Wednesday, June 09, 2010

Rock Dreams Dia III – Jack of All trades

Ainda tenho vários vinis do Cream e pensei em trazer um deles para que Jack autografasse, mas, depois, decidi que seria mais bacana comprar sua recente biografia, escrita por um tal de Harry Shapiro. Um livro com dedicatória é sempre um objeto mágico para mim.

Percorri algumas livrarias de Londres e nada. Mas encontrei e acabei comprando, entretanto, a autobiografia de Ginger Baker, outro terço do Cream, não para que Jack autografasse, mas para ler mesmo. Sou fã não só do genial baterista que é Ginger, mas também do personagem idiossincrático, mau humorado e ranzinza. Um rock star que odeia rock and roll e resiste a fazer concessões.

À moda Rimbaud, Ginger largou tudo, no auge da fama, em 1970, e se mandou para a África. Nesse embalo, perdeu tudo e até fome passou. Foi fazendeiro na Toscana, criador de cavalos de pólo, corredor de rali e chegou a tocar com Johnny Rotten, dos Sex Pistols.

Ocorre que, apesar de se amarem como músicos, Jack e Ginger se odeiam tanto pessoalmente que o ruivo baterista passa o livro inteiro traçando um perfil terrível do grande baixista, a quem chama o tempo todo de "Jack and Hyde". Como se já não fosse "scary enough!" o fato de Jack - com quem iríamos tocar dali a poucas horas - ser um dos maiores músicos do mundo. (No dia seguinte, quando conto para Alan White minha preocupação, ele, que segundo suas próprias palavras passou "six months in hell" tocando na Ginger Baker Airforce, me reporta alguns “causos” que me fazem perceber quem de fato é o verdadeiro personagem de Stevenson.)

Eis que estamos na sala de controle em Abbey Road quando entra Natasha, e, logo atrás dela, vestindo uma jaqueta preta com um pin da bandeira cubana cravado na lapela e óculos do tipo aviador espelhados, alguém que não faz a menor idéia de quem eu seja, mas cujo repertório conheço tão bem quanto meu próprio quarto e cuja carreira acompanho atentamente desde os meus dezessete anos.

Enquanto Jack Bruce cumprimenta os outros campers, digo ao "anjo da guarda" Natasha que me sinto como Osama prestes a conhecer Maomé ou o próprio Alah. Ela ri, me apresenta ao seu pai e tudo que me ocorre dizer é... nice to meet you, mr. Bruce, you are my all time second favorite performer. E, antes que ele devolvesse a provocação, emendo com um... since my favorite is Natasha.

Here is a very diplomatic man, responde ele com uma voz metálica, quase inexistente, que em quase nada se parece com o genial barítono que é quando canta.

Joye, nosso band leader, explica então a Jack que não faremos, como os outros campers, covers das versões do Cream, e sim uma releitura de CROSSROADS. Jack responde que isso é bom, até porque como não era ele que cantava no original, mas Eric, que tal se ele tocasse piano ao invés de baixo? Na hora fiquei desapontado, mas tratei de correr para dentro do piano boot com ele, que me brindou com uns bons três minutos de uma private session de um belíssimo improviso à la MonkJack, enquanto os outros se preparavam.

A sessão saiu caótica mas saiu, com um Jack paciente e bem humorado, mesmo com as atravessadas de Carol. Na hora do meu solo, achei que minha mão ia pular fora e sair correndo, como aquela da Família Adams, mas fui até o final - entrando para o panteão junto com Clapton, Leslie West, Gary Moore, John Mclaughlin, Mick Taylor, Clem Clemson, Rory Galagher e Vernon Reid.

Jack e Natasha, em seguida, se acomodam no sofá do estúdio esperando que a próxima banda que iria fazer uma versão chupada de White Room se aprontasse, e eu, enquanto isso, me mantenho a certa distância. Noto que ela faz algum comentário no ouvido do pai a meu respeito e ele faz um sinal com a mão para que me aproxime. E assim, de repente, também estou sentado junto deles no sofá, discutindo Tom Jobim e o preço dos tickets dos cambistas no show do Cream que digo a ele ter assistido, em 2005. Ele me conta que ficara orgulhoso poucos dias atrás, quando, junto com a mulher, Margit, do lado de fora de um show de Natasha, um cambista quis lhe vender um ticket por um preço bem mais alto do que o da bilheteria. Então ele entregou que era o pai da cantora e o cara duvidou. Quando digo-lhe que deveria ter comprado e mandado emoldurar, ele devolve na tampa - come on man, I'm scotish, fazendo referência à proverbial "pãodurisse" de seu povo.

Lá vai ele, então, tocar com a segunda banda, enquanto eu, babando no vidro, constato que a voz continua lá e que o baixo Warwick Fretless começa a soar familiar. Ao final, quando o baterista da segunda banda se desculpa por não saber tocar como Baker, Jack responde – at least you are not going to put a knife between my ribs, man .
Acompanho pai e filha até a porta do AR e vejo Jack embarcar num fantástico Bentley esportivo, cujo logotipo, apropriadamente, é um "B" entre asinhas de anjo.

0 comments: