Tuesday, June 23, 2009

Made in China - Beijing


Shangai é São Paulo, New York, Frankfurt made in China. Ao menos no que depender das autoridades chinesas que fazem o impossível para transformá-la no centro financeiro definitivo da Ásia, status que ainda compartilha com a rebelde, mal acostumada e politicamente liberal Hong Kong.

Uma espécie de resgate a tradição comercial de ex- entreposto ocidental que a cidade desfrutava ate o final dos anos 30, antes que o império japonês e mais tarde eles próprios, os comunas acabassem com a festa.

Beijing é uma Brasília, Washington ou Berlin com resquícios stalinistas, (embora o tio Joe fosse mal quisto por aqui) com prédios baixos e idênticos, que vem sendo substituídos de forma sistemática por provas arquitetônicas de riqueza, algumas surpreendente belas.

Incrível que eu, absolutamente vidrado em fatos históricos recentes, viesse parar aqui justamente uma semana antes do aniversario de 20 anos do massacre de quatro de junho, que fez com que o nome Tianamen Square, literalmente Praça da Paz Celestial, se tornasse uma das grandes ironias do século XX.

Os estudantes que de início apenas prestavam uma homenagem póstuma a um ex-figurão do regime defenestrado por ser liberal demais, acabaram por encenar uma odisseia pro democracia, assombrando a China e mundo com suas façanhas.

Entre greves de fome e pronunciamentos por melhores condições de estudo e mais liberdades individuais, construíram no centro da praça uma estátua a Deusa da Democracia, usando todo tipo de material disponível. Numa atitude altamente simbólica a estátua foi arrasada pelos blindados do reformador econômico (mas não político) Deng Xaoping., junto, ´é bom que se diga, como um grande numero de pessoas, cuja contagem permanece um mistério.

Talvez nenhuma outra imagem represente melhor a coragem humana diante da opressão do que o estudante chinês dando um baile nos tanques, pouco antes da carnificina.

Em um pais de 1,3 bi não sei que fim teria tido a Primavera de Beijing se deixada correr solta, mas vale lembrar que naquele 89 caia o Muro de Berlin e com ele todas as republicas socialistas do leste europeu, sem que Honecker ou algum general russo mais exaltado ousasse algo do gênero.

Em frente à praça, testemunha desse e outros momentos ao longo de cinco séculos, a Cidade Proibida.

Concebida como um mundo a parte de onde o imperador e seu séquito nunca saiam é, assim como a muralha, indescritível em tamanho e imponência. Mais umas daquelas coisas que as câmaras não conseguem captar e as descrições não fazem justiça.

Leio no interessante, embora cansativo 1421 que um incêndio causado por um raio na fase final da Cidade Proibida que endividou e dividiu o Império, foi interpretado pelos oportunistas mandarins com uma reprovação divina, levando-os a depor o imperador. Começava ai um longo período de isolacionismo na China, que entre outras medidas, trouxe a proibição das viagens oceânicas e a queima dos registros e compêndios dos almirantes eunucos, cuja frota de juncos armada pelo imperador deposto, teria entre outras coisas descoberto a America.

Não duvido pelas evidencias reunidas no livro. Alem do mais é incrível imaginar como seria o mundo hoje caso o tal raio fosse cair numa outra parte da cidade, como por exemplo, na casa dos mandarins.

A Muralha vista de perto, me faz supor que seja a maior obra de engenharia de todos os tempos, e nada que se tenha construído depois, hidroelétricas, arranha céus ou pontes pode se comparar, principalmente levando em conta as dificuldades do terreno e a tecnologia da época. Não subestimo o perigo representado pelo Gengis e seus centauros furiosos, mas conhecendo a raça humana, aquilo só se explica pelo fato de, como sempre, uns poucos usarem as ameaças externas como forma de manipulação, riqueza e manutenção de poder.

Grande parte dos 8.000 km construída numa região montanhosa, a tornava, embora relativamente baixa, intransponível para os mongóis. Cavaleiros em tempo integral, tinham de vencer a montanha antes de tentar escalá-la, levando flechadas das torres de vigilância chinesas, localizadas bem próximas umas das outras.

Cobrir os poucos metros entre duas delas, dado ao ângulo da superfície sobre a muralha, é uma prova de resistência para o turista desvisado, como a pobre moça de salto alto no meu grupo. Servir no exercito do imperador não era mole, acredite.

Sem mongóis para combater, os novos imperadores chineses construíram a Vila Olímpica num antigo banhado , tudo em tempo record,. Também impressiona muito mais do que pela televisão, embora que em lugar do descomunal piso de concreto que separa o Ninho do Cubo, pudessem ter feito um parque arborizado.

Seja pela crise econômica, gripe suína, feriado nacional ou uma conjunção desses fatores, quase não se vê turistas estrangeiros por aqui, somente chineses, a maioria do interior, muito provavelmente visitando a cidade grande pela primeira vez.

Depois de comer e morar a grande revolução agora é viajar, coisa inédita para as gerações precedentes, presas ao campo por agruras diversas e impossibilitados de ver o próprio pais. Agora o fazem num fluxo inverso e bem mais proveitoso ao da maldita Revolução Cultural quando os jovens da cidade eram mandados ao campo a fim de serem reeducados (?) pelos camponeses, santos e pilares do sino-comunismo

As radiações daquele período negro da historia vermelha, quando Mao e seu bando dos quatro a fim de se manterem firmes no poder, apelaram para o chauvinismo da juventude e do exercito, são muito mais perceptíveis do que em Shangai, dado ao caráter político da cidade.

Por conta dessa novidade, ocidentais são parados na rua para tirar fotos com desdentados e sorridentes arrivistas do campo, como se fossemos todos de Hollywood USA. Estudante aplicado de historia que sou e ciente de como essa gente cooptada pelos comunistas, munidos somente de enxadas e foices, expulsou para o mar o Kuomitang e suas armas americanas e britânicas em 49, aceito passivamente meus quinze minutos de fama.



TO BE CONTINUED

Friday, June 05, 2009

made in china - shangai



Blade Runner perde.

Chego a Shangai muito cedo e tenho a sorte de olhar pela janela justamente quando o avião sobrevoa o centro financeiro.

La estao a Pearl Tower, a Torre Jing Mao e aquele edifício que lembra um gigantesco abridor de garrafas, e esta entre os mais altos do mundo. O sol nascente atravessando a poluição cria uma atmosfera ainda mais acachapante ao aspecto de Manhattan futurista da cidade. Mais próximo do aeroporto, milhares de prédios baixos tipo projeto Cingapura construídos entre plantações de arroz, o que talvez explique por que a cidade foi fundada aqui nessa região alagada.

Todos a bordo estavam prevenidos quanto aos procedimentos que a China adotaria para conter a febre suína, mas nada podia nos preparar para os astronautas típicos de filme de epidemia que, pistolas a mão, sem dizer uma palavra começam a medir a laser a temperatura de cada passageiro, logo após o pouso. O pobre senhor do meu lado, provavelmente mais quente do que o mínimo permitido, leva sem qualquer formalidade um termômetro boca adentro. Naquele momento já imaginava que se houvesse no avião um torcedor do Palmeiras que fosse, iríamos parar dentro de uma bolha de contenção em alguma instalação militar na Manchúria. Scary.

Livre da quarentena e seguindo a orientação de um amigo, esqueço os taxis e tomo o Mega Leve, o trem voador que é um delicia, de zero a trezentos em segundos e em oito minutos aterriso no centro. Eis uma grande e talvez nem tão cara assim solução para aeroportos urbanos.

Noto que apesar de toda a tecnologia que faz o trem levitar por magnetismo invertido, o acesso é feito por um funcionário encarregado de mover uma cordinha de veludo daquelas de cinema antigo. Empregar 1,3 bilhões de pessoas requer contradições. Descubro com o tempo mais alguns truques utilizados pelo governo, como a lei que obriga aos hotéis manter uma pessoa em cada andar para receber os hospedes, ou o fato de os tickets das atrações serem invariavelmente conferidos por duas pessoas.

O Hyatt em que me hospedo ocupa os andares entre 54 e o 80 da Mao Jing, com vista para a kitsch Pearl Tower, o rio e o Bund, a parte antigo-ocidental de Shangai, celebrizada no Império do Sol do Spielberg, transformada hoje em um mero espectador do exagerado embora impressionante novo skyline da cidade.

A China, sabemos, é a bola da vez enquanto sociedade que se urbaniza e industrializa em um ritmo alucinante. Equivale a América do Norte do começo do século 20 ou o Japão nos anos 60/70 que cada um ao seu modo, tiraram milhões da miséria e mostraram poder ao mundo com construções mirabolantes e outras provas de grandeza.

Ocorre que aqui as proporções são chinesas. Na verdade trata-se de um ajuste de contas com a historia, de um povo que já navegava em barcos de 100 metros enquanto Colombo se equilibrava numa casquinha de noz e que construiu a Cidade Proibida e a Muralha enquanto almoçávamos uns aos outros.

Apesar dos 5000 anos de historia, os quase 60 de comunismo infantilizaram a sociedade, levada a crer que Mao era o bem, o único capaz de protegê-los do canalha Shang Kai Check encastelado em Taiwan, sempre pronto para vingar-se, alem de outros booguie man como os imperialistas ingleses e americanos.

Portanto tudo aqui é muito recente, foi-se da bicicleta para os Audis em menos de 10 anos, criando uma geração de péssimos motoristas, de vendedores que, pouco acostumados ao capitalismo que só conheceram adultos, sao insistentes e que falam demais. Os taxistas se recusam a entender nada que não seja escrito em chinês, mesmo quando são termos supra-linguistcos como Hilton ou Sheraton. Em fim, um povo que no geral tende a ser muito subserviente, e no particular um tanto rude.

Uma sociedade um tanto mirim para nosso gosto, a não ser no que diz respeito ao governo, monolítico claro, mas coeso e eficiente. Não se chega a ministro sem se ter sido por exemplo, um bom prefeito de Shangai, o que denota uma meritocracia que já era marca no império, o que não quer dizer que o partido não mantenha as orientações comunistas onde e quando lhe convém.

Dentro da velha pratica vermelha dos meios para os fins, funciona como uma eficientíssima ferramenta capitalista sem as amarras da lei ou os limites da democracia. Cem mil famílias são desalojadas por ano para dar lugar às obras de infra estrutura sem que vereadores, deputados ou juízes se coloquem contra. A própria internet wireless nos hotéis é precária, o que se explica não pela falta de tecnologia, mas de liberdade de expressão.

Já na sociedade civil tudo remete a mais rude individualismo. Uma pessoa por carro nos congestionamentos e, algo que só vi na Rússia, fingers e ônibus que dão acesso aos aviões, separados por classes. Gente pedindo esmola com criança no colo, subemprego e o mau gosto luxo/lixo próprio do dinheiro novo.

Não soube avaliar se alguma “conquista” do socialismo foi mantida, mas depois de andar por Moscou e Shangai me parece claro que quando a sociedade de classes retorna, vem ainda mais forte imperfeita do que antes.

Não estive na fabricas da periferia, mas um amigo brasileiro que trabalha com elas relata o péssimo tratamento para com os funcionários que vivem em alojamentos apinhados. Segundo ele, só se conformou quando percebeu que para aquela gente essa vida é um upgrade se comparado a dos pais que passaram fome antes e especialmente durante a primeira fase do comunismo, quando o velho Zedong dava tratos a bola.

Seus funcionários chineses, como qualquer um aqui que lide com estrangeiros, elege um nome inglês, que após um certo tempo pode ser mudado sem pré aviso. Portanto o Joe de ontem, hoje se chama Dave por que foi ver um filme americano e gostou do nome. Mais da metade do salário vai invariavelmente para a familia no interior.

Uma multinacional fez uma pesquisa dos hábitos locais e entro outras perguntas fez a seguinte indagação:

-Você esta num barco no Yang Tse que começa afundar por excesso de gente. Seu filho, sua mulher e sua mãe estão la e você só tem tempo de salvar uma pessoa. Quem seria ?
Quase que cem por cento responderam que salvariam a mãe. Explicação: você pode ter outro filho, outra mulher, mas jamais terá outra mãe.

That´s China-

TO BE CONTINUED