Ao polaco da barrerinha
Parei um pouco com as crônicas chinesas, mesmo a ultima parte, Hong-kong já estando no forno, para falar do fantástico filme do Wajda que assisti dias atrás.
Ele que já havia nos dado o excelente Danton – O Processo da Revolução no qual exuma o cadáver da Revolução Francesa, e que é de quebra a melhor atuação de Depardier ever, toca dessa vez numa chaga bem mais pessoal, o massacre dos oficias poloneses na floresta de Katyn – o nome do filme – pelo exercito soviético em 1940.
Wajda não é didático, à medida que não contextualiza a trama nos momentos específicos da guerra nem usa legendas explicativas típicas de cinema americano. Fez um filme para iniciados, apaixonados por história assim como eu ou os emocionados velhinhos poloneses que assistiam à mesma sessão, alguns contemporâneos ao massacre.
No início, quando os oficiais estão ainda no campo de concentração sem saber o que será deles, estamos no auge do pacto Molotov-Ribbentrop que uniu nazi-fascistas e comunistas, ideologias diametralmente opostas, portanto iguais. Subentende-se que apesar de Hitler ter começado a guerra justamente invadindo a Polônia, a região ficaria para Stalin, deixando bigode menor com o leste, com quem a Alemanha tinha contas a acertar. Bigodinho, secretamente até então como veríamos depois, queria tudo.
Bigodão, na velha lógica vermelha dos fins a qualquer meio, tratou de liquidar todos os oficiais não comunistas e católicos do exercito, afim de cooptar mais facilmente a orgulhosa nação.
Mais a frente, quando os alemães começam a culpar os sanguinários bolcheviques divulgando o massacre para a população civil clamando que só o soldado alemão defendera a Europa, mais ou menos na altura em que a milenar universidade de Cracóvia é posta de joelhos por um linguiceiro alçado a oficial da SS, o pacto já tinha sido atropelado pelos tanques da Wehrmacht que naquele momento rumavam para Moscou. Coisa aliás, que só Stalin não previu .
No final, com o fim do conflito e a Polônia definitivamente anexada ao bloco soviético, a conta do massacre passa para os alemães, culpados de muitas barbaridades mas não dessa, num processo de reinvenção histórica como os descrito por Orwell em 1984 e Animal Farm. Não que tenham convencido alguém, nem mesmo os que se alinharam com os comunistas, como aquele oficial que se redime no final com um tiro na cabeça.
A cena da carnificina em si que fecha o filme é uma magistral aula de cinema.
È um mistério da existência o por que de algumas pessoa assim como alguns povos terem essa vocação para o sofrimento. A Polônia sem pertencer a África ou em qualquer outro buraco, simplesmente por estar no caminho das potencias, passou o diabo ao longo do tempo.
Seus dois maiores cineastas, Wajda e Polanski eram crianças na guerra. Roman menino testemunhou aquela cena que depois reproduziria em O Piano em que uma moça judia pergunta educadamente ao oficial nazista para onde estavam sendo levados e recebe como resposta um tiro de Luger na cara. O destino ainda lhe reservaria outro ultra demente do século XX, Charles Manson .
Andrejz sabia que seu pai, oficial do exercito, tinha sumido durante a guerra, mas só muito depois descobriu que ele mais vinte mil haviam tombado em Katyn com uma bala na nuca, marca registrada da KGB.
Graças a Deus ambos storytellers sobreviveram para contar.
Falando em Deus, não é a toa que o papa polaco tenha promovido um acerto de contas histórico daqueles, mas isso renderia pelo menos outro texto.
No comments:
Post a Comment