
Blade Runner perde.
Chego a Shangai muito cedo e tenho a sorte de olhar pela janela justamente quando o avião sobrevoa o centro financeiro.
La estao a Pearl Tower, a Torre Jing Mao e aquele edifício que lembra um gigantesco abridor de garrafas, e esta entre os mais altos do mundo. O sol nascente atravessando a poluição cria uma atmosfera ainda mais acachapante ao aspecto de Manhattan futurista da cidade. Mais próximo do aeroporto, milhares de prédios baixos tipo projeto Cingapura construídos entre plantações de arroz, o que talvez explique por que a cidade foi fundada aqui nessa região alagada.
Todos a bordo estavam prevenidos quanto aos procedimentos que a China adotaria para conter a febre suína, mas nada podia nos preparar para os astronautas típicos de filme de epidemia que, pistolas a mão, sem dizer uma palavra começam a medir a laser a temperatura de cada passageiro, logo após o pouso. O pobre senhor do meu lado, provavelmente mais quente do que o mínimo permitido, leva sem qualquer formalidade um termômetro boca adentro. Naquele momento já imaginava que se houvesse no avião um torcedor do Palmeiras que fosse, iríamos parar dentro de uma bolha de contenção em alguma instalação militar na Manchúria. Scary.
Livre da quarentena e seguindo a orientação de um amigo, esqueço os taxis e tomo o Mega Leve, o trem voador que é um delicia, de zero a trezentos em segundos e em oito minutos aterriso no centro. Eis uma grande e talvez nem tão cara assim solução para aeroportos urbanos.
Noto que apesar de toda a tecnologia que faz o trem levitar por magnetismo invertido, o acesso é feito por um funcionário encarregado de mover uma cordinha de veludo daquelas de cinema antigo. Empregar 1,3 bilhões de pessoas requer contradições. Descubro com o tempo mais alguns truques utilizados pelo governo, como a lei que obriga aos hotéis manter uma pessoa em cada andar para receber os hospedes, ou o fato de os tickets das atrações serem invariavelmente conferidos por duas pessoas.
O Hyatt em que me hospedo ocupa os andares entre 54 e o 80 da Mao Jing, com vista para a kitsch Pearl Tower, o rio e o Bund, a parte antigo-ocidental de Shangai, celebrizada no Império do Sol do Spielberg, transformada hoje em um mero espectador do exagerado embora impressionante novo skyline da cidade.
A China, sabemos, é a bola da vez enquanto sociedade que se urbaniza e industrializa em um ritmo alucinante. Equivale a América do Norte do começo do século 20 ou o Japão nos anos 60/70 que cada um ao seu modo, tiraram milhões da miséria e mostraram poder ao mundo com construções mirabolantes e outras provas de grandeza.
Ocorre que aqui as proporções são chinesas. Na verdade trata-se de um ajuste de contas com a historia, de um povo que já navegava em barcos de 100 metros enquanto Colombo se equilibrava numa casquinha de noz e que construiu a Cidade Proibida e a Muralha enquanto almoçávamos uns aos outros.
Apesar dos 5000 anos de historia, os quase 60 de comunismo infantilizaram a sociedade, levada a crer que Mao era o bem, o único capaz de protegê-los do canalha Shang Kai Check encastelado em Taiwan, sempre pronto para vingar-se, alem de outros booguie man como os imperialistas ingleses e americanos.
Portanto tudo aqui é muito recente, foi-se da bicicleta para os Audis em menos de 10 anos, criando uma geração de péssimos motoristas, de vendedores que, pouco acostumados ao capitalismo que só conheceram adultos, sao insistentes e que falam demais. Os taxistas se recusam a entender nada que não seja escrito em chinês, mesmo quando são termos supra-linguistcos como Hilton ou Sheraton. Em fim, um povo que no geral tende a ser muito subserviente, e no particular um tanto rude.
Uma sociedade um tanto mirim para nosso gosto, a não ser no que diz respeito ao governo, monolítico claro, mas coeso e eficiente. Não se chega a ministro sem se ter sido por exemplo, um bom prefeito de Shangai, o que denota uma meritocracia que já era marca no império, o que não quer dizer que o partido não mantenha as orientações comunistas onde e quando lhe convém.
Dentro da velha pratica vermelha dos meios para os fins, funciona como uma eficientíssima ferramenta capitalista sem as amarras da lei ou os limites da democracia. Cem mil famílias são desalojadas por ano para dar lugar às obras de infra estrutura sem que vereadores, deputados ou juízes se coloquem contra. A própria internet wireless nos hotéis é precária, o que se explica não pela falta de tecnologia, mas de liberdade de expressão.
Já na sociedade civil tudo remete a mais rude individualismo. Uma pessoa por carro nos congestionamentos e, algo que só vi na Rússia, fingers e ônibus que dão acesso aos aviões, separados por classes. Gente pedindo esmola com criança no colo, subemprego e o mau gosto luxo/lixo próprio do dinheiro novo.
Não soube avaliar se alguma “conquista” do socialismo foi mantida, mas depois de andar por Moscou e Shangai me parece claro que quando a sociedade de classes retorna, vem ainda mais forte imperfeita do que antes.
Não estive na fabricas da periferia, mas um amigo brasileiro que trabalha com elas relata o péssimo tratamento para com os funcionários que vivem em alojamentos apinhados. Segundo ele, só se conformou quando percebeu que para aquela gente essa vida é um upgrade se comparado a dos pais que passaram fome antes e especialmente durante a primeira fase do comunismo, quando o velho Zedong dava tratos a bola.
Seus funcionários chineses, como qualquer um aqui que lide com estrangeiros, elege um nome inglês, que após um certo tempo pode ser mudado sem pré aviso. Portanto o Joe de ontem, hoje se chama Dave por que foi ver um filme americano e gostou do nome. Mais da metade do salário vai invariavelmente para a familia no interior.
Uma multinacional fez uma pesquisa dos hábitos locais e entro outras perguntas fez a seguinte indagação:
-Você esta num barco no Yang Tse que começa afundar por excesso de gente. Seu filho, sua mulher e sua mãe estão la e você só tem tempo de salvar uma pessoa. Quem seria ?
Quase que cem por cento responderam que salvariam a mãe. Explicação: você pode ter outro filho, outra mulher, mas jamais terá outra mãe.
That´s China-
TO BE CONTINUED
1 comment:
Ni Hao
China – um país totalmente capitalista, determinado em fazer a diferença, com a “vantagem comercial” de um partido único.
Chineses – um povo inteiro de novos ricos, no bom e feliz sentido da expressão. Deslumbrado com o consumo, sem cultura alguma sobre o valor das marcas internacionais, mas feliz por ter emprego e agora poder além de matar a fome, fazer turismo local e consumir.
Visitar a China – poder presenciar um período histórico de trasnformação é maravilhoso, merece um “mergulho de cilindro” para compreender melhor o momento e entender a relação dos chineses com o Estado, empresas privadas e a família. A necessidade de querer saber mais a cada informação que se aprende é simplesmente fascinante.
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