
Shangai é São Paulo, New York, Frankfurt made in China. Ao menos no que depender das autoridades chinesas que fazem o impossível para transformá-la no centro financeiro definitivo da Ásia, status que ainda compartilha com a rebelde, mal acostumada e politicamente liberal Hong Kong.
Uma espécie de resgate a tradição comercial de ex- entreposto ocidental que a cidade desfrutava ate o final dos anos 30, antes que o império japonês e mais tarde eles próprios, os comunas acabassem com a festa.
Beijing é uma Brasília, Washington ou Berlin com resquícios stalinistas, (embora o tio Joe fosse mal quisto por aqui) com prédios baixos e idênticos, que vem sendo substituídos de forma sistemática por provas arquitetônicas de riqueza, algumas surpreendente belas.
Incrível que eu, absolutamente vidrado em fatos históricos recentes, viesse parar aqui justamente uma semana antes do aniversario de 20 anos do massacre de quatro de junho, que fez com que o nome Tianamen Square, literalmente Praça da Paz Celestial, se tornasse uma das grandes ironias do século XX.
Os estudantes que de início apenas prestavam uma homenagem póstuma a um ex-figurão do regime defenestrado por ser liberal demais, acabaram por encenar uma odisseia pro democracia, assombrando a China e mundo com suas façanhas.
Entre greves de fome e pronunciamentos por melhores condições de estudo e mais liberdades individuais, construíram no centro da praça uma estátua a Deusa da Democracia, usando todo tipo de material disponível. Numa atitude altamente simbólica a estátua foi arrasada pelos blindados do reformador econômico (mas não político) Deng Xaoping., junto, ´é bom que se diga, como um grande numero de pessoas, cuja contagem permanece um mistério.
Talvez nenhuma outra imagem represente melhor a coragem humana diante da opressão do que o estudante chinês dando um baile nos tanques, pouco antes da carnificina.
Em um pais de 1,3 bi não sei que fim teria tido a Primavera de Beijing se deixada correr solta, mas vale lembrar que naquele 89 caia o Muro de Berlin e com ele todas as republicas socialistas do leste europeu, sem que Honecker ou algum general russo mais exaltado ousasse algo do gênero.
Em frente à praça, testemunha desse e outros momentos ao longo de cinco séculos, a Cidade Proibida.
Concebida como um mundo a parte de onde o imperador e seu séquito nunca saiam é, assim como a muralha, indescritível em tamanho e imponência. Mais umas daquelas coisas que as câmaras não conseguem captar e as descrições não fazem justiça.
Leio no interessante, embora cansativo 1421 que um incêndio causado por um raio na fase final da Cidade Proibida que endividou e dividiu o Império, foi interpretado pelos oportunistas mandarins com uma reprovação divina, levando-os a depor o imperador. Começava ai um longo período de isolacionismo na China, que entre outras medidas, trouxe a proibição das viagens oceânicas e a queima dos registros e compêndios dos almirantes eunucos, cuja frota de juncos armada pelo imperador deposto, teria entre outras coisas descoberto a America.
Não duvido pelas evidencias reunidas no livro. Alem do mais é incrível imaginar como seria o mundo hoje caso o tal raio fosse cair numa outra parte da cidade, como por exemplo, na casa dos mandarins.
A Muralha vista de perto, me faz supor que seja a maior obra de engenharia de todos os tempos, e nada que se tenha construído depois, hidroelétricas, arranha céus ou pontes pode se comparar, principalmente levando em conta as dificuldades do terreno e a tecnologia da época. Não subestimo o perigo representado pelo Gengis e seus centauros furiosos, mas conhecendo a raça humana, aquilo só se explica pelo fato de, como sempre, uns poucos usarem as ameaças externas como forma de manipulação, riqueza e manutenção de poder.
Grande parte dos 8.000 km construída numa região montanhosa, a tornava, embora relativamente baixa, intransponível para os mongóis. Cavaleiros em tempo integral, tinham de vencer a montanha antes de tentar escalá-la, levando flechadas das torres de vigilância chinesas, localizadas bem próximas umas das outras.
Cobrir os poucos metros entre duas delas, dado ao ângulo da superfície sobre a muralha, é uma prova de resistência para o turista desvisado, como a pobre moça de salto alto no meu grupo. Servir no exercito do imperador não era mole, acredite.
Sem mongóis para combater, os novos imperadores chineses construíram a Vila Olímpica num antigo banhado , tudo em tempo record,. Também impressiona muito mais do que pela televisão, embora que em lugar do descomunal piso de concreto que separa o Ninho do Cubo, pudessem ter feito um parque arborizado.
Seja pela crise econômica, gripe suína, feriado nacional ou uma conjunção desses fatores, quase não se vê turistas estrangeiros por aqui, somente chineses, a maioria do interior, muito provavelmente visitando a cidade grande pela primeira vez.
Depois de comer e morar a grande revolução agora é viajar, coisa inédita para as gerações precedentes, presas ao campo por agruras diversas e impossibilitados de ver o próprio pais. Agora o fazem num fluxo inverso e bem mais proveitoso ao da maldita Revolução Cultural quando os jovens da cidade eram mandados ao campo a fim de serem reeducados (?) pelos camponeses, santos e pilares do sino-comunismo
As radiações daquele período negro da historia vermelha, quando Mao e seu bando dos quatro a fim de se manterem firmes no poder, apelaram para o chauvinismo da juventude e do exercito, são muito mais perceptíveis do que em Shangai, dado ao caráter político da cidade.
Por conta dessa novidade, ocidentais são parados na rua para tirar fotos com desdentados e sorridentes arrivistas do campo, como se fossemos todos de Hollywood USA. Estudante aplicado de historia que sou e ciente de como essa gente cooptada pelos comunistas, munidos somente de enxadas e foices, expulsou para o mar o Kuomitang e suas armas americanas e britânicas em 49, aceito passivamente meus quinze minutos de fama.
TO BE CONTINUED

































