Thursday, July 23, 2009

Child of the moon

Planet earth is blue, and there is nothing i can do
DBowie – Space Oditty


Eu tinha seis anos quando a Apolo XI pousou na Lua. HQ freak que eu era, enchi dúzias de cadernos de desenho com a minha interpretação da saga lunar. Como cada desenho ocupava uma pagina inteira, devo ter dizimado alguma floresta por ai

Tinha os astronautas entrando no foguete Saturno, a decolagem, o foguete se decompondo em três partes, cápsula e o modulo lunar voando grudados em direção a Lua, o desacoplamento, o pouso da aranha, Armstrong saindo de bordo para uma volta pelo Mar da Tranqüilidade, a cabeça do modulo sendo lançada de vota ao espaço deixando o corpo para trás e para sempre na superfície lunar, a volta a Terra, a cápsula caindo de para quedas, o Porta aviões recolhendo a balsa, os astronautas desfilando num conversível sob uma chuva de papeis picados..

Tudo na interpretação pueril de menino que as amigas de minha avó, carentes de filhos e netos, tratavam como se fossem os esboços da Capela Sistina.

No Brasil pró- EUA que vivíamos era como se a bandeira enfiada no solo lunar fosse verde amarela. A imprensa ocidental fazia crer que o mundo livre tinha finalmente devolvido aos russos a bola nas costas do Sputnik., e a lua não seria enfim uma base de mísseis soviética.

No colégio nem nos dávamos conta disso. Ficávamos imaginando que la pelos 2.000 poderíamos escolher entre morar na Terra, numa daquelas bases lunares que a revista Manchete trazia em desenhos hiper realistas, ou nas mega estações espaciais que girariam no espaço ao som de Strauss, como em 2001 de Kubrick.

Astronauta era a escolha de dez entre dez garotos quando respondíamos à inevitável “o que vai ser quando crescer”.

Portanto nada poderia desapontar mais um menino de 1969 do que ser transportado 40 anos para o futuro e ver que nada daquilo ocorreu. Os maravilhosos foguetes da Classe Saturno que remetiam a Jules Verne e eram devoradas por seus filhos cápsula e aranha a cada viagem, foram substituídos por burocráticos ônibus espaciais, mais baratos e rentáveis justamente por serem reaproveitáveis. Parecendo toscos aviões, faturam uma bolada para a NASA, eparando e posicionando satélites, um fim melancólico para a Escola de Sagres do Século XX, que acabou virando um misto de oficina mecânica e empresa de entregas espaciais, uma Planet Express de Futurama.

Nada nesses quarenta anos, evoluiu como as comunicações e sua variante a mais nobre, a informática. Todas as outras conquistas tecnológicas foram quase pífias em comparação. O pouso da Águia, que assisti numa imagem borrada preto e branca de uma Telefunkem monstrenga, seria visto hoje em altíssima resolução digital num IPod do tamanho das extintas caixas de fósforo olho, beija flor e moça. . De qualquer forma duvido que recém saídos de uma Camara de criogenia ou da maquina do tempo, ficássemos impressionados com micro computadores ou celulares quando esperávamos carros voadores e naves que nos levariam por cruzeiros pelas luas de Júpiter.

Nunca saberemos ao certo o quanto a indústria que ajuda a desenvolver novas tecnologias impede em alguns momentos o avanço de outras, que seriam prejudiciais aos seus negócios. Nada de teorias conspiratórias como acreditar que a Exxon ou a Shell teriam comprado e arquivado o plano de um carro movido a suco de melancia ou algo assim, mas sempre me questionei o por que de o avião que já tem mais de cem anos e ninguem ter feito um modelo barato e fácil o suficiente para ser manejado pelas pessoas comuns.

E quanto à roupa voadora, que foi apresentada na Olimpíada de Los Angeles e depois no Sambódromo como novidade, mas que já existia desde os anos 60 e que nunca foi produzida em escala industrial. E eu que achava que aos 40, teria um guarda roupa cheio delas, nas mais diversas cores e modelitos.

Não significa que a raça humana não tenha avançado. Parafraseando não sei quem, costumo dizer que o mundo é horrível, mas nunca foi tão bom. Não trocaria a época atual por nenhuma outra e essa idéia romântica que temos do passado é muito fruto dos filmes de Hollywood que retratam um príncipe desdentado e fedorento com os dentes do Tony Curtis e as roupas impecavelmente passadas, mesmo tendo passado dias em cima de um cavalo.

Não vou retroagir aos tempos pré anestesia ou das invasões bárbaras, quando você podia acordar com um Ostrogodo ululante na sua sala de estar. Fiquemos no momento em que os rapazes da Apolo viram a bolinha azul nascendo por detrás das montanhas lunares. .

- Para um período conhecido por guerra fria, as coisas estavam bem quentes por aqui. O Vietnã habitava os corações e mentes dos jovens e inspirava um até certo ponto merecido antiamericanismo, que por pouco não pinta o mundo de vermelho. O quaker Dick e o judeu Henry com seus truques e armações, embora tenham importância histórica vistos de hoje, não ajudavam em nada melhorar a imagem do país.

-A União Soviética no mapa, parecia estar a ponto de engolir a Europa, e a juventude do continente que dava por certa uma terceira guerra em seus quintais, cultivava aquela atitude de no tomorrow.

- A America Latina disputada por guerrilheiros insanos e militares desmiolados, criava uma divida que levaria trinta anos de crescimento zero para ser paga.

- O Brasil era uma mistura de quartel e fazenda no qual os que não macaqueavam os americanos, torciam pelo Fidel, onde as pessoas que tinham algum contato com o exterior eram quase tão astronautas quanto Neil, Buzz and Mike.

Poderia se dizer que haviam naqueles anos movimentos culturais como a musica que eram elementos de transformação, e que isso se perdeu para o aspecto puramente entertainement. Não acho isso ruim e concordo com o Prof. Correia que diz que a tecnologia é hoje o fator de mudança social. Se você quiser ouvir Dylan berrando contra o Vietnã, é como se ele estivesse ali ao seu lado.

Mas quem imagina que o terrorismo islâmico ou a gripe suína sejam uma ameaça, realmente não viu nada.

Made in china – hong kong


Decio Pignatari escreveu que o que interessa na poesia é o que não e poesia. Pois é, Hong-Kong é a China, sem ser a China, mesmo sendo a China, o que a faz mais interessante que a própria China.

Explico:

Certas coisas que eu esperava ver na China continental tais como aglomeração de gente, mercados de rua vendendo monstrinhos alimentícios, boat people e juncos navegando, acabei vendo somente em Hong-Kong.

Não que essas coisas não existam nas outras cidades, só que você, restrito as áreas especiais onde os visitantes ficam confinados, não vê. Já não é necessário como até bem pouco tempo ter um guia oficial do partido colado em você, e formalmente pode-se ir onde quiser em Peking ou Shangai. Somente que as regiões onde estão os hotéis, restaurantes e escritórios são justamente as mais novas, portanto menos representativas do nosso imaginário.

Já na ilha as coisas estão menos segregadas, e a falta de espaço cria uma saudável promiscuidade. Não trabalho bem com dados, mas algo em torno de seis milhões se espremem num lugar relativamente pequeno, fazendo de HK uma cidade vertiginosa.

Um movimentadissimo sistema de barcaças e embarcações menores liga as duas margens da baia nas quais a cidade, limitada entre a montanha e o mar como um Rio de Janeiro high.-tech, cresce somente para cima, sob a forma de arranha-céus e em construções nas encostas das montanhas que nada lembram nossas favelas. Uma escada rolante publica provavelmente a mais longa do mundo faz às vezes de transporte urbano.

Aqui respira liberdade política, coisa que a anexação a China, num modelo que eles chamam de “um território, dois sistemas“, não conseguiu apagar, graças à bendita influencia britânica. Nesses dias que antecedem o aniversario do Massacre de Tiannamem, milhões de pessoas que passam por dia pelo píer das barcaças são expostas a fotos horrendas de pessoas desmembradas e da carne moída no quatro de junho de 89, alem de denuncias de tortura (chinesa já ouviu falar?) infringida a um grupo chamado Falun Gong, que se assemelha a pratica de taichi ou yoga, mas que por algum motivo é perseguido pelo PCI. O líder do improvável Partido Liberal tinha acabado de receber uma ameaça de morte que ele não atribui aos comunistas continentais:

-Eles não seriam tão estúpidos.

Encontro meu velho amigo Jon, neozelandês com passagem por Curitiba e partimos para um mundo a parte em Lantai, uma ilha próxima, onde o fato da terra ser sujeita a deslizamentos, impediu a mega especulação imobiliária que muda a face de Hong-Kong a cada ano Uma estatua no topo da montanha, espécie de Buda Redentor e um mosteiro budista são o contraponto perfeito a megalópole super-populosa.

The end.

Monday, July 20, 2009

Friday, July 10, 2009

coli porti

Eu era seu gatinho eu era seu leao,
Virei o terrorista no seu avião

Eu era o seu beatle, o seu beatnick,
Virei o iceberg do seu Titanic

Eu era seu destino, era sua sina
Me transformei no virus da gripe suina

Era você e eu, Julieta e Romeu
Tomei o meu veneno, você não tomou o seu

Eu era o seu filho, eu era seu marido
Virei o toco do cigarro do bandido.

Eu era o seu bichinho , era o seu bebe
Virei à ratazana do rio tiete

Eu era o seu príncipe eu era seu rei
Virei jê vous salue Marly Sarney

Era você e eu, Marília e Dirceu,
Eu li o seu poema, você não leu o meu

Monday, July 06, 2009

Sunday, July 05, 2009

poorland

Ao polaco da barrerinha

Parei um pouco com as crônicas chinesas, mesmo a ultima parte, Hong-kong já estando no forno, para falar do fantástico filme do Wajda que assisti dias atrás.

Ele que já havia nos dado o excelente Danton – O Processo da Revolução no qual exuma o cadáver da Revolução Francesa, e que é de quebra a melhor atuação de Depardier ever, toca dessa vez numa chaga bem mais pessoal, o massacre dos oficias poloneses na floresta de Katyn – o nome do filme – pelo exercito soviético em 1940.

Wajda não é didático, à medida que não contextualiza a trama nos momentos específicos da guerra nem usa legendas explicativas típicas de cinema americano. Fez um filme para iniciados, apaixonados por história assim como eu ou os emocionados velhinhos poloneses que assistiam à mesma sessão, alguns contemporâneos ao massacre.

No início, quando os oficiais estão ainda no campo de concentração sem saber o que será deles, estamos no auge do pacto Molotov-Ribbentrop que uniu nazi-fascistas e comunistas, ideologias diametralmente opostas, portanto iguais. Subentende-se que apesar de Hitler ter começado a guerra justamente invadindo a Polônia, a região ficaria para Stalin, deixando bigode menor com o leste, com quem a Alemanha tinha contas a acertar. Bigodinho, secretamente até então como veríamos depois, queria tudo.

Bigodão, na velha lógica vermelha dos fins a qualquer meio, tratou de liquidar todos os oficiais não comunistas e católicos do exercito, afim de cooptar mais facilmente a orgulhosa nação.

Mais a frente, quando os alemães começam a culpar os sanguinários bolcheviques divulgando o massacre para a população civil clamando que só o soldado alemão defendera a Europa, mais ou menos na altura em que a milenar universidade de Cracóvia é posta de joelhos por um linguiceiro alçado a oficial da SS, o pacto já tinha sido atropelado pelos tanques da Wehrmacht que naquele momento rumavam para Moscou. Coisa aliás, que só Stalin não previu .

No final, com o fim do conflito e a Polônia definitivamente anexada ao bloco soviético, a conta do massacre passa para os alemães, culpados de muitas barbaridades mas não dessa, num processo de reinvenção histórica como os descrito por Orwell em 1984 e Animal Farm. Não que tenham convencido alguém, nem mesmo os que se alinharam com os comunistas, como aquele oficial que se redime no final com um tiro na cabeça.

A cena da carnificina em si que fecha o filme é uma magistral aula de cinema.

È um mistério da existência o por que de algumas pessoa assim como alguns povos terem essa vocação para o sofrimento. A Polônia sem pertencer a África ou em qualquer outro buraco, simplesmente por estar no caminho das potencias, passou o diabo ao longo do tempo.

Seus dois maiores cineastas, Wajda e Polanski eram crianças na guerra. Roman menino testemunhou aquela cena que depois reproduziria em O Piano em que uma moça judia pergunta educadamente ao oficial nazista para onde estavam sendo levados e recebe como resposta um tiro de Luger na cara. O destino ainda lhe reservaria outro ultra demente do século XX, Charles Manson .

Andrejz sabia que seu pai, oficial do exercito, tinha sumido durante a guerra, mas só muito depois descobriu que ele mais vinte mil haviam tombado em Katyn com uma bala na nuca, marca registrada da KGB.

Graças a Deus ambos storytellers sobreviveram para contar.

Falando em Deus, não é a toa que o papa polaco tenha promovido um acerto de contas histórico daqueles, mas isso renderia pelo menos outro texto.