faz com que as pessoas percam a cautela.


Queima no bolso da gente, e ai compramos Garfield por Pernalonga, emprestamos lastrados nas garantias mais estapafúrdias passando papeis ainda mais fictícios para frente.

Uma Festa de Babete com dança das cadeiras. Uma verdadeira chain of fools.

E ai, em algum momento, como diz o Prof. Corrêa, o garçom traz a conta.