Tuesday, March 10, 2009

snowscapes




mr. apple in casablanca



Saio de um desses enclaves de civilização que são os hotéis americanos, mesmo quando macaqueiam a arquitetura local, para exibir minha figura na Medina a poucos metros dali. Apanho na recepção uma maçã, alias ótima como são as frutas de locais secos e quentes, e vou para a rua.

Na tentativa de chamar minha atenção e me levar para dentro sua gruta de Ali Baba de quinquilharias me oferecendo um enjoativo chá de menta em troca de todos meus dinares, um lojista me chama de Mr. Apple. Logo cada vendedor e cada criança passam a gritar meu novo apelido até soar quase como uma ladainha. Jogo a maçã fora e trato de encontrar a primeira saída daquele labirinto atemporal.

Assim passo minha primeira hora em Casablanca.

Em algum momento do filme homônimo, que para sorte deles foi filmado longe daqui, Bogart diz a Bergman: - "Sempre teremos Paris, kid". Palavras proféticas no que me diz respeito.

È a segunda vez que venho ao Marrocos e de novo conto os minutos para voltar a sentar na poltrona da Air France.

Tudo aqui é esfarrapado, esburacado e precisando de uma mão de tinta. Marrakesh, onde já tínhamos ido P. e eu há dois anos, ao menos tem um arremedo de Mil e Uma Noites, embora seja no todo, decepcionante. Já Casa, portuária e industrial, não tem nem o limitado charme da outra, mas transborda dos mesmos problemas, multiplicados por uma população consideravelmente maior.

As construções parecem caixas d’água cobertas de antenas parabólicas – não existe TV a cabo - de forma que o conjunto lembra aquele espaço-porto do primeiro Star Wars. O único edifício interessante é uma mesquita construída a beira do mar, visível da cidade toda.
Este é o lugar onde as Mercedes Bens vem morrer, um cemitério de elefantes da marca. Os taxis foram todos um dia modelos SE 400.

Há ainda os "petits", Fiat Unos e Renaults mínimos nos quais eu só entraria depois de me vacinar contra tétano.

As potencias européias foram colonizadores desiguais. A Bélgica, cujo rei Leopoldo só queria saber de saquear os seus Congos, Ruandas e o Burundis, foi péssima. Já os ingleses e franceses e mesmo os portugueses parecem fazer falta. Se não crê leia as ultimas noticias da África negra.
O Marrocos nunca foi propriamente uma colônia francesa como o resto do Magreb, e sim um protetorado. A guerra de independência foi muito menos cruenta do que a da Argélia, mas houve violência para garantir a volta de Mohamed V do exílio e o restabelecimento da monarquia.

Seu filho e herdeiro Hassan II, mais um carniceiro da guerra fria, matou até seu homem de confiança e cão de guarda, o General Oufkir, cuja filha escreveu um famoso livro contando a prisão da família no deserto.
Mohamed VI, o rei da hora, neto do V, tem basicamente a minha idade. Pacificou o pais, fechando as prisões do Sahara que eram verdadeiras portas de entrada do inferno. Proibiu a poligamia e emancipou as mulheres, que já podem votar e ser votadas.

Efetivamente manda. Exerce o poder executivo, tendo de submeter às leis a um congresso que pode, anacronicamente, dissolver a qualquer tempo, bem como convocar o exercito.
Apesar de gente como ele, não sou muito otimista quanto ao futuro do Islã. Até nos países muçulmanos mais modernos (e esse é, creia um deles), os mais pobres são os mais religiosos. As mulheres que pedem dinheiro no sinaleiro, invariavelmente usam burcas, enquanto as outras no maximo, cobrem o cabelo. Não conheço as taxas de natalidade locais, mas presumo que sejam maiores entre os crentes do que na elite europeizada.
Outros regentes modernizantes, como o do Xá do Irã, que como o pai do rei foi um terrível repressor, acabaram mal. O modelo democrático burguês ocidental é perigoso nesses lugares na medida em que pode levar os partidos Islâmicos teocráticos ao poder, mas a ausência dele irremediavelmente os levara no longo prazo.

A própria Turquia, laica e metade européia, pisa em ovos nessa questão.

Ao ir embora um dos vários soldados que verificam meu passaporte – aqui como na Venezuela é importante manter um grande efetivo á mão, mas há que se mante-los ocupados para que não pensem bobagens – me pede um café, nesses termos, me livrando dos últimos dinares, que afinal não me farão falta.

No que depender de Mr. Apple, Casablanca never more Sam. De minha parte, não é o começo de uma bela amizade.

Friday, March 06, 2009

off the wings

Dias atras a agencia de analise de risco Standart and Poors (que nome!!) aumentou o risco da Espanha, Grecia, Irlanda e Portugal. Alguem me disse que alem dos BRICS agora temos Portugal, Ireland. Greece and Spain, os PIGS.