Imaginava que Florianoplis fosse a capital mudial de restaurantes com nomes infames.
Maria Vai com As Ostras, Ostradamus , Churrascaria Ex Touro e por ai afora
Mas com o advento do Elvis Costella, Curitiba entra no pareo "big time". Sera que servem um bom steak Diana la?
Thursday, October 28, 2010
Monday, October 11, 2010
deus ex-machina
aos amigos Ilvor e Edson doCcartoon Video
Ficção científica é cinema B por natureza. Um gênero ingrato onde só os clássicos sobrevivem. Alem do mais tem, como o próprio futuro, um baixíssimo prazo de validade.
Sempre assisto SCI-FI com os dois olhos bem abertos. Um, critico, detectando aquilo que não é tão cientifico assim na trama, que normalmente abusa da ignorância da platéia:
- Explosões de naves estelares que são ouvidas no vácuo onde o som não se propaga, pessoas descem em planetas inóspitos de jeans e camiseta e por ai fora.
O outro olho, crédulo. Muitas daquelas maquinas que vemos na tela nem são tão improváveis assim. Convivemos diariamente sem prestar muita atenção com coisas que há poucos anos não faziam parte nem do imaginário dos mais loucos ou visionários.
Que tal explicar para alguém do século 19 - um minuto atrás em termos de história - que um dia uma carta pudesse ser escrita numa tela como essa aqui na minha frente (como explicar telas de computadores? Um pedaço de vidro ou um espelho talvez...) e transmitida para qualquer lugar do mundo (para outro pedaço de vidro), quase que instantaneamente.
Ou que tal dizer para um nova-iorquino do inicio do século seguinte que a distância que ele cobria em várias semanas para ir a Londres nos Queen Elizabeths da vida, seria em poucos anos percorrida em horas a bordo de (menos charmosos) “transatlânticos” alados.
Dizer que Jules Verne inventou o submarino é talvez mais preciso do que imaginar que ele o previu ou o profetizou. Ao imaginar o Nautilus, ele atiçou a engenhosidade humana até que essa o transformasse em realidade. Assim como Leo da Vinci, que só não construiu o helicóptero, o pára-quedas e sabe Deus mais o que, por falta de materiais e condições adequadas.
Nesse aspecto HG Wells foi além de Verne, “inventando” coisas que ainda nem puderam ser realizadas. Felizmente, por que nem quero imaginar o uso que os governos dariam a uma maquina do tempo.
Dias atrás vi na TV - por absoluta falta de opção - o velho documentário “Eram os Deuses Astronautas?” baseado no livro do Erik “Picareta” Von Daniken. Nunca simpatizei com as tais teorias que atribuem a alienígenas um papel de misto de arquitetos, mestre de obras e Caixa Econômica Federal das pirâmides egípcias, maias e astecas, alem de outras magníficas construções do passado.
O fato de homem moderno achar impossível levantar blocos de pedra imensos sem guindastes, simplesmente por que não consegue imaginar um mundo sem guindastes, só prova que perdemos muitas habilidades, mimados que somos pela vida moderna. Não há nada de tão tecnológico na antiguidade que corrobore com essas teses. Não se foi do machado para o raio laser imediatamente nem nada assim, embora coisas como aquele desenho do deus na “cápsula espacial” sejam bem impressionantes.
Já outras, só a primeira vista. Exemplo: As linhas de Nazca no Peru, a princípio impossíveis de serem desenhadas (ao menos sem o auxilio de máquinas voadoras ou gigantes venusianos) numa região onde não existem montanhas ou elevações, são explicáveis por modelos feitos com cordas em escala, e depois copiadas numa escala maior, simplesmente respeitando proporções.
Nunca estive em Nazca, mas fui duas vezes a Machupichu, que recomendo enormemente. A precisão do corte das pedras é cirúrgica e o fato do complexo estar praticamente pendurado nas nuvens, faz com que aquilo pareça impossível de ser construído, mesmo nos dias atuais.
Mas talvez seja essa exatamente a questão:
- Hoje, quando tudo tem de respeitar a lógica econômica e garantir o retorno financeiro, realmente é impossível ir alem das frágeis estruturas que construímos. Mas que tal se você, assim como o Inca ou o Faraó, não precisasse fazer contas e tivesse o poder de vida e morte sobre incontáveis trabalhadores, sem sindicatos ou leis trabalhistas, e nem fosse premido por essa bobagem chamada tempo?
Algumas técnicas são adquiridas ao longo do tempo, outras perdidas. Tente achar um bom retratista, como eram Rubens, Goya , Vermeer ou Rembrandt. Foram todos mortos pela fotografia.
Alem do mais, ficamos mais moles. Ninguém agüentaria uma viagem a cavalo que o imperador do Brasil, o Lula da época (sem Airbus), foi obrigado a fazer para declarar a independência em São Paulo. Paramos de nos nortear pelas estrelas que não vemos mais, ofuscadas pelas luzes da cidade e pelas facilidades do GPS.
Não ter de caçar para sobreviver é uma bênção, mas a caça abundante nas selvas amistosas do Wal-Mart nos causa problemas inversos, ligados a superalimentação.
Poderia continuar indefinidamente, mas não vai aqui nenhuma nostalgia do passado, que por sinal em muitos aspectos era medonho. Pense na vida antes da anestesia ou do vaso sanitário.
Só o reconhecimento que se paga um preço pela comodidade e física, nem que seja o da mensalidade da academia.
Ficção científica é cinema B por natureza. Um gênero ingrato onde só os clássicos sobrevivem. Alem do mais tem, como o próprio futuro, um baixíssimo prazo de validade.
Sempre assisto SCI-FI com os dois olhos bem abertos. Um, critico, detectando aquilo que não é tão cientifico assim na trama, que normalmente abusa da ignorância da platéia:
- Explosões de naves estelares que são ouvidas no vácuo onde o som não se propaga, pessoas descem em planetas inóspitos de jeans e camiseta e por ai fora.
O outro olho, crédulo. Muitas daquelas maquinas que vemos na tela nem são tão improváveis assim. Convivemos diariamente sem prestar muita atenção com coisas que há poucos anos não faziam parte nem do imaginário dos mais loucos ou visionários.
Que tal explicar para alguém do século 19 - um minuto atrás em termos de história - que um dia uma carta pudesse ser escrita numa tela como essa aqui na minha frente (como explicar telas de computadores? Um pedaço de vidro ou um espelho talvez...) e transmitida para qualquer lugar do mundo (para outro pedaço de vidro), quase que instantaneamente.
Ou que tal dizer para um nova-iorquino do inicio do século seguinte que a distância que ele cobria em várias semanas para ir a Londres nos Queen Elizabeths da vida, seria em poucos anos percorrida em horas a bordo de (menos charmosos) “transatlânticos” alados.
Dizer que Jules Verne inventou o submarino é talvez mais preciso do que imaginar que ele o previu ou o profetizou. Ao imaginar o Nautilus, ele atiçou a engenhosidade humana até que essa o transformasse em realidade. Assim como Leo da Vinci, que só não construiu o helicóptero, o pára-quedas e sabe Deus mais o que, por falta de materiais e condições adequadas.
Nesse aspecto HG Wells foi além de Verne, “inventando” coisas que ainda nem puderam ser realizadas. Felizmente, por que nem quero imaginar o uso que os governos dariam a uma maquina do tempo.
Dias atrás vi na TV - por absoluta falta de opção - o velho documentário “Eram os Deuses Astronautas?” baseado no livro do Erik “Picareta” Von Daniken. Nunca simpatizei com as tais teorias que atribuem a alienígenas um papel de misto de arquitetos, mestre de obras e Caixa Econômica Federal das pirâmides egípcias, maias e astecas, alem de outras magníficas construções do passado.
O fato de homem moderno achar impossível levantar blocos de pedra imensos sem guindastes, simplesmente por que não consegue imaginar um mundo sem guindastes, só prova que perdemos muitas habilidades, mimados que somos pela vida moderna. Não há nada de tão tecnológico na antiguidade que corrobore com essas teses. Não se foi do machado para o raio laser imediatamente nem nada assim, embora coisas como aquele desenho do deus na “cápsula espacial” sejam bem impressionantes.
Já outras, só a primeira vista. Exemplo: As linhas de Nazca no Peru, a princípio impossíveis de serem desenhadas (ao menos sem o auxilio de máquinas voadoras ou gigantes venusianos) numa região onde não existem montanhas ou elevações, são explicáveis por modelos feitos com cordas em escala, e depois copiadas numa escala maior, simplesmente respeitando proporções.
Nunca estive em Nazca, mas fui duas vezes a Machupichu, que recomendo enormemente. A precisão do corte das pedras é cirúrgica e o fato do complexo estar praticamente pendurado nas nuvens, faz com que aquilo pareça impossível de ser construído, mesmo nos dias atuais.
Mas talvez seja essa exatamente a questão:
- Hoje, quando tudo tem de respeitar a lógica econômica e garantir o retorno financeiro, realmente é impossível ir alem das frágeis estruturas que construímos. Mas que tal se você, assim como o Inca ou o Faraó, não precisasse fazer contas e tivesse o poder de vida e morte sobre incontáveis trabalhadores, sem sindicatos ou leis trabalhistas, e nem fosse premido por essa bobagem chamada tempo?
Algumas técnicas são adquiridas ao longo do tempo, outras perdidas. Tente achar um bom retratista, como eram Rubens, Goya , Vermeer ou Rembrandt. Foram todos mortos pela fotografia.
Alem do mais, ficamos mais moles. Ninguém agüentaria uma viagem a cavalo que o imperador do Brasil, o Lula da época (sem Airbus), foi obrigado a fazer para declarar a independência em São Paulo. Paramos de nos nortear pelas estrelas que não vemos mais, ofuscadas pelas luzes da cidade e pelas facilidades do GPS.
Não ter de caçar para sobreviver é uma bênção, mas a caça abundante nas selvas amistosas do Wal-Mart nos causa problemas inversos, ligados a superalimentação.
Poderia continuar indefinidamente, mas não vai aqui nenhuma nostalgia do passado, que por sinal em muitos aspectos era medonho. Pense na vida antes da anestesia ou do vaso sanitário.
Só o reconhecimento que se paga um preço pela comodidade e física, nem que seja o da mensalidade da academia.
Sunday, September 19, 2010
tópicos sub tropicais (nauhelito para presidente)
bariloche, 07 de setembro
(aos meus companheiros de viagem, grandes e pequenos)
Nem o Nahuelito, a versão patagônica do monstro do Loch Ness, ou mesmo o Rato Perez, colega argentino da fada do dente. Muito menos o fantasma de Gardel. Nenhum ser real ou imaginario leva a serio os atuais moradores da Quinta de Olivos/Casa Rosada, suas bravatas e seu descaso para com a lógica e senso comum. Acontece que o povo daqui tem certo fetiche por esse tipo de gente, e ai não tem muito jeito.
K-macho pretende suceder K-fêmea (quem viria depois dele, ela de novo ou o K-chorro do casal?) mostrando que a tendência dos partidos únicos na America Latina é mesmo para valer, apesar do mau exemplo ainda insepulto do PRI mexicano, que reinou por setenta anos e ainda reina, mesmo fora do poder.
Mas não estou aqui para falar da dupla Pingüim Estrábico/Magra Patológica . Minha intenção é discorrer um pouco sobre aspectos da Argentina que me vem à mente quando penso nesse pais que me fascina desde que a falta de uma autorização especifica de nossos pais impediu meu irmão e eu, meninos, de embarcar com nossos avos num aliscafo através do Plata. Ficamos em Colônia do Sacramento no Uruguai durante o final de semana, consolados pela piscina do hotel e sob a guarda do anjo negro Seu Milton, misto de motorista e baba e figura marcante da minha infância. De vez em quando olhávamos para o rio barrento cujo nome me pareceu inadequado, imaginando um lugar mítico chamado Buenos Aires em algum ponto da outra margem.
- Gosto dos argentinos (mesmo dos portenhos), o que faz de mim um brasileiro raro. Fatalistas, cultos e com uma rara capacidade de fazer graça de si mesmos, por algum motivo me dão a impressão de viver mais intensamente do que nos. Torci por eles nessa ultima Copa após nossa desclassificação, sabendo que poderia significar Maradona presidente. Mesmo por que não faria a menor diferença.
- Quase tudo na historia argentina é mais intenso do que na do Brasil, como se a trilha sonora da nossa fosse bossa-nova e a deles, claro, tango. Ao contrário dos nossos barões do café que se contentavam em mandar nos políticos, os estancieiros aqui governavam eles próprios. Alguns caudilhos como Rosas, com o chicote na mão. Riquíssimos, esses senhores do campo moldaram a elite local a sua imagem e semelhança, enquanto nos tivemos principalmente em SP uma riqueza mais urbana e, portanto um pouco mais progressista. Perón, o Vargas daqui, foi muito mais nefasto do que o nosso, criando para sempre a noção/nação de nós (os justos) contra eles (os injustos) - não à toa o nome oficial de seu partido é Justicialista – dividindo os argentinos até mais que os militares antes e depois dele, como disse o grande Astor Piazolla. Seu movimento, turbinado por um culto a sua mulher precocemente morta e com pinta de santa do pau oco, acolheu desde nazistas fugitivos da Alemanha até guerrilheiros estalinistas, comparados aos quais os nossos Lamarca e Marighela eram escoteiros mirins. A ultima ditadura militar que reinou por aqui era quase toda de Frotas e Burniers, para quem o próprio Videla era muito blando. Seu lema: mataremos primero los subversivos, despues sus colaboradores, luego sus simpatizantes, e por fin los indiferientes. Resultado: 30.000 mortos.
- Os argentinos nutrem por nosotros um misto de admiração e desprezo. Eram mais industrializados até 1975 e, conseqüência da radicalização política e de um sindicalismo desenvolvido mas desvirtuado, perderam para nos a posição de queridos do capital internacional no sul da America. E se nos gabamos de ter hoje multinacionais brazucas, eles já as tinham há muito, como por exemplo a Bunge (Y Born) que depois de ter seus donos seqüestrados por peronistas de esquerda (uma contradição em termos já que o General era fã de Hitler e Mussolini e hospede de Franco) mudaram a sede para SP.
O pavor de se tornarem satélites do Brasil acabou por fazê-los quase reféns de gente muito mais perigosa, como o nosso velho conhecido Hugo Refugo, que (e isso vi na televisão Venezuelana na única noite que passei naquele buraco) trata Cristina com uma suspeitíssima intimidade.
- O motorista que nos leva para o aeroporto comenta da ingerência americana na Argentina, coisa que não ouço mais no BR nem dos petistas mais encarniçados. Parece mais um arroubo da lendária pretensão desse povo, ou será que os EUA se preocupam com a Argentina a essa altura do campeonato? Sei muito bem que num passado recente Kissinger e Cia fizeram bobagem apoiando facínoras locais, mas são erros menores na política externa americana quando se pensa que se eles não fossem intervencionistas, a suástica (ou a foice e martelo) ainda poderia estar tremulando no alto da Torre Eiffel.
- O gosto musical médio é muito melhor que o nosso. Nos bares do Cerro Catedral ouve-se boa musica dos anos 60/70 enquanto em seus similares nas praias brasileiras tocam coisas de lascar. Muitos artistas se apresentam somente em BA na America do Sul e mesmo gente como os Stones ou U2 cujo mega-custo de produção obriga a passar primeiro por outros países, se sentem muito mais a vontade diante da platéia argentina, mais sintonizada em musica popular universal do que o resto do continente.
- BA tem provavelmente mais cafés e livrarias do que o Brasil todo, e provavelmente mais psicólogos e psiquiatras por metro do que qualquer lugar do mundo, quase todos concentrados num bairro chamado Vila Freud.
- Embora SP seja hours concour em restaurantes, aqui é possível comer-se bem até em cidades pequenas, o que não ocorre norte da fronteira. Por outro lado, eles comem partes do boi que não daríamos nem para os cachorros.
- Temos Pelé, eles têm Maradona. Temos Tom, eles Piazzola. Para por ai. Eles vários prêmios Nobel, um ícone do comunismo mundial (o que não é pouco se pensarmos que nunca houve uma revolução comunista aqui) e um escritor universal, Borges (ah, espera ai, nós temos Paulo Coelho, cujo ultimo livro chama-se, ó vida, ó dia - o Aleph).
- O cinema entao, tudo que produzimos ate hoje , Galiber (o chato ) inclusive, nao pagam os primeiro cinco minutos de O Segredo de Tus Ojos.
No banca do aeroporto me chama a atenção um mapa da AL a venda, desses que representam cidades e acidentes geográficos em alto relevo e de forma desproporcional. BA aparece muito maior do que SP, Santiago não existe, e no canto inferior direito um arquipélago maior do que o Pólo Sul onde se le: Malvinas Argentinas.
(aos meus companheiros de viagem, grandes e pequenos)
Nem o Nahuelito, a versão patagônica do monstro do Loch Ness, ou mesmo o Rato Perez, colega argentino da fada do dente. Muito menos o fantasma de Gardel. Nenhum ser real ou imaginario leva a serio os atuais moradores da Quinta de Olivos/Casa Rosada, suas bravatas e seu descaso para com a lógica e senso comum. Acontece que o povo daqui tem certo fetiche por esse tipo de gente, e ai não tem muito jeito.
K-macho pretende suceder K-fêmea (quem viria depois dele, ela de novo ou o K-chorro do casal?) mostrando que a tendência dos partidos únicos na America Latina é mesmo para valer, apesar do mau exemplo ainda insepulto do PRI mexicano, que reinou por setenta anos e ainda reina, mesmo fora do poder.
Mas não estou aqui para falar da dupla Pingüim Estrábico/Magra Patológica . Minha intenção é discorrer um pouco sobre aspectos da Argentina que me vem à mente quando penso nesse pais que me fascina desde que a falta de uma autorização especifica de nossos pais impediu meu irmão e eu, meninos, de embarcar com nossos avos num aliscafo através do Plata. Ficamos em Colônia do Sacramento no Uruguai durante o final de semana, consolados pela piscina do hotel e sob a guarda do anjo negro Seu Milton, misto de motorista e baba e figura marcante da minha infância. De vez em quando olhávamos para o rio barrento cujo nome me pareceu inadequado, imaginando um lugar mítico chamado Buenos Aires em algum ponto da outra margem.
- Gosto dos argentinos (mesmo dos portenhos), o que faz de mim um brasileiro raro. Fatalistas, cultos e com uma rara capacidade de fazer graça de si mesmos, por algum motivo me dão a impressão de viver mais intensamente do que nos. Torci por eles nessa ultima Copa após nossa desclassificação, sabendo que poderia significar Maradona presidente. Mesmo por que não faria a menor diferença.
- Quase tudo na historia argentina é mais intenso do que na do Brasil, como se a trilha sonora da nossa fosse bossa-nova e a deles, claro, tango. Ao contrário dos nossos barões do café que se contentavam em mandar nos políticos, os estancieiros aqui governavam eles próprios. Alguns caudilhos como Rosas, com o chicote na mão. Riquíssimos, esses senhores do campo moldaram a elite local a sua imagem e semelhança, enquanto nos tivemos principalmente em SP uma riqueza mais urbana e, portanto um pouco mais progressista. Perón, o Vargas daqui, foi muito mais nefasto do que o nosso, criando para sempre a noção/nação de nós (os justos) contra eles (os injustos) - não à toa o nome oficial de seu partido é Justicialista – dividindo os argentinos até mais que os militares antes e depois dele, como disse o grande Astor Piazolla. Seu movimento, turbinado por um culto a sua mulher precocemente morta e com pinta de santa do pau oco, acolheu desde nazistas fugitivos da Alemanha até guerrilheiros estalinistas, comparados aos quais os nossos Lamarca e Marighela eram escoteiros mirins. A ultima ditadura militar que reinou por aqui era quase toda de Frotas e Burniers, para quem o próprio Videla era muito blando. Seu lema: mataremos primero los subversivos, despues sus colaboradores, luego sus simpatizantes, e por fin los indiferientes. Resultado: 30.000 mortos.
- Os argentinos nutrem por nosotros um misto de admiração e desprezo. Eram mais industrializados até 1975 e, conseqüência da radicalização política e de um sindicalismo desenvolvido mas desvirtuado, perderam para nos a posição de queridos do capital internacional no sul da America. E se nos gabamos de ter hoje multinacionais brazucas, eles já as tinham há muito, como por exemplo a Bunge (Y Born) que depois de ter seus donos seqüestrados por peronistas de esquerda (uma contradição em termos já que o General era fã de Hitler e Mussolini e hospede de Franco) mudaram a sede para SP.
O pavor de se tornarem satélites do Brasil acabou por fazê-los quase reféns de gente muito mais perigosa, como o nosso velho conhecido Hugo Refugo, que (e isso vi na televisão Venezuelana na única noite que passei naquele buraco) trata Cristina com uma suspeitíssima intimidade.
- O motorista que nos leva para o aeroporto comenta da ingerência americana na Argentina, coisa que não ouço mais no BR nem dos petistas mais encarniçados. Parece mais um arroubo da lendária pretensão desse povo, ou será que os EUA se preocupam com a Argentina a essa altura do campeonato? Sei muito bem que num passado recente Kissinger e Cia fizeram bobagem apoiando facínoras locais, mas são erros menores na política externa americana quando se pensa que se eles não fossem intervencionistas, a suástica (ou a foice e martelo) ainda poderia estar tremulando no alto da Torre Eiffel.
- O gosto musical médio é muito melhor que o nosso. Nos bares do Cerro Catedral ouve-se boa musica dos anos 60/70 enquanto em seus similares nas praias brasileiras tocam coisas de lascar. Muitos artistas se apresentam somente em BA na America do Sul e mesmo gente como os Stones ou U2 cujo mega-custo de produção obriga a passar primeiro por outros países, se sentem muito mais a vontade diante da platéia argentina, mais sintonizada em musica popular universal do que o resto do continente.
- BA tem provavelmente mais cafés e livrarias do que o Brasil todo, e provavelmente mais psicólogos e psiquiatras por metro do que qualquer lugar do mundo, quase todos concentrados num bairro chamado Vila Freud.
- Embora SP seja hours concour em restaurantes, aqui é possível comer-se bem até em cidades pequenas, o que não ocorre norte da fronteira. Por outro lado, eles comem partes do boi que não daríamos nem para os cachorros.
- Temos Pelé, eles têm Maradona. Temos Tom, eles Piazzola. Para por ai. Eles vários prêmios Nobel, um ícone do comunismo mundial (o que não é pouco se pensarmos que nunca houve uma revolução comunista aqui) e um escritor universal, Borges (ah, espera ai, nós temos Paulo Coelho, cujo ultimo livro chama-se, ó vida, ó dia - o Aleph).
- O cinema entao, tudo que produzimos ate hoje , Galiber (o chato ) inclusive, nao pagam os primeiro cinco minutos de O Segredo de Tus Ojos.
No banca do aeroporto me chama a atenção um mapa da AL a venda, desses que representam cidades e acidentes geográficos em alto relevo e de forma desproporcional. BA aparece muito maior do que SP, Santiago não existe, e no canto inferior direito um arquipélago maior do que o Pólo Sul onde se le: Malvinas Argentinas.
Friday, August 06, 2010
when blue turns to grey
Nassau, 28 de julho 2010
Friday, August 06, 2010
Quem conhece meu amigo
John dos Santos sabe que não estou exagerando. Brasileiro de nascimento, americano
por afinidade, Johnny fala um portuingles com genuíno sotaque texano, serviu no
Vietnã e acha Richard Nixon meio comunista. Apesar disso é um doce de
pessoa.Provavelmente o maior especialista no do trafego marítimo Brasil -
Estados Unidos em todo o mundo, tornou-se uma lenda no shipping por trabalhar
24/7, conhecer cada um dos portos entre a Terra do Fogo e o Maine melhor do que
os gerentes locais, e os navios da rota mais do que seus próprios
comandantes.Recentemente, já com certa idade, resolveu relaxar um pouco e
adquiriu o habito de mergulhar com tubarões. A cada chance que tem, sai mundo
afora em companhia da mulher atrás de dentuços submarinos, documentando tudo de
forma metódica em centenas de horas de filmagem.
Refere-se a esses animais
que aterrorizam o inconsciente de toda uma geração pós-Jaws (valeu Spilberg!)
como maricas ou democratas, o que para ele da no mesmo. Sharks are
all sissy man, all democrats, costuma dizer ao passar os filmes, pelo
fato dos tubarões evitarem o confronto direto com as estranhas criaturas de
pele de borracha, olhos de vidro e corcovas de ferro, principalmente quando tem
coisa melhor para comer.
Para ele opinião somente
os espécimes tigre e branco podem ser considerados “Republicans” do mar.
++++
Eu já havia estado em
Nassau em 73 durante um cruzeiro barato, no momento em que o príncipe Charles,
a bordo de uma fragata fundeada à proa do nosso Flávia “C”, assinava, por
procuração de mamãe, a independência das Bahamas.
Há quatro anos, justamente
na época das comemorações da independência, voltei aqui para trazer as crianças
para o ultra-kitsch mas bacanérrimo Atlantis, um theme resort cheio de
criaturas marinhas e com um parque aquático imenso.
Na ocasião pedi ao
Johnny que me indicasse uma operadora especializada em shark encounters, mas
acabei não mergulhando pois cometi o erro básico de marcar o mergulho para o
mesmo dia do vôo de volta para Miami. A pressão reversa, segundo o instrutor,
poderia ser fatal.
Dessa vez, quando junto
com os amigos Adri e Zé resolvemos trazer outros pequenitos para o mesmo
resort, programei a aventura de forma a ter um dia de intervalo entre os vôos,
e me preocupar somente em sobreviver aos predadores do mar.
Já no barco, fazemos
piadas e divagações de como os seres humanos somos capazes de pagar (e caro)
para expormo-nos a riscos como aquele que estávamos prestes a correr, ate
pararmos no lugar onde o mar do Caribe vai de azul piscina a indigo sem
qualquer aviso prévio, denotando uma abrupta mudança de profundidade. Ali acontece
o primeiro mergulho, mais como uma prévia do próximo.
Embora avistemos a
certa distancia os primeiros espécimes de Caribbeam Reef Shark, que é
exatamente o tubarão que imaginamos, quando imaginamos um tubarão,essa primeira
incursao ainda era só um aperitivo (para nos, não para eles).
Voltamos então para o
barco para sermos instruídos quanto ao segundo e definitivo encontro, que
consiste em um instrutor (que ao falar veste uma preocupante malha de ferro por
baixo da roupa de neuprenio) descer com uma caixa de peixes frescos, a ser
ofertada ao cardume enquanto nós incautos nos sentamos em um circulo
ritualístico, agarrados a pedras previamente posicionadas no fundo do mar.
A primeira e fundamental
regra, diz o instrutor é nunca esticar o braço, já que os bichos associam esse
movimento a oferta de comida. Seu maior risco ao fazê-lo não é o tubarão da
frente, que afinal você pode evitar recolhendo a mão, mas os outros que vem por
trás para disputar o acepipe.
Como na primeira descida eu
havia me adiantado e pulado na água antes dos demais, gastando
desnecessariamente o ar dos tanques, resolvi ficar por ultimo, o que me custou
momentos de pavor:
Pavlov explica. Os peixões
começam a circular a área assim que percebem mergulhadores que já haviam
descido se posicionando, portanto ao faze-lo, tive de atravessar uma
nuvem deles nadando por cima do “templo” , até poder agarrar em segurança (?) a
minha pedra.
Caixa aberta, o que
acontece só pode ser descrito como um enxame de tubarões em frenesi. No mínimo
duas dezenas passam por sobre nossas cabeças, roçam nossos braços, estapeiam
nossas faces com suas caudas e last but not least, vem em nossa direção para
desviar no ultimo segundo. Da ver de perto seus olhos inexpressivos de robô, e
ate restos de peixe entre os dentes.
Um deles tinha a boca
rasgada, provavelmente por um anzol, o que não melhorava nem um pouco seu
aspecto.
Lembrar das palavras de
Johnny não me foi la muito útil, já que sei que as piores guerras foram
iniciadas justamente pelos democratas Wilson, Roosevelt e JFK.
Por algum motivo associado
ao absurdo da situação e como se aquele estranho culto não estivesse realmente
acontecendo, me acomete um acesso de riso e uma vontade imensa de sinalizar
para os amigos ao meu lado, que trato de conter para evitar qualquer movimento
além do necessário. Nas fotos, apareço sempre com o polegar em riste, enquanto
o Zé por algum motivo protege o estomago. A outra, por eliminação é a Adri.
Passado uns minutos, a
musiquinha tema de Jaws desaparece das nossas cabeças e com ela o pavor, ai
passamos a admirar aquelas criaturas magníficas fazendo o que fazem melhor,
devorar os peixes.
Sunday, July 18, 2010
ilha dos papagaios
Moro ao lado de uma grande área verde. Hoje pela manhã, banho tomado, olho na janela e reparo um papagaio pousado num galho. Um papagaio clássico, desses que aprendem a falar. O velho louro das piadas de salão e dos lamentáveis programas de televisão.
Sem me dar conta de que os papagaios domésticos têm as asas cortadas, imaginei que se tratasse de um foragido de uma casa qualquer das redondezas. Abro janela do quarto silenciosamente,para não assustar o bicho, e quase caio de costas ao constatar que não havia apenas um e sim um bando deles, algo em torno de uns vinte, distribuídos pelos galhos da velha árvore, pela sacada do vizinho e pelo muro do meu prédio. Acordo meu filho e seu amigo russo, que chegou ontem de viagem (ainda de jet lag, camiseta e cuecas), que não entende nada quando lhe digo this is Brazil kid, now go back to sleep.
Já havia percebido que a tal área vizinha equivale a um porta-aviões, uma ilha, um porto seguro para aves silvestres em seus vôos por sobre a cidade. Sou acordado todas as manhãs por quero-queros raivosos, habitantes do local, e já vi de tudo por ali: gaviões, pássaros coloridos, gralhas. Mas, nunca um bando como aquele.
Sempre é bom lembrar que vivemos muito próximos a uma floresta tropical, que, a não ser pelo tamanho,em quase nada difere da selva amazônica. Pelo fato de voar, os pássaros talvez sejam as últimas criaturas a mudar de hábitos quando a cidade se estabelece. Além do mais, alguns bairros como o meu, são relativamente recentes. Lembro de histórias atemorizantes sobre um lugar longínquo chamado "Poço do Bacacheri", onde nadadores aventureiros frequentemente se afogavam. Trata-se hoje do bucólico e aprazível parque de mesmo nome em que costumo correr nos finais de semana.
De qualquer forma, tal visão, inédita, me devolveu um pouco da poesia perdida nesses dias de chateações com a vida prática que tenho enfrentado ultimamente.
Gostaria como Alexandre, de acreditar em presságios e sair por ai invadindo algumas Pérsias.
Tuesday, July 13, 2010
cepusculo
Prova definitiva que os vampiros não existem é que Fidel já teria arrumado um para mordê-lo e viver mais uns milêniosinhos. Vendo-o na TV ontem me dei conta que ele e a única figura mundial que me acompanha desde sempre. Perdi a conta do numero de aliados e inimigos que ele já enterrou.
Ao contrario do ex-colega Che Guevara que tinha um claro death wish, Fidel é o maior sobrevivente da historia recente. Saiu ileso de vários atentados reais e imaginários, sobreviveu ao ódio de alguns presidentes americanos e a indiferença de outros, à queda do bloco soviético e a posterior falta absoluta de tudo na ilha. Não duvido que acabada a mesada venezuelana não apareça outro padrinho, cuja vaidade e vontade de espezinhar os EUA garantam sobrevida ao decrépito regime, a cara de seu fundador.
E pensar que tudo começou com a vontade de um povo de ser verdadeiramente independente.
Saturday, July 10, 2010
bonequinhos estúpidos
Tenho visto modismos estúpidos nesses longos anos de vida, e poucas coisas são mais lamentáveis do que os “enfeites” que as pessoas penduram ou colam em seus carros.
Agora, esses bonequinhos adesivos que representam as famílias dos motoristas passaram da conta, superando inclusive aqueles decalques com nomes ultra-cafonas das tribos suburbanas.
Se alguém ainda não viu, trata–se de desenhos num traço infantil, quase stick figures representando o homem, a mulher, filhos, filhas, cães , gatos e até peixes e que são colados nos para choques.
Não bastasse ser mais um atentado a já combalida estética urbana, funciona, a meu ver como um convite aos bandidos para que telefonem para seu escritório ameaçando sua família, que eles sabem dizer exatamente a composição. Experiente tentar lembrar-se desse detalhe na hora do nervosismo.
Há muitos anos fiz um rápido curso de segurança pessoal, com um palestrante inglês ex forças especiais. Entre várias outras dicas importantes, ele desaconselhou terminantemente que colássemos qualquer adesivo no carro, o que ajudaria a confundir um eventual perseguidor no transito. Quem nunca viu uma mulher (ou homem, dependendo da preferência do/da expensive reader) bonita parada no sinal e tempos depois reconheceu seu carro no estacionamento do shopping, justamente por um adesivo colado ou outro detalhe qualquer ? Se fossemos todos Chicos Picadinho, era só ficar esperando pela guapa no banco de trás, e ai colar mais uma bonequinha na faca..
Mas como minha maldade tem limite, o maximo que imaginei foi colar dois homenzinhos de mãos dadas no carro do vizinho do andar de cima, que insiste em implicar com meus cachorros.
Agora, esses bonequinhos adesivos que representam as famílias dos motoristas passaram da conta, superando inclusive aqueles decalques com nomes ultra-cafonas das tribos suburbanas.
Se alguém ainda não viu, trata–se de desenhos num traço infantil, quase stick figures representando o homem, a mulher, filhos, filhas, cães , gatos e até peixes e que são colados nos para choques.
Não bastasse ser mais um atentado a já combalida estética urbana, funciona, a meu ver como um convite aos bandidos para que telefonem para seu escritório ameaçando sua família, que eles sabem dizer exatamente a composição. Experiente tentar lembrar-se desse detalhe na hora do nervosismo.
Há muitos anos fiz um rápido curso de segurança pessoal, com um palestrante inglês ex forças especiais. Entre várias outras dicas importantes, ele desaconselhou terminantemente que colássemos qualquer adesivo no carro, o que ajudaria a confundir um eventual perseguidor no transito. Quem nunca viu uma mulher (ou homem, dependendo da preferência do/da expensive reader) bonita parada no sinal e tempos depois reconheceu seu carro no estacionamento do shopping, justamente por um adesivo colado ou outro detalhe qualquer ? Se fossemos todos Chicos Picadinho, era só ficar esperando pela guapa no banco de trás, e ai colar mais uma bonequinha na faca..
Mas como minha maldade tem limite, o maximo que imaginei foi colar dois homenzinhos de mãos dadas no carro do vizinho do andar de cima, que insiste em implicar com meus cachorros.
Monday, June 14, 2010
rock dreams IV
last Day, dream almost over
Passamos a manhã no Joint, já que as bandas iriam para Liverpool, no domingo, tocar no outro templo dos Beatles, o Cavern Club. Na chegada eu havia avisado que não poderia ir, já que teria de “acordar” no domingo e logo embarcar para Paris, onde minha semana trabalho começaria.
Após o almoço, voltamos para o Abbey Road para mixar as gravações e assistir um showzinho de despedida com os counsellors tocando um medley dos Beatles, que ensaiariam e executariam às nossas vistas. E, como se ainda fosse necessário reforçar o time, David traz Nick Mason, batera do Pink Floyd.
Antes da apresentação, todo mundo na sala de som do stúdio 3 para ouvir o resultado das gravações, Allan e Nick inclusos. Entre as três canções que havíamos gravado, Joye escolhe mostrar justamente Crossroads - a que eu havia tocado pior, atravessando um solo e saindo da escala por duas vezes.
Para minha sorte, a banda de Allan apresentou, além de uma boa versão de “Born Under a Bad Sign”, com Jack no baixo, outra composta e cantada por um camper, que iria casar na semana seguinte e pedira para mostrar para a noiva ali presente. O rapaz cantava tão mal que eu acabei soando como Jeff Beck, principalmente porque convidei o tal cantor para formar uma banda, para a risada geral.
Nick conta então como foi gravar, naquele mesmo lugar, aquele que seria simplesmente o disco mais vendido de todos os tempos , o “Dark Side of The Moon”, com a formação clássica da banda: Gilmour, Waters, Rick Wright e ele. Perguntado a respeito, disse preferir a fase com Syd Barret (mas, para bom entendedor de Floyd, aquela meia afirmação soou como evidente demonstração de ressentimento com o genial e mais difícil “Rogério Aquático”, que assumiu as rédeas da banda quando Syd entrou em órbita).
Depois do ultra cool ensemble com Allan White, do Yes, e Nick Mason, do Pink Floyd, nas baterias (verdadeiro sonho para qualquer admirador de rock progressivo e música em geral), com que nossos mestres nos brindaram com versões de Hey Buldog/Cold Turkey/ She is So Heavy/Revolution/The End , saio de fininho e, antes de ir embora, passo na sala de Natasha para deixar um pequeno recuerdo. Uma camiseta de um show de Bob Dylan (seu grande ídolo) que ganhei do Alipio (que, tenho certeza, não se importará de saber o destino que dei a ela) and in return ela me da a biografia de Jack que trouxe de casa, devidamente assinada por ele e pelo papi..
And, in the end, the love you take....
Passamos a manhã no Joint, já que as bandas iriam para Liverpool, no domingo, tocar no outro templo dos Beatles, o Cavern Club. Na chegada eu havia avisado que não poderia ir, já que teria de “acordar” no domingo e logo embarcar para Paris, onde minha semana trabalho começaria.
Após o almoço, voltamos para o Abbey Road para mixar as gravações e assistir um showzinho de despedida com os counsellors tocando um medley dos Beatles, que ensaiariam e executariam às nossas vistas. E, como se ainda fosse necessário reforçar o time, David traz Nick Mason, batera do Pink Floyd.
Antes da apresentação, todo mundo na sala de som do stúdio 3 para ouvir o resultado das gravações, Allan e Nick inclusos. Entre as três canções que havíamos gravado, Joye escolhe mostrar justamente Crossroads - a que eu havia tocado pior, atravessando um solo e saindo da escala por duas vezes.
Para minha sorte, a banda de Allan apresentou, além de uma boa versão de “Born Under a Bad Sign”, com Jack no baixo, outra composta e cantada por um camper, que iria casar na semana seguinte e pedira para mostrar para a noiva ali presente. O rapaz cantava tão mal que eu acabei soando como Jeff Beck, principalmente porque convidei o tal cantor para formar uma banda, para a risada geral.
Nick conta então como foi gravar, naquele mesmo lugar, aquele que seria simplesmente o disco mais vendido de todos os tempos , o “Dark Side of The Moon”, com a formação clássica da banda: Gilmour, Waters, Rick Wright e ele. Perguntado a respeito, disse preferir a fase com Syd Barret (mas, para bom entendedor de Floyd, aquela meia afirmação soou como evidente demonstração de ressentimento com o genial e mais difícil “Rogério Aquático”, que assumiu as rédeas da banda quando Syd entrou em órbita).
Depois do ultra cool ensemble com Allan White, do Yes, e Nick Mason, do Pink Floyd, nas baterias (verdadeiro sonho para qualquer admirador de rock progressivo e música em geral), com que nossos mestres nos brindaram com versões de Hey Buldog/Cold Turkey/ She is So Heavy/Revolution/The End , saio de fininho e, antes de ir embora, passo na sala de Natasha para deixar um pequeno recuerdo. Uma camiseta de um show de Bob Dylan (seu grande ídolo) que ganhei do Alipio (que, tenho certeza, não se importará de saber o destino que dei a ela) and in return ela me da a biografia de Jack que trouxe de casa, devidamente assinada por ele e pelo papi..
And, in the end, the love you take....
rock dreams
Dia IV - a whole lot of vaginas
Antes que o dia anterior terminasse, Natasha /Aruba se apresenta numa das salas do Joint com sua banda mínima e minimalista: um violonista vietnamita, duas garotas africanas nos vocais de apoio e um percussionista chileno que toca basicamente carrom e tablas. Talvez, por um mecanismo freudiano qualquer, ela, que é umbilicalmente ligada a Jack, não tem um baixista na banda.
O grande acontecimento do dia seguinte foi a vista de Chris Squire, o gentle giant baixista do Yes, que me lembra meu amigo Boris com uns anos a mais. Bonachão e feliz, traz com ele sua mulher e a filhinha que não deve ter mais de três meses - embora Squire tenha 62.
Tocamos “Owner of a Lonly Heart” (que aprendi no intervalo do almoço) junto com ele e Alan. Para minha sorte, os dois yesman topam tocar essa, quatro acordes e um riff básico, pinçada de um repertório intrincado e difícil, pois qualquer outra seria um desrespeito ao ausente Steve Howe.
Somos avisados que à noite iríamos tocar num inferninho em Denmark Street, cujo palco mínimo impõe um set acústico. Chegada a hora, ficamos por último na fila. Cada banda pode tocar somente uma música. Todas as outras soam bastante bem. Algumas, até surpreendem, levando em conta o amadorismo dos campers e a exigüidade do tempo. O que é fácil de entender: embora Joye seja um bom band leader e um guitarrista dos melhores que já vi, entre os outros counselors estava gente como Spike Edney, arranjador e produtor musical dos Stones, Queem e Elton John, além de shows no West End - a Broadway londrina. Seu “We Will Rock You”, musical baseado na musica do Queen, está há tanto tempo em cartaz que o teatro onde o show é apresentado pendurou no teto até uma mega-kitsch estátua dourada de Fred Mercury.
Cada banda se comprometeu (ah, o humor inglês...) a se chamar vagina alguma coisa. Alan, por exemplo, batizou a sua como Plastic Vagina Band. A minha, por falta de piada melhor, Vajonas Brothers, embora Carol insistisse em Pipe Dreams.
Decidimos fazer ao vivo um canção que compusemos (e com a qual tive pouco a ver) durante os ensaios: uma bobagem ecológica, mas com uma bela melodia. Nossa cantora-problema surta no meio da música e sai do palco, me obrigando a improvisar com Joey um duelo de solos de violão, durante o qual o Badfinger tem o cuidado de não me humilhar muito.
Antes que o dia anterior terminasse, Natasha /Aruba se apresenta numa das salas do Joint com sua banda mínima e minimalista: um violonista vietnamita, duas garotas africanas nos vocais de apoio e um percussionista chileno que toca basicamente carrom e tablas. Talvez, por um mecanismo freudiano qualquer, ela, que é umbilicalmente ligada a Jack, não tem um baixista na banda.
O grande acontecimento do dia seguinte foi a vista de Chris Squire, o gentle giant baixista do Yes, que me lembra meu amigo Boris com uns anos a mais. Bonachão e feliz, traz com ele sua mulher e a filhinha que não deve ter mais de três meses - embora Squire tenha 62.
Tocamos “Owner of a Lonly Heart” (que aprendi no intervalo do almoço) junto com ele e Alan. Para minha sorte, os dois yesman topam tocar essa, quatro acordes e um riff básico, pinçada de um repertório intrincado e difícil, pois qualquer outra seria um desrespeito ao ausente Steve Howe.
Somos avisados que à noite iríamos tocar num inferninho em Denmark Street, cujo palco mínimo impõe um set acústico. Chegada a hora, ficamos por último na fila. Cada banda pode tocar somente uma música. Todas as outras soam bastante bem. Algumas, até surpreendem, levando em conta o amadorismo dos campers e a exigüidade do tempo. O que é fácil de entender: embora Joye seja um bom band leader e um guitarrista dos melhores que já vi, entre os outros counselors estava gente como Spike Edney, arranjador e produtor musical dos Stones, Queem e Elton John, além de shows no West End - a Broadway londrina. Seu “We Will Rock You”, musical baseado na musica do Queen, está há tanto tempo em cartaz que o teatro onde o show é apresentado pendurou no teto até uma mega-kitsch estátua dourada de Fred Mercury.
Cada banda se comprometeu (ah, o humor inglês...) a se chamar vagina alguma coisa. Alan, por exemplo, batizou a sua como Plastic Vagina Band. A minha, por falta de piada melhor, Vajonas Brothers, embora Carol insistisse em Pipe Dreams.
Decidimos fazer ao vivo um canção que compusemos (e com a qual tive pouco a ver) durante os ensaios: uma bobagem ecológica, mas com uma bela melodia. Nossa cantora-problema surta no meio da música e sai do palco, me obrigando a improvisar com Joey um duelo de solos de violão, durante o qual o Badfinger tem o cuidado de não me humilhar muito.
Wednesday, June 09, 2010
Rock Dreams Dia III – Jack of All trades
WEDNESDAY, JUNE
09, 2010
Rock Dreams Dia III – Jack of All trades
Ainda tenho vários vinis do
Cream e pensei em trazer um deles para que Jack autografasse. Decidi finalmente
que seria mais bacana comprar sua recente biografia, escrita por um tal de
Harry Shapiro. Um livro com dedicatória é sempre um objeto mágico para mim.
Percorri algumas livrarias de Londres e nada. Mas encontrei e acabei comprando, entretanto, a autobiografia Hellraiser de Ginger Baker, outro terço do Cream, não para que Jack autografasse, mas para ler mesmo. Sou fã não só do genial baterista que é Ginger, mas também do personagem idiossincrático, mau humorado e ranzinza. Um rock star que odeia rock and roll e resiste a fazer concessões.
À moda Rimbaud, Ginger largou tudo, no auge da fama, em 1970, e se mandou para a África. Nesse embalo, perdeu tudo e até fome passou. Foi fazendeiro na Toscana, criador de cavalos de pólo, corredor de rali e chegou a tocar com Johnny Rotten, dos Sex Pistols.
Ocorre que, apesar de se amarem como músicos, Jack e Ginger se odeiam tanto como pessoas que o ruivo baterista passa o livro inteiro traçando um perfil terrível do baixista, a quem chama o tempo todo de "Jack and Hyde".
Percorri algumas livrarias de Londres e nada. Mas encontrei e acabei comprando, entretanto, a autobiografia Hellraiser de Ginger Baker, outro terço do Cream, não para que Jack autografasse, mas para ler mesmo. Sou fã não só do genial baterista que é Ginger, mas também do personagem idiossincrático, mau humorado e ranzinza. Um rock star que odeia rock and roll e resiste a fazer concessões.
À moda Rimbaud, Ginger largou tudo, no auge da fama, em 1970, e se mandou para a África. Nesse embalo, perdeu tudo e até fome passou. Foi fazendeiro na Toscana, criador de cavalos de pólo, corredor de rali e chegou a tocar com Johnny Rotten, dos Sex Pistols.
Ocorre que, apesar de se amarem como músicos, Jack e Ginger se odeiam tanto como pessoas que o ruivo baterista passa o livro inteiro traçando um perfil terrível do baixista, a quem chama o tempo todo de "Jack and Hyde".
Como se já não fosse "scary enough"
o fato de Jack - com quem iríamos tocar dali a poucas horas - ser um dos
maiores músicos do mundo, a possibilidade de ele ser io ser humano horrível que
Baker descrevera.. (No dia seguinte,
quando conto para Alan White minha preocupação, ele, que segundo suas próprias
palavras passou "six months in hell" tocando na Ginger Baker
Airforce, me reporta alguns “causos” que me fazem perceber quem de fato é o
verdadeiro personagem de Stevenson.)
Eis que estamos na sala de controle em Abbey Road quando entra Natasha, e, logo atrás dela, vestindo uma jaqueta preta com um pin da bandeira cubana cravado na lapela (Jack e filho de comunistas escoceses) e óculos do tipo aviador espelhados, alguém que não faz a menor idéia de quem eu seja, mas cujo repertório conheço tão bem quanto meu próprio quarto, e cuja carreira acompanho atentamente desde os meus dezessete anos.
Enquanto Jack Bruce cumprimenta os outros campers, digo a Princess Natasha que me sinto como Osama Bin Laden prestes a conhecer Maomé. Ou o próprio Alah.
Eis que estamos na sala de controle em Abbey Road quando entra Natasha, e, logo atrás dela, vestindo uma jaqueta preta com um pin da bandeira cubana cravado na lapela (Jack e filho de comunistas escoceses) e óculos do tipo aviador espelhados, alguém que não faz a menor idéia de quem eu seja, mas cujo repertório conheço tão bem quanto meu próprio quarto, e cuja carreira acompanho atentamente desde os meus dezessete anos.
Enquanto Jack Bruce cumprimenta os outros campers, digo a Princess Natasha que me sinto como Osama Bin Laden prestes a conhecer Maomé. Ou o próprio Alah.
Ela ri, me apresenta ao seu pai e tudo que me
ocorre dizer é... “ nice to meet you, mr. Bruce, you are my all-time second favorite
performer”. E, antes que ele devolvesse a
provocação, emendo com um “... since my favorite is Natasha”.
“Here is a very diplomatic man”, responde ele com uma voz metálica, quase inexistente, que em quase nada se parece com o genial barítono que é quando canta.
Joye , nosso band leader, explica então a Jack que não faremos, como os outros campers, covers literais das versões do Cream, e sim uma releitura de CROSSROADS. Jack responde que isso é bom, até porque como não era ele que cantava no original, mas Eric. Que tal se ele tocasse piano ao invés de baixo? Na hora fiquei desapontado, mas tratei de correr para dentro do piano boot com ele, que me brindou com uns bons três minutos de uma private session de um belíssimo improviso à la MonkJack, enquanto os outros se preparavam.
A sessão saiu caótica mas saiu, com um Jack paciente e bem humorado, mesmo com as atravessadas de Carol (a cantora). Na hora do meu solo, achei que, tal como uma cena de Família Adams, minha mão ia pular fora e sair correndo, mas fui até o final - entrando para o panteão junto com Clapton, Leslie West, Gary Moore, John Mclaughlin, Mick Taylor, Clem Clemson, Rory Galagher ,Andy Summers, Vernon Reid, Joe Bonamassa, Albert Collins, Robin Trower, to name a few.
Jack e Natasha, em seguida, se acomodam no sofá do estúdio esperando que a próxima banda que iria fazer uma versão chupada de White Room se aprontasse, enquanto me mantenho, timidamente, a distância. Noto que ela faz algum comentário no ouvido do pai a meu respeito e ele faz um sinal com a mão para que me aproxime. E assim, de repente, estou sentado junto deles no sofá, discutindo Tom Jobim ( a quem Jack reconhece dever algumas pedras) e o preço dos tickets dos cambistas no show do Cream que digo a ele ter assistido, em 2005. Ele me conta que ficara orgulhoso poucos dias atrás, quando, junto com a mulher Margit, do lado de fora de um show de Natasha, um cambista quis lhe vender um ticket por um preço bem mais alto do que o da bilheteria. Quando disse que era o pai da cantora, o cara duvidou. Respondo que deveria ter comprado e mandado emoldurar, e ele devolve na tampa - come on man, I'm scotish, fazendo referência à proverbial "pãodurisse" de seu povo.
Lá vai ele então, tocar com a segunda banda, enquanto eu, babando no vidro, constato que a voz continua lá e que o baixo Warwick Fretless começa a soar familiar. Ao final, quando o baterista da segunda banda se desculpa por não saber tocar como Baker, Jack responde – at least you are not going to put a knife between my ribs, man .
“Here is a very diplomatic man”, responde ele com uma voz metálica, quase inexistente, que em quase nada se parece com o genial barítono que é quando canta.
Joye , nosso band leader, explica então a Jack que não faremos, como os outros campers, covers literais das versões do Cream, e sim uma releitura de CROSSROADS. Jack responde que isso é bom, até porque como não era ele que cantava no original, mas Eric. Que tal se ele tocasse piano ao invés de baixo? Na hora fiquei desapontado, mas tratei de correr para dentro do piano boot com ele, que me brindou com uns bons três minutos de uma private session de um belíssimo improviso à la MonkJack, enquanto os outros se preparavam.
A sessão saiu caótica mas saiu, com um Jack paciente e bem humorado, mesmo com as atravessadas de Carol (a cantora). Na hora do meu solo, achei que, tal como uma cena de Família Adams, minha mão ia pular fora e sair correndo, mas fui até o final - entrando para o panteão junto com Clapton, Leslie West, Gary Moore, John Mclaughlin, Mick Taylor, Clem Clemson, Rory Galagher ,Andy Summers, Vernon Reid, Joe Bonamassa, Albert Collins, Robin Trower, to name a few.
Jack e Natasha, em seguida, se acomodam no sofá do estúdio esperando que a próxima banda que iria fazer uma versão chupada de White Room se aprontasse, enquanto me mantenho, timidamente, a distância. Noto que ela faz algum comentário no ouvido do pai a meu respeito e ele faz um sinal com a mão para que me aproxime. E assim, de repente, estou sentado junto deles no sofá, discutindo Tom Jobim ( a quem Jack reconhece dever algumas pedras) e o preço dos tickets dos cambistas no show do Cream que digo a ele ter assistido, em 2005. Ele me conta que ficara orgulhoso poucos dias atrás, quando, junto com a mulher Margit, do lado de fora de um show de Natasha, um cambista quis lhe vender um ticket por um preço bem mais alto do que o da bilheteria. Quando disse que era o pai da cantora, o cara duvidou. Respondo que deveria ter comprado e mandado emoldurar, e ele devolve na tampa - come on man, I'm scotish, fazendo referência à proverbial "pãodurisse" de seu povo.
Lá vai ele então, tocar com a segunda banda, enquanto eu, babando no vidro, constato que a voz continua lá e que o baixo Warwick Fretless começa a soar familiar. Ao final, quando o baterista da segunda banda se desculpa por não saber tocar como Baker, Jack responde – at least you are not going to put a knife between my ribs, man .
Acompanho pai e filha até a porta do Abbey Road e vejo Jack despedir-se de Natasha com um beijo na mão, e chamando-a de Milady embarca num fantástico Bentley esportivo, cujo logotipo, apropriadamente, é um "B" entre asinhas de anjo
Tuesday, June 01, 2010
Rock Dreams II
Primeiro dia – The Road to Abbey Road
Antes de irmos para os estúdios, galera reunida no café da manhã do hotel, David faz o inevitável discurso de boas vindas e apresentaçao do staff. Noto uma garota que nos é apresentada simplesmente como "Natasha". Levo dois segundos para reconhecer que "Natasha" é Natasha Eleonoré Bruce, filha de Jack, que canta uma bela mistura de música caribenha e pop inglês, usando o "alias" Aruba Red. Como ninguém mais fez a conexão, tratei de guardar para mim e na primeira oportunidade pedi para que tirasse uma foto comigo, apresentado-me com um fã de seu pai e de sua música. Natasha/Aruba se tornaria uma amiga, mas naquele momento pareceu surpresa com minha atitude - afinal, ela não estava lá como celebridade e sim como assistente do produtor.
Minha banda, além de Joye, tinha quatro americanos (baixo, teclado, bateria) e Carol, a cantora: também americana, de meia idade, visivelmente mal resolvida, mas que cantava (quando conseguia) como Margo Timmins, dos Cowboys Junkies.
Carol foi o céu e o inferno da banda. Desde o primeiro momento, ficou claro que tinha uma bela voz mas sofria de uma imensa síndrome de pânico, o que, aliado ao fato de não ter experiência de banda, se tornaria explosivo. Na verdade, de pouco serve saber tocar um instrumento ou cantar se não se tem bagagem de tocar em grupo (eu, por exemplo, sou um guitarrista próximo do medíocre, mas sei me integrar em um) e isso leva tempo. Joye, como bom "liverpoolian", perdeu a paciência com ela no primeiro ensaio e a premiou com um gancho de duas horas fora da sala. Mas, o mesmo Joye, macaco velho, logo identificou uma canção que ela acertaria, e assim conseguimos uma versão de "You Make Loving Fun", do Fleetwood Mac, que gravaríamos à tarde no Abbey Road.
Cada banda recebeu também uma música do Cream para ensaiar, a fim de receber Jack dali a dois dias. Para nós, foi dada "Crossroads" (embora eu tivesse pedido "Politician"). Carol teve problemas sérios para acertar a canção de Robert Johnson, o que acabou rendendo uma versão bem diferente da original, do Cream, e que, ao final das contas, agradou a Jack (mas isso já é outra historia).
Eu nunca tive uma experiência religiosa de verdade, mas entrar no Abbey Road chegou perto. Começa pela famosa e histórica faixa na rua, que gente do mundo inteiro passa o dia atravessando, para desespero dos motoristas que moram nas redondezas. Alguns até tiram o sapato para simular Paul, que, à época da foto, supostamente estaria morto. Há, inclusive, uma e-câmera escondida, filmando aquele trecho da rua 24 horas por dia, cujo link não consegui achar.
Nossa primeira session foi no estudio 2, onde o “Let it Be”, e, mais recentemente, o altamente recomendável “Chaos and Creation in Abbey Road”, do Paul, foram gravados. Trata-se de um espaço enorme, com um pé direito de uns oito metros e um mezanino onde ficam os técnicos e a mesa. O que posso dizer? Tecnicamente, o estúdio é impecavel e muita coisa é feita de forma analógica. Por exemplo: quando eu precisei de um efeito flanger para a guitarra, ao invés de apertar um botão na mesa ou usar um pequeno pedal, os técnicos trouxeram um imenso amplificador Leslie, com aquela cornetinha dupla rodando dentro e tudo mais. O som, claro, saiu fantástico. Tudo muito inglês, tudo muito perfeito. Nossa versão para "Making Love Fun" saiu surpreendentemente bela. Carol cantou, a meu ver, melhor do que a original, com Stevie Nicks ou Christy Mcvie, não sei bem.
Cada banda recebeu também uma música do Cream para ensaiar, a fim de receber Jack dali a dois dias. Para nós, foi dada "Crossroads" (embora eu tivesse pedido "Politician"). Carol teve problemas sérios para acertar a canção de Robert Johnson, o que acabou rendendo uma versão bem diferente da original, do Cream, e que, ao final das contas, agradou a Jack (mas isso já é outra historia).
Eu nunca tive uma experiência religiosa de verdade, mas entrar no Abbey Road chegou perto. Começa pela famosa e histórica faixa na rua, que gente do mundo inteiro passa o dia atravessando, para desespero dos motoristas que moram nas redondezas. Alguns até tiram o sapato para simular Paul, que, à época da foto, supostamente estaria morto. Há, inclusive, uma e-câmera escondida, filmando aquele trecho da rua 24 horas por dia, cujo link não consegui achar.
Nossa primeira session foi no estudio 2, onde o “Let it Be”, e, mais recentemente, o altamente recomendável “Chaos and Creation in Abbey Road”, do Paul, foram gravados. Trata-se de um espaço enorme, com um pé direito de uns oito metros e um mezanino onde ficam os técnicos e a mesa. O que posso dizer? Tecnicamente, o estúdio é impecavel e muita coisa é feita de forma analógica. Por exemplo: quando eu precisei de um efeito flanger para a guitarra, ao invés de apertar um botão na mesa ou usar um pequeno pedal, os técnicos trouxeram um imenso amplificador Leslie, com aquela cornetinha dupla rodando dentro e tudo mais. O som, claro, saiu fantástico. Tudo muito inglês, tudo muito perfeito. Nossa versão para "Making Love Fun" saiu surpreendentemente bela. Carol cantou, a meu ver, melhor do que a original, com Stevie Nicks ou Christy Mcvie, não sei bem.
A poucos metros de nós, Miss Lizzy, o Steinway Grand Piano cujo som sobrenatural pode ser ouvido em "Let it Be", "Lady Madonna" e outras, nos concedia a honra de sua atenção
Sunday, May 30, 2010
rock dreams
The diference between a man and a boy is the price of the toys”
ditado inglês
A diferença entre um homem e um menino é o preço dos brinquedos. De certa forma, trabalhamos na idade adulta porque ninguém mais quer comprá-los para nós.
ditado inglês
A diferença entre um homem e um menino é o preço dos brinquedos. De certa forma, trabalhamos na idade adulta porque ninguém mais quer comprá-los para nós.
Nessa linha, e aproveitando que tinha que ir à Paris a trabalho, resolvi me matricular no "Rock and Roll Fantasy Camp" desse ano, que aconteceria em Londres uma semana antes.
Trata-se de uma iniciativa bem bolada de David Fishoff, empresário do showbusiness que fez muito dinheiro promovendo reuniões de bandas famosas. (David nos contou, ao longo do "camping", algumas histórias interessantes sobre como toureou birras históricas entre membros de grupos extintos, lidando com egos do tamanho do Big Ben e brigas piores do que a guerra da Criméia. Surprise, surprise, George teria sido o único a recusar sua oferta de cem milhões de dólares para os que os Beatles fizessem uma série de concertos, em 1979. Segundo ele, apesar de todo o “Hare Krishna" e "Maharishi bullshit”, Harrison era um “real angry man”, e John, o idiossincrático ao olhos do público, "a very sweet guy” Mais ou menos como os amigos de Paulo Francis, outro tipo difícil aos olhos da platéia, o definem.
A princípio, fiquei um pouco apreensivo imaginando que tudo poderia não passar de um caça-níquel patrocinado por um espertalhão como uma forma de empregar velhos roqueiros decadentes, mas resolvi topar a empreitada - especialmente, porque teria a chance de conhecer e tocar com meu herói musical, Jack Bruce.
A princípio, fiquei um pouco apreensivo imaginando que tudo poderia não passar de um caça-níquel patrocinado por um espertalhão como uma forma de empregar velhos roqueiros decadentes, mas resolvi topar a empreitada - especialmente, porque teria a chance de conhecer e tocar com meu herói musical, Jack Bruce.
Felizmente eu estava enganado, já que se trata, sim, de uma iniciativa comercial (não diga?), mas também de um “labour of love” de gente que ama a música acima de tudo (vimos, numa "gig", que até o motorista do ônibus toca numa banda bem decente de "Johnny Cash covers").
É bacanérrimo ver gente riquíssima, como o ultra gente fina Alan White, do Yes, um dos "counselors", fazendo jus à tradição das sociedades do "primeiro mundo" de levar muito a sério o ato de ensinar os outros (que, no final das contas, é o grande segredo do sucessos dessas mesmas sociedades). Convivemos e fomos orientados por gente como Alan, a baterista de "Imagine" (só!) e o sujeito que, em 69, pegou um avião no meio da noite, com Eric Clapton e Klaus Voorman (recrutados por John Lennon sem ensaio prévio e informados do que se tratava apenas durante o vôo), para se apresentarem naquele histórico concerto em Toronto.
Os "counselors", ou seja, os "band leaders", ensaiavam conosco de manhã, num estúdio próprio para esse fim, o Joint, na Field Street, e dali saíamos para gravar o resultado na "Meca" dos músicos: o "sagrado" Abbey Road, localizado na mesma rua, a poucos metros de onde a famosa foto da capa do álbum de mesmo nome foi tirada (clicada).
O meu "band leader" era Joye Molland - para quem não sabe (e eu não sabia), o guitarrista do Badfinger, a primeira e única "outra banda" contratada pela Apple, a gravadora dos Beatles. O nome da banda - ele entregou - saiu da constatação de que John tocava muito mal piano (?) e cada vez que o fazia os outros chamavam aquilo de "badfinger boogie". Se você entrar no UTube, na cena do "Concerto para Bangladesh" em que George apresenta a banda (e que banda: EC, Billy Preston, Klaus Voorman, Ringo, Jim Keltner, Leon Russel e Billy Preston) vai ver Joye e os outros "badfingers" por lá . Joye toca guitarra como um verdadeiro "hero" e participou, junto com Alan, das gravações de "Jelous Guy" do álbum "Imagine".
É bacanérrimo ver gente riquíssima, como o ultra gente fina Alan White, do Yes, um dos "counselors", fazendo jus à tradição das sociedades do "primeiro mundo" de levar muito a sério o ato de ensinar os outros (que, no final das contas, é o grande segredo do sucessos dessas mesmas sociedades). Convivemos e fomos orientados por gente como Alan, a baterista de "Imagine" (só!) e o sujeito que, em 69, pegou um avião no meio da noite, com Eric Clapton e Klaus Voorman (recrutados por John Lennon sem ensaio prévio e informados do que se tratava apenas durante o vôo), para se apresentarem naquele histórico concerto em Toronto.
Os "counselors", ou seja, os "band leaders", ensaiavam conosco de manhã, num estúdio próprio para esse fim, o Joint, na Field Street, e dali saíamos para gravar o resultado na "Meca" dos músicos: o "sagrado" Abbey Road, localizado na mesma rua, a poucos metros de onde a famosa foto da capa do álbum de mesmo nome foi tirada (clicada).
O meu "band leader" era Joye Molland - para quem não sabe (e eu não sabia), o guitarrista do Badfinger, a primeira e única "outra banda" contratada pela Apple, a gravadora dos Beatles. O nome da banda - ele entregou - saiu da constatação de que John tocava muito mal piano (?) e cada vez que o fazia os outros chamavam aquilo de "badfinger boogie". Se você entrar no UTube, na cena do "Concerto para Bangladesh" em que George apresenta a banda (e que banda: EC, Billy Preston, Klaus Voorman, Ringo, Jim Keltner, Leon Russel e Billy Preston) vai ver Joye e os outros "badfingers" por lá . Joye toca guitarra como um verdadeiro "hero" e participou, junto com Alan, das gravações de "Jelous Guy" do álbum "Imagine".
Brincadeira?
Thursday, April 15, 2010
to beatles or not to beatles
Que audacia do Vaticano, perdoar os Beatles. Nao me lembro de ter lido a respeito de nehum pedido nesse sentido por parte da banda, ou de alguem autorizado a falar por eles.
Principalmente por que 50% dela ja perdeu, por assim dizer, a voz ativa.
Gostaria que John estivesse ai para, entre outras coisas, responder a altura, ja que nao pode faze-lo das alturas.
Principalmente por que 50% dela ja perdeu, por assim dizer, a voz ativa.
Gostaria que John estivesse ai para, entre outras coisas, responder a altura, ja que nao pode faze-lo das alturas.
Thursday, April 01, 2010
Its only rock and roll (Rita e Roberto III)
Por que não ter confiança no Brasil que ainda e criança ?
arnaldo dias baptista
Um grande artista quase sempre paga um preço terrível pelo seu talento. Talvez daí derive a mitologia a respeito da venda da alma ao diabo, que tem na literatura de Goethe e Wilde, e nas lendas que envolvem o seminal bluesman Robert Johnson e sua "encruzilhada", seus ícones máximos.
No caso de Arnaldo Dias Baptista, cuja saga está muito bem retratada no excelente documentário "LÓKI", o capeta agiu como um agiota ou um banqueiro brasileiro, cobrando um tributo alto demais para sua sensibilidade extremada e alma infantil do Mutante Supremo. E, como em Brian Wilson e Syd Barret , o LSD prestou um enorme desserviço a uma criatividade absurda que deveria supostamente turbinar.
Por entre intervenções do irmão Sérgio, Peticov, Duprat, Gil, Liminha e outros, vemos o anjo caído ascender do inferno particular pelas mãos e pelo amor dos amigos e fãs, alem de sua paixão por sua arte, a música, e, mais recentemente, a pintura - expressão visual de sua sonoridade.
Terminei de ver o filme (o qual me abstenho de comentar em detalhes, recomendando assistí-lo assim como quem recomenda botas na neve), com o respeito que tinha pela Rita Lee, a grande ausente entre os depoimentos, reduzido a menos da metade. Sei perfeitamente que sua história, assim como seu destino pessoal e artístico, lhe pertence integralmente, mas parece-me que mágoa nenhuma justifica a falta de "fair play" que foi deixar de subir aos palcos com os seus irmãozinhos cósmicos, na recente volta da banda. A vida é curta e a arte longa, e não se pode abrir mão de praticar atos de grandeza por conta de loucuras juvenis ou qualquer outra espécie de ferida do ego.
Gente muito mais importante do que ela deixou de lado (plagiando a mim mesmo) "rugas e rusgas" e voltou à luta, não como um caça-níquel ou para "arrecadar uma grana para pagar a conta do geriatra”, conforme o gracejo dela à época dos concertos. Tempos atrás, chamei-a, por conta do nepotismo em sua banda, de Roberto Requião do Rock and Roll. Mas parece que as semelhanças não param por aí, já que ela não perde nenhuma chance de ser engraçadinha.
Não acho que Jimmy Page, Eric Clapton ou Peter Towshend estivessem tocando violão no metro de Londres quando decidiram reviver (simplesmente por que podiam fazê-lo) seus Who, Cream e Led Zeppelin. E nem John Lennon (cujo filho Sean compara a grandeza dos Mutantes a dos Beatles), que só não resgatou a banda para alguns concertos na África, em 1981, por culpa de um tal Mark David Chapman (esse sim um Loki de verdade)
Depois de assistir de joelhos aos come-backs do Cream, Blind Faith (em parte), The Who, Traffic, e outras bandas do meu Olímpo particular, gostaria de lembrar aos puristas que tratam "revivals" de bandas históricas como se fosse profanação a suas próprias e sagradas histórias, que tudo isso é somente rock and roll. But...
arnaldo dias baptista
Um grande artista quase sempre paga um preço terrível pelo seu talento. Talvez daí derive a mitologia a respeito da venda da alma ao diabo, que tem na literatura de Goethe e Wilde, e nas lendas que envolvem o seminal bluesman Robert Johnson e sua "encruzilhada", seus ícones máximos.
No caso de Arnaldo Dias Baptista, cuja saga está muito bem retratada no excelente documentário "LÓKI", o capeta agiu como um agiota ou um banqueiro brasileiro, cobrando um tributo alto demais para sua sensibilidade extremada e alma infantil do Mutante Supremo. E, como em Brian Wilson e Syd Barret , o LSD prestou um enorme desserviço a uma criatividade absurda que deveria supostamente turbinar.
Por entre intervenções do irmão Sérgio, Peticov, Duprat, Gil, Liminha e outros, vemos o anjo caído ascender do inferno particular pelas mãos e pelo amor dos amigos e fãs, alem de sua paixão por sua arte, a música, e, mais recentemente, a pintura - expressão visual de sua sonoridade.
Terminei de ver o filme (o qual me abstenho de comentar em detalhes, recomendando assistí-lo assim como quem recomenda botas na neve), com o respeito que tinha pela Rita Lee, a grande ausente entre os depoimentos, reduzido a menos da metade. Sei perfeitamente que sua história, assim como seu destino pessoal e artístico, lhe pertence integralmente, mas parece-me que mágoa nenhuma justifica a falta de "fair play" que foi deixar de subir aos palcos com os seus irmãozinhos cósmicos, na recente volta da banda. A vida é curta e a arte longa, e não se pode abrir mão de praticar atos de grandeza por conta de loucuras juvenis ou qualquer outra espécie de ferida do ego.
Gente muito mais importante do que ela deixou de lado (plagiando a mim mesmo) "rugas e rusgas" e voltou à luta, não como um caça-níquel ou para "arrecadar uma grana para pagar a conta do geriatra”, conforme o gracejo dela à época dos concertos. Tempos atrás, chamei-a, por conta do nepotismo em sua banda, de Roberto Requião do Rock and Roll. Mas parece que as semelhanças não param por aí, já que ela não perde nenhuma chance de ser engraçadinha.
Não acho que Jimmy Page, Eric Clapton ou Peter Towshend estivessem tocando violão no metro de Londres quando decidiram reviver (simplesmente por que podiam fazê-lo) seus Who, Cream e Led Zeppelin. E nem John Lennon (cujo filho Sean compara a grandeza dos Mutantes a dos Beatles), que só não resgatou a banda para alguns concertos na África, em 1981, por culpa de um tal Mark David Chapman (esse sim um Loki de verdade)
Depois de assistir de joelhos aos come-backs do Cream, Blind Faith (em parte), The Who, Traffic, e outras bandas do meu Olímpo particular, gostaria de lembrar aos puristas que tratam "revivals" de bandas históricas como se fosse profanação a suas próprias e sagradas histórias, que tudo isso é somente rock and roll. But...
Thursday, February 11, 2010
o dono do mar
Caetano Veloso perguntado certa vez sobre ACM disse o seguinte: Antonio Carlos me trata bem, assim como à minha mãe D. Canô. E é um homem que ama profundamente a Bahia. Mas não aprecio a sensação de viver num lugar que tem dono.
Jose Ribamar Ferreira das Quantas, vulgo Sarney é o dono do Maranhão. E é um dono que a exemplo dos velhos landlords ingleses da revolução industrial, ou dos proprietarios dos cortiços brasileiros de todos os tempos, cuida mal da sua propriedade.
Embora nem tão belo quanto os outros estados do norte em termos de praias e mar já que, assim como o Paraná sofre de uma baia onipresente, o Maranhão poderia sim ser um paraíso de outra natureza.
Conta com um porto natural de águas profundas, quatro dias mais próximo do mundo consumidor em relação aos seus concorrentes do sul, e cuja viabilização (o que existe de bom foi feito pela para-estatal Vale) seria a redenção do Estado.
Jose Ribamar Ferreira das Quantas, vulgo Sarney é o dono do Maranhão. E é um dono que a exemplo dos velhos landlords ingleses da revolução industrial, ou dos proprietarios dos cortiços brasileiros de todos os tempos, cuida mal da sua propriedade.
Embora nem tão belo quanto os outros estados do norte em termos de praias e mar já que, assim como o Paraná sofre de uma baia onipresente, o Maranhão poderia sim ser um paraíso de outra natureza.
Conta com um porto natural de águas profundas, quatro dias mais próximo do mundo consumidor em relação aos seus concorrentes do sul, e cuja viabilização (o que existe de bom foi feito pela para-estatal Vale) seria a redenção do Estado.
Assim como Rotterdan foi para a Holanda ou Antuérpia apara Bélgica, um porto é fator quase que suficiente para enriquecer uma região. No caso de Itaqui, obras assim nem tão chinesas dariam vazão ao plantio de todo o serrado, região pobre mas extremamente agriculturável, beneficiando de quebra, vários outros estados.
Sabe-se disso há anos, mas nunca se conseguiu que o terminal ultrapassasse a capacidade de dois milhões de toneladas de cereal, embora a larger than life Vale carregue por la mais de mais de 80 em minério de ferro.
São Luiz, terra de Souzandrade, com um pouco de carinho seria um destino turístico fantástico, dado à riqueza arquitetônica colonial portuguesa, alem de ser ponto de partida para os lençóis, onde não fui, mas acredito serem imperdíveis.
E talvez não custasse quase nada. Muitas das empresas que já operam no estado, se bem orientadas e incentivadas, adotariam de bom grado vários casarões, mantendo-os pintados e em ordem e até eventualmente ocupando alguns. Outros poderiam servir as repartições públicas e faculdades, que abandonariam os horrendos sub bauhaus que ora ocupam. Bares e restaurantes, deslocados das margens da fétida lagoa da Jansen (um estranho tributo a Ana Jansen, mulher má e com fama de assombração que matava seus escravos e os jogava na lagoa, antecessora, portanto da atual dona do pedaço), e mais outras medidas que não conheço, mas que deram certo em Lisboa e Salvador e que estão ai para serem copiadas.
Mas talvez não tenha graça mandar num lugar onde sua riqueza não apareça tanto. Vai ver que essa gente gosta é de reinar na lama. O que mais explica esse homem que influencia a republica a meio século, tendo inclusive sentado no trono maximo por um acidente histórico, e que nada ou tão pouco tem feito pela terra onde, imagino vá enterrar seus ossos.
Mas se Sarney não ama o Maranhão, o Maranhão também não ama Sarney. Ao contrario de outros capos de base regional, há anos ele não se elege senador por aqui, e a filha só se tornou governadora com um golpe palaciano do tipo que nem em Honduras colaria.
Sabe-se disso há anos, mas nunca se conseguiu que o terminal ultrapassasse a capacidade de dois milhões de toneladas de cereal, embora a larger than life Vale carregue por la mais de mais de 80 em minério de ferro.
São Luiz, terra de Souzandrade, com um pouco de carinho seria um destino turístico fantástico, dado à riqueza arquitetônica colonial portuguesa, alem de ser ponto de partida para os lençóis, onde não fui, mas acredito serem imperdíveis.
E talvez não custasse quase nada. Muitas das empresas que já operam no estado, se bem orientadas e incentivadas, adotariam de bom grado vários casarões, mantendo-os pintados e em ordem e até eventualmente ocupando alguns. Outros poderiam servir as repartições públicas e faculdades, que abandonariam os horrendos sub bauhaus que ora ocupam. Bares e restaurantes, deslocados das margens da fétida lagoa da Jansen (um estranho tributo a Ana Jansen, mulher má e com fama de assombração que matava seus escravos e os jogava na lagoa, antecessora, portanto da atual dona do pedaço), e mais outras medidas que não conheço, mas que deram certo em Lisboa e Salvador e que estão ai para serem copiadas.
Mas talvez não tenha graça mandar num lugar onde sua riqueza não apareça tanto. Vai ver que essa gente gosta é de reinar na lama. O que mais explica esse homem que influencia a republica a meio século, tendo inclusive sentado no trono maximo por um acidente histórico, e que nada ou tão pouco tem feito pela terra onde, imagino vá enterrar seus ossos.
Mas se Sarney não ama o Maranhão, o Maranhão também não ama Sarney. Ao contrario de outros capos de base regional, há anos ele não se elege senador por aqui, e a filha só se tornou governadora com um golpe palaciano do tipo que nem em Honduras colaria.
De Zequinha Usay e Fernandinho Kuday , nem falo.
Recentemente o clã quis fundar no interior do estado onde tem mais força, uma verdadeira Sanreylandia, já que essa aqui anda meio rebelde. Chamariam de algo como Maranhão do Sul, replicando assim o poder que tem no do Norte. Cargos, representações federais e cabides de emprego, tudo em dobro. Imagino que teriam conseguido se tivessem se empenhado mais, caso não recuperassem o poder para a menina. Afinal “se o estado não é mais totalmente nosso, criamos outro”.
Poderia fazer uma piada infame sobre o fato de o dono do mar ser também dono de suas criaturas, entre as quais as tentaculares, mas o assunto é serio. Mesmo que alguém invoque a governabilidade, Realpolitik, o pragmatismo, a necessidade de se atender o Congresso ou qualquer outra justificativa dessas que se arruma para perdoar o Líder, fico feliz de nunca ter sido um fã do filho do BR, ou essa aliança em especial me teria arrasado.
Posso concordar com Dawkins e Hitchens que Deus não exista. E muito menos o Céu. Mas o inferno, ah esse tem de existir.
Recentemente o clã quis fundar no interior do estado onde tem mais força, uma verdadeira Sanreylandia, já que essa aqui anda meio rebelde. Chamariam de algo como Maranhão do Sul, replicando assim o poder que tem no do Norte. Cargos, representações federais e cabides de emprego, tudo em dobro. Imagino que teriam conseguido se tivessem se empenhado mais, caso não recuperassem o poder para a menina. Afinal “se o estado não é mais totalmente nosso, criamos outro”.
Poderia fazer uma piada infame sobre o fato de o dono do mar ser também dono de suas criaturas, entre as quais as tentaculares, mas o assunto é serio. Mesmo que alguém invoque a governabilidade, Realpolitik, o pragmatismo, a necessidade de se atender o Congresso ou qualquer outra justificativa dessas que se arruma para perdoar o Líder, fico feliz de nunca ter sido um fã do filho do BR, ou essa aliança em especial me teria arrasado.
Posso concordar com Dawkins e Hitchens que Deus não exista. E muito menos o Céu. Mas o inferno, ah esse tem de existir.
Tuesday, February 02, 2010
human rights (and wrongs)
I
Normalmente não escrevo sobre assuntos do momento. Simplesmente por que provavelmente alguém o fará muito melhor do que eu poderia. Se o BR não é la muito prodigo em escritores, temos alguns bons cronistas.
Ocorre que domino o assunto. Li praticamente tudo que me caiu nas mãos sobre as guerras internas entre a esquerda armada e a direita militar nos diversos países da AL durante os tais anos de chumbo, portanto me acho credenciado a mexer nesse vespeiro.
Considero meio esdrúxula essa discussão sobre direitos humanos, o tal PNDH do Lula, principalmente no que se refere a fatos ocorridos há mais de trinta anos. È como se abusos contra presos e pobres e principalmente presos pobres não fossem cometidos todos os dias por aqui, e a sociedade ainda não tivesse de ser convencida que justiça nada tem haver com vingança.
Como se da ditadura para ca, tivéssemos virado a Suécissia.
Gosto de me aprofundar nesse período histórico, assim como quem estuda a Revolução Francesa ou as Guerras Púnicas, desapaixonadamente. Ou quase, ja que vivi tudo aquilo, embora menino que pouco entendia o que se passava. Absolutamente influenciado pela opinião publicada, lembro que a cada rapto de embaixador me imaginava transformado numa espécie de Capitão Brasil, partindo para o resgate, surrando os terroristas e sendo condecorado pelo vovô Médici em pessoa. Sim, pois éramos todos facistinhas, cantando o hino duas vezes por dia, não só o nacional, mas do soldado, o da bandeira (salve o lindo pendão da esperança..), e, graças às doses massivas de propaganda e aulas de OSPB, tinhamos como certo de que vivíamos no melhor lugar do mundo. Muito embora as vezes eu mudasse de lado e partisse para “seqüestrar” o Galaxie do meu avo, pilotado pelo impagável seu Milton, para um lugar estranho chamado Cuba.
Para começo de conversa, não houve no BR uma Guerra Suja como na Argentina. Aqui foi mais uma caça ao coelho dada assimetria das forças, como dizem os americanos. De um lado um exército coeso e bem aparelhado. Do outro, grupelhos mal armados e mal amados. Tanque contra atiradeira.
La embaixo o buraco era outro. Los combatientes tinham algum apoio popular, principalmente entre peronistas de esquerda (uma contradição em termos já que Peron era proto-nazista, e mais do que tudo um oportunista), e contavam com armamento pesado e recursos financeiros vultosos, provenientes de seqüestros e extorsões. Só o dos irmãos Born, donos e época da empresa que viria ser a Bunge rendeu aos Montoneros 60 milhões de dólares, e isto em 1974!! E as forças armadas, sem querer lutar por uma presidenta que desprezavam, nunca desferiam um golpe mortal as guerrilhas. Ate que tomaram o poder em 76, e ai descerem a borduna.
Embora processo "civico - militar" argentino tenha sido de longe o pior do Cone Sul (ate como reposta a uma guerrilha mais cruenta, mas que não se limitou a ela), a questão foi resolvida no momento oportuno e da forma correta. Raul Alfonsim, o primeiro presidente civil pos ditadura, que a Deusa da Justiça o tenha, meteu todo mundo na cadeia, desde o líder fujão dos Montoneros, Mario Fiermenich que abandonou o barco nos primeiros meses do golpe deixando a meninada para morrer, até o ex-presidente Videla e toda a cúpula militar-facínora.
Se o seu sucessor, o mega pilantra e ultra cafona Menem concedeu anistia aos fascismos das duas extremidades, supondo como todo populista messiânico que inaugurava a historia, isso é outra conversa.
Talvez tenha sido mais fácil para Alfonsín, advogado ligado a presos políticos , do que teria sido para o conciliador Tancredo ou vira casacas Sir Ney, mesmo por que o galho dos gorilas argentinos caiu de podre depois do fiasco das Malvinas. Ja aqui e em outros lugares a saída da milicada foi “negociada” fuzil na mão. Ainda assim Raul teve de encarar o movimento dos Carapintadas e outras escaramuças, perpetradas por parte da tropa que via como uma infâmia julgar os generais salvadores da Pátria.
No momento certo, cadeia teria sido aqui o lugar para os dois demônios, como Alfonsín definiu os dois lados da mesma moeda, tanto aqueles que pegaram em armas para tentar impor suas idéias de felicidade aos outros (que não as compraram, ou nenhuma repressão teria sido suficiente), quanto para os que os combateram a margem da sociedade.
Quem pretende o poder que se organize politicamente, mesmo que leve anos. E quem o exerce tem obrigação de fazê-lo dentro a lei, mesmo que o tenha tomado a força.
Farred Zacharia disse com razão que se o pai que denunciou recentemente o filho terrorista preso a bordo de um avião nos EUA imaginasse por um segundo que o ele seria torturado ou morto (mesmo com Guantánamo e tudo mais), não o teria entregado as autoridades
Ao combater o terrorismo com as próprias mãos sujas, os militares Sudacas perderam a legitimidade e o suporte da população, que na maioria dos países da região os apoiou num primeiro momento como alternativa a corrupção civil e a delinqüência da esquerda.
II
Sou adepto a Teoria dos Dois Demônios. Execro esse aspecto means to an end dos militares do continente que os nivelou aos stalinistas que combatiam – mesmo podendo reconhecer algum mérito neles.
E embora despreze a maioria dos movimentos guerrilheiros da época e mais ainda os que viriam depois como 0o Sendero e as Farc, confesso ter certa simpatia histórica pelos Tupamaros uruguaios. Assim mesmo somente em sua primeira fase, quando eram surpreendentemente ousados e inteligentes, pero sin perder la ternura jamas.
Nunca matavam e escapavam por baixo da terra , usando os esgotos de Montevidéu como os vietcongs usavam seus tuneis, cujo traçado, após terem pacientemente trocado as plantas originais do subsolo da cidade na prefeitura por registros falsos, só eles conheciam.
Perderam-se quando os líderes históricos foram substituídos por uma geração mais nova e militarista, alinhada ao perros do ERP argentino e críticos da postura Robin Hood dos primeiros tempos. Foram os primeiros a negociar seu salvo conduto com os militares, entregando os velhos líderes de bandeja.
Após presos, a cúpula histórica, nove ao todo, foram sacados numa noite do presídio de Liberdade (!) e, em grupos de três, revezados pelos quartéis do país. Trancados pelos catorze anos seguintes em buracos mínimos e sem janelas, quando não em poços com água até o joelho, passavam dias sem que lhes dessem de beber e comiam no chão aquilo que a tropa se recusava a ingerir. Proibidos de ler, escrever e receber visitas, alguns ficaram ao todo até cinco anos sem comunicação com ninguém alem das sentinelas, que não perdiam chance de maltratá-los, principalmente os mais jovens e aqueles que, por não ter tido a chance (ou a coragem) de combatê-los, tentavam impressionar o comando.
O que a não ser a reles vingança e sentimento de impunidade dos donos do poder, ultrajados com o fato de alguém haver questionado o monopólio do uso das armas que as forças armadas entendem ter, explica tal punição? Afinal eles não tinham mais nenhuma informação relevante e o movimento ja havia sido destruído.
Acontece que tiro saiu pela culatra. Ao tirá-los do convívio da militância encarcerada em Liberdade (!!), os militares os pouparam de longos debates e autocríticas próprias da esquerda, que fatalmente os teria desmoralizado e os devolvido a reles condição humana. Ao isolá-los dos outros e submetê-los a um tratamento barbaro, criaram os mártires e mitos com fama de indestrutíveis que quiseram evitar ao não matá-los no momento de suas prisões.
O fundador do movimento Raul Sendic, baleado no rosto ao ser preso em 72, não foi morto por que não se queria “criar outro Che Guevara”.
Embora tenha morrido em 89, quatro anos após liberado, em conseqüência das seqüelas da prisão, outro dos Reféns da Ditadura (sim por que os generais alegavam que os matariam se o movimento continuasse a combater) Pepe Mujica é hoje o presidente da República Oriental do Uruguai. Coisa impensável para um Fierminich ou Vaca Narvaja na Argentina. Seu companheiro de movimento e calabouço Fernandes Huidobro, senador mais votado nas eleições que disputou, disse que pela primeira vez na historia o Uruguai tinha um presidente que já havia tomado a própria urina.
Aqui no BR, a esquerda armada não empolgou a época, mas também não é odiada. Dilma, que segundo a própria lavou muita louça com Lamarca é séria candidata a colega de Mujica. Assim como Serra, que não foi guerrilheiro, mas esteve exilado e quase foi morto no famigerado Estádio Nacional, transmutado em campo de concentração durante o golpe do Chile.
Trinta e sete anos depois daquele outro onze de setembro, Marco Enriquez, o filho do líder do MIR - Movimento da Esquerda Radical, foi também bem votado nessa eleição presidencial. Seu pai Miguel, morto pela Dina, poderia ter tomado o poder se Pinochet não o tivesse feito, já que Allende iria cair para um lado ou para o outro. Apesar da boa votação da esquerda, a presidente Bachelet acabou saindo pela direita, no movimento pendular próprio do continente.
Prova que o mundo mudou, durante seu mandato que agora finda no pico da sua popularidade, a dama do Chile optou por construir um museu que mostrasse para as novas gerações uma parte importante de sua historia, a perseguir esse ou aquele, apesar de também ter tido o pai assassinado pelo bondoso General Contreras e ter sido ela própria torturada.
E mesmo o velho Tupa parece não querer se alinhar com a esquerda carnívora do continente, representada por Chaves, cuja folha de lutas ao contrario da de Pepe e outros, é marcada pela covardia e oportunismo.
III
Mas voltemos ao Plano iluminado. É extremamente difícil entender e julgar comportamentos e atitudes daqueles tempos, auge da quentíssima guerra fria, seus maniqueísmos, perigos reais e inventados, pela ótica atual de um mundo completamente diverso e praticamente resolvido nos aspectos ideológicos. A grande questão hoje não é mais optar-se entre socialismo e capitalismo, já que o primeiro, esta provado, só funciona (e mal) com a policia na rua e o outro não necessariamente. Hoje se discute com muito mais propriedade o que deve permanecer publico e o que deve ser privado.
Alguns dos ex combatentes da esquerda mais esclarecidos, o presidente uruguaio entre eles, se alegram de não ter vencido, já que teriam de ter dizimado muitíssima gente pára consolidar e manter o poder. Allende não quis fazê-lo e caiu para direita, como teria caído para a esquerda um pouco mais a frente.
Se o preço a pagar pela paz social foi deixar facínoras de ambos os bandos soltos, agora é tarde. Parece mais demagogia eleitoral do que compromisso com a historia. Ou algo muito pior, uma desculpa esfarrapada para dar vazão ao ímpeto totalitario de parte da turma no poder.
Já que não foi feito na época devida, melhor seria fazer como disse o Marley via Gil:
-Deixar pra trás.
+++
`Epilogo:
Quanto a velha Argentina, que adotem agora e para sempre o slogan :
“O Peronismo se evita”.
Normalmente não escrevo sobre assuntos do momento. Simplesmente por que provavelmente alguém o fará muito melhor do que eu poderia. Se o BR não é la muito prodigo em escritores, temos alguns bons cronistas.
Ocorre que domino o assunto. Li praticamente tudo que me caiu nas mãos sobre as guerras internas entre a esquerda armada e a direita militar nos diversos países da AL durante os tais anos de chumbo, portanto me acho credenciado a mexer nesse vespeiro.
Considero meio esdrúxula essa discussão sobre direitos humanos, o tal PNDH do Lula, principalmente no que se refere a fatos ocorridos há mais de trinta anos. È como se abusos contra presos e pobres e principalmente presos pobres não fossem cometidos todos os dias por aqui, e a sociedade ainda não tivesse de ser convencida que justiça nada tem haver com vingança.
Como se da ditadura para ca, tivéssemos virado a Suécissia.
Gosto de me aprofundar nesse período histórico, assim como quem estuda a Revolução Francesa ou as Guerras Púnicas, desapaixonadamente. Ou quase, ja que vivi tudo aquilo, embora menino que pouco entendia o que se passava. Absolutamente influenciado pela opinião publicada, lembro que a cada rapto de embaixador me imaginava transformado numa espécie de Capitão Brasil, partindo para o resgate, surrando os terroristas e sendo condecorado pelo vovô Médici em pessoa. Sim, pois éramos todos facistinhas, cantando o hino duas vezes por dia, não só o nacional, mas do soldado, o da bandeira (salve o lindo pendão da esperança..), e, graças às doses massivas de propaganda e aulas de OSPB, tinhamos como certo de que vivíamos no melhor lugar do mundo. Muito embora as vezes eu mudasse de lado e partisse para “seqüestrar” o Galaxie do meu avo, pilotado pelo impagável seu Milton, para um lugar estranho chamado Cuba.
Para começo de conversa, não houve no BR uma Guerra Suja como na Argentina. Aqui foi mais uma caça ao coelho dada assimetria das forças, como dizem os americanos. De um lado um exército coeso e bem aparelhado. Do outro, grupelhos mal armados e mal amados. Tanque contra atiradeira.
La embaixo o buraco era outro. Los combatientes tinham algum apoio popular, principalmente entre peronistas de esquerda (uma contradição em termos já que Peron era proto-nazista, e mais do que tudo um oportunista), e contavam com armamento pesado e recursos financeiros vultosos, provenientes de seqüestros e extorsões. Só o dos irmãos Born, donos e época da empresa que viria ser a Bunge rendeu aos Montoneros 60 milhões de dólares, e isto em 1974!! E as forças armadas, sem querer lutar por uma presidenta que desprezavam, nunca desferiam um golpe mortal as guerrilhas. Ate que tomaram o poder em 76, e ai descerem a borduna.
Embora processo "civico - militar" argentino tenha sido de longe o pior do Cone Sul (ate como reposta a uma guerrilha mais cruenta, mas que não se limitou a ela), a questão foi resolvida no momento oportuno e da forma correta. Raul Alfonsim, o primeiro presidente civil pos ditadura, que a Deusa da Justiça o tenha, meteu todo mundo na cadeia, desde o líder fujão dos Montoneros, Mario Fiermenich que abandonou o barco nos primeiros meses do golpe deixando a meninada para morrer, até o ex-presidente Videla e toda a cúpula militar-facínora.
Se o seu sucessor, o mega pilantra e ultra cafona Menem concedeu anistia aos fascismos das duas extremidades, supondo como todo populista messiânico que inaugurava a historia, isso é outra conversa.
Talvez tenha sido mais fácil para Alfonsín, advogado ligado a presos políticos , do que teria sido para o conciliador Tancredo ou vira casacas Sir Ney, mesmo por que o galho dos gorilas argentinos caiu de podre depois do fiasco das Malvinas. Ja aqui e em outros lugares a saída da milicada foi “negociada” fuzil na mão. Ainda assim Raul teve de encarar o movimento dos Carapintadas e outras escaramuças, perpetradas por parte da tropa que via como uma infâmia julgar os generais salvadores da Pátria.
No momento certo, cadeia teria sido aqui o lugar para os dois demônios, como Alfonsín definiu os dois lados da mesma moeda, tanto aqueles que pegaram em armas para tentar impor suas idéias de felicidade aos outros (que não as compraram, ou nenhuma repressão teria sido suficiente), quanto para os que os combateram a margem da sociedade.
Quem pretende o poder que se organize politicamente, mesmo que leve anos. E quem o exerce tem obrigação de fazê-lo dentro a lei, mesmo que o tenha tomado a força.
Farred Zacharia disse com razão que se o pai que denunciou recentemente o filho terrorista preso a bordo de um avião nos EUA imaginasse por um segundo que o ele seria torturado ou morto (mesmo com Guantánamo e tudo mais), não o teria entregado as autoridades
Ao combater o terrorismo com as próprias mãos sujas, os militares Sudacas perderam a legitimidade e o suporte da população, que na maioria dos países da região os apoiou num primeiro momento como alternativa a corrupção civil e a delinqüência da esquerda.
II
Sou adepto a Teoria dos Dois Demônios. Execro esse aspecto means to an end dos militares do continente que os nivelou aos stalinistas que combatiam – mesmo podendo reconhecer algum mérito neles.
E embora despreze a maioria dos movimentos guerrilheiros da época e mais ainda os que viriam depois como 0o Sendero e as Farc, confesso ter certa simpatia histórica pelos Tupamaros uruguaios. Assim mesmo somente em sua primeira fase, quando eram surpreendentemente ousados e inteligentes, pero sin perder la ternura jamas.
Nunca matavam e escapavam por baixo da terra , usando os esgotos de Montevidéu como os vietcongs usavam seus tuneis, cujo traçado, após terem pacientemente trocado as plantas originais do subsolo da cidade na prefeitura por registros falsos, só eles conheciam.
Perderam-se quando os líderes históricos foram substituídos por uma geração mais nova e militarista, alinhada ao perros do ERP argentino e críticos da postura Robin Hood dos primeiros tempos. Foram os primeiros a negociar seu salvo conduto com os militares, entregando os velhos líderes de bandeja.
Após presos, a cúpula histórica, nove ao todo, foram sacados numa noite do presídio de Liberdade (!) e, em grupos de três, revezados pelos quartéis do país. Trancados pelos catorze anos seguintes em buracos mínimos e sem janelas, quando não em poços com água até o joelho, passavam dias sem que lhes dessem de beber e comiam no chão aquilo que a tropa se recusava a ingerir. Proibidos de ler, escrever e receber visitas, alguns ficaram ao todo até cinco anos sem comunicação com ninguém alem das sentinelas, que não perdiam chance de maltratá-los, principalmente os mais jovens e aqueles que, por não ter tido a chance (ou a coragem) de combatê-los, tentavam impressionar o comando.
O que a não ser a reles vingança e sentimento de impunidade dos donos do poder, ultrajados com o fato de alguém haver questionado o monopólio do uso das armas que as forças armadas entendem ter, explica tal punição? Afinal eles não tinham mais nenhuma informação relevante e o movimento ja havia sido destruído.
Acontece que tiro saiu pela culatra. Ao tirá-los do convívio da militância encarcerada em Liberdade (!!), os militares os pouparam de longos debates e autocríticas próprias da esquerda, que fatalmente os teria desmoralizado e os devolvido a reles condição humana. Ao isolá-los dos outros e submetê-los a um tratamento barbaro, criaram os mártires e mitos com fama de indestrutíveis que quiseram evitar ao não matá-los no momento de suas prisões.
O fundador do movimento Raul Sendic, baleado no rosto ao ser preso em 72, não foi morto por que não se queria “criar outro Che Guevara”.
Embora tenha morrido em 89, quatro anos após liberado, em conseqüência das seqüelas da prisão, outro dos Reféns da Ditadura (sim por que os generais alegavam que os matariam se o movimento continuasse a combater) Pepe Mujica é hoje o presidente da República Oriental do Uruguai. Coisa impensável para um Fierminich ou Vaca Narvaja na Argentina. Seu companheiro de movimento e calabouço Fernandes Huidobro, senador mais votado nas eleições que disputou, disse que pela primeira vez na historia o Uruguai tinha um presidente que já havia tomado a própria urina.
Aqui no BR, a esquerda armada não empolgou a época, mas também não é odiada. Dilma, que segundo a própria lavou muita louça com Lamarca é séria candidata a colega de Mujica. Assim como Serra, que não foi guerrilheiro, mas esteve exilado e quase foi morto no famigerado Estádio Nacional, transmutado em campo de concentração durante o golpe do Chile.
Trinta e sete anos depois daquele outro onze de setembro, Marco Enriquez, o filho do líder do MIR - Movimento da Esquerda Radical, foi também bem votado nessa eleição presidencial. Seu pai Miguel, morto pela Dina, poderia ter tomado o poder se Pinochet não o tivesse feito, já que Allende iria cair para um lado ou para o outro. Apesar da boa votação da esquerda, a presidente Bachelet acabou saindo pela direita, no movimento pendular próprio do continente.
Prova que o mundo mudou, durante seu mandato que agora finda no pico da sua popularidade, a dama do Chile optou por construir um museu que mostrasse para as novas gerações uma parte importante de sua historia, a perseguir esse ou aquele, apesar de também ter tido o pai assassinado pelo bondoso General Contreras e ter sido ela própria torturada.
E mesmo o velho Tupa parece não querer se alinhar com a esquerda carnívora do continente, representada por Chaves, cuja folha de lutas ao contrario da de Pepe e outros, é marcada pela covardia e oportunismo.
III
Mas voltemos ao Plano iluminado. É extremamente difícil entender e julgar comportamentos e atitudes daqueles tempos, auge da quentíssima guerra fria, seus maniqueísmos, perigos reais e inventados, pela ótica atual de um mundo completamente diverso e praticamente resolvido nos aspectos ideológicos. A grande questão hoje não é mais optar-se entre socialismo e capitalismo, já que o primeiro, esta provado, só funciona (e mal) com a policia na rua e o outro não necessariamente. Hoje se discute com muito mais propriedade o que deve permanecer publico e o que deve ser privado.
Alguns dos ex combatentes da esquerda mais esclarecidos, o presidente uruguaio entre eles, se alegram de não ter vencido, já que teriam de ter dizimado muitíssima gente pára consolidar e manter o poder. Allende não quis fazê-lo e caiu para direita, como teria caído para a esquerda um pouco mais a frente.
Se o preço a pagar pela paz social foi deixar facínoras de ambos os bandos soltos, agora é tarde. Parece mais demagogia eleitoral do que compromisso com a historia. Ou algo muito pior, uma desculpa esfarrapada para dar vazão ao ímpeto totalitario de parte da turma no poder.
Já que não foi feito na época devida, melhor seria fazer como disse o Marley via Gil:
-Deixar pra trás.
+++
`Epilogo:
Quanto a velha Argentina, que adotem agora e para sempre o slogan :
“O Peronismo se evita”.
Tuesday, January 12, 2010
black super powers
Gostei de saber que o Capitão America será vivido no cinema pelo Will Smith. Alem de simpático e bom ator, Will é preto, o que da uma sobrevida a um personagem datado e maniqueísta.
Uma bela metáfora nesses tempos de Obama.
O herói nos anos 70 já tinha um sidekik negro, o Falcão e a Marvel Comics contava com alguns black heróis de segundo time, como o Pantera Negra e o Luke Cage.
Mas daí a Steve Rogers, o alter-ego do Capitão, sempre pintado como um legítimo WASP, louro de olhos azuis – a cara que a América imaginava ver no espelho - vir a ser interpretado por um afro-negão, é uma dessas inovações que me fazem acreditar nos USA como instituição.
Uma sociedade que sabe se reinventar começa por rever seus ícones. Muito antes de BO, hollywood já elegera vários presidentes negros. Repare, em quase todas essas produções B sobre o fim do mundo o presidente americano e invariavelmente preto.
.
Algo assim há meros quarenta anos nos USA, quando eu lia os gibis Marvel editados por aqui pela falecida EBAL, teria provocado certamente um boicote à editora de Stan Lee e Jack Kirby.
Naquela época os pretos de la tocavam fogo nos subúrbios e até milícias armadas tinham (os Black Panthers, a quem o genial Stan homenageara com o já citado personagem, um príncipe de uma pra la de fictícia civilização africana high tech) e os fantasmas da Klan ainda assombravam o Sul, enquanto nos aqui nos gabávamos de ser uma democracia racial instalada em uma ilha de paz e posteridade.
Resultado, quarenta anos depois quantos prefeitos ou deputados negros, para não falar em senadores ou ministros, você conhece no BR ? Pelé, Gil e outras instituições não contam. Agora pense nos médicos famosos, empresários, executivos ou modelos.
Mesmo que Juliana Paes e outras tenham papeis de destaque nas novelas, não temos aqui um equivalente a Will, Denzel ou Morgan Freeman (que até Deus já fez) que, ao contrario de Sidney Pottier, não fazem necessariamente papeis de “pretos”.]
Uma bela metáfora nesses tempos de Obama.
O herói nos anos 70 já tinha um sidekik negro, o Falcão e a Marvel Comics contava com alguns black heróis de segundo time, como o Pantera Negra e o Luke Cage.
Mas daí a Steve Rogers, o alter-ego do Capitão, sempre pintado como um legítimo WASP, louro de olhos azuis – a cara que a América imaginava ver no espelho - vir a ser interpretado por um afro-negão, é uma dessas inovações que me fazem acreditar nos USA como instituição.
Uma sociedade que sabe se reinventar começa por rever seus ícones. Muito antes de BO, hollywood já elegera vários presidentes negros. Repare, em quase todas essas produções B sobre o fim do mundo o presidente americano e invariavelmente preto.
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Algo assim há meros quarenta anos nos USA, quando eu lia os gibis Marvel editados por aqui pela falecida EBAL, teria provocado certamente um boicote à editora de Stan Lee e Jack Kirby.
Naquela época os pretos de la tocavam fogo nos subúrbios e até milícias armadas tinham (os Black Panthers, a quem o genial Stan homenageara com o já citado personagem, um príncipe de uma pra la de fictícia civilização africana high tech) e os fantasmas da Klan ainda assombravam o Sul, enquanto nos aqui nos gabávamos de ser uma democracia racial instalada em uma ilha de paz e posteridade.
Resultado, quarenta anos depois quantos prefeitos ou deputados negros, para não falar em senadores ou ministros, você conhece no BR ? Pelé, Gil e outras instituições não contam. Agora pense nos médicos famosos, empresários, executivos ou modelos.
Mesmo que Juliana Paes e outras tenham papeis de destaque nas novelas, não temos aqui um equivalente a Will, Denzel ou Morgan Freeman (que até Deus já fez) que, ao contrario de Sidney Pottier, não fazem necessariamente papeis de “pretos”.]
Tuesday, January 05, 2010
anchovas ou faça sol II
os gnominhos que batizam os restaurantes de Floripa estao cada vez mais criativos. Esse ano despontam o Maria Vai Com As Ostras e no quesito "por quilo" o ja tradicional Fi-lo Por que Kilo.
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