Tuesday, June 01, 2010

Rock Dreams II



Primeiro dia – The Road to Abbey Road

Antes de irmos para os estúdios, galera reunida no café da manhã do hotel, David faz o inevitável discurso de boas vindas e apresentaçao do staff. Noto uma garota que nos é apresentada simplesmente como "Natasha". Levo dois segundos para reconhecer que "Natasha" é Natasha Eleonoré Bruce, filha de Jack, que canta uma bela mistura de música caribenha e pop inglês, usando o "alias" Aruba Red. Como ninguém mais fez a conexão, tratei de guardar para mim e na primeira oportunidade pedi para que tirasse uma foto comigo, apresentado-me com um fã de seu pai e de sua música. Natasha/Aruba se tornaria uma amiga, mas naquele momento pareceu surpresa com minha atitude - afinal, ela não estava lá como celebridade e sim como assistente do produtor.

Minha banda, além de Joye, tinha quatro americanos (baixo, teclado, bateria) e Carol, a cantora: também americana, de meia idade, visivelmente mal resolvida, mas que cantava (quando conseguia) como Margo Timmins, dos Cowboys Junkies.
Carol foi o céu e o inferno da banda. Desde o primeiro momento, ficou claro que tinha uma bela voz mas sofria de uma imensa síndrome de pânico, o que, aliado ao fato de não ter experiência de banda, se tornaria explosivo. Na verdade, de pouco serve saber tocar um instrumento ou cantar se não se tem bagagem de tocar em grupo (eu, por exemplo, sou um guitarrista próximo do medíocre, mas sei me integrar em um) e isso leva tempo. Joye, como bom "liverpoolian", perdeu a paciência com ela no primeiro ensaio e a premiou com um gancho de duas horas fora da sala. Mas, o mesmo Joye, macaco velho, logo identificou uma canção que ela acertaria, e assim conseguimos uma versão de "You Make Loving Fun", do Fleetwood Mac, que gravaríamos à tarde no Abbey Road.

Cada banda recebeu também uma música do Cream para ensaiar, a fim de receber Jack dali a dois dias. Para nós, foi dada "Crossroads" (embora eu tivesse pedido "Politician"). Carol teve problemas sérios para acertar a canção de Robert Johnson, o que acabou rendendo uma versão bem diferente da original, do Cream, e que, ao final das contas, agradou a Jack (mas isso já é outra historia).

Eu nunca tive uma experiência religiosa de verdade, mas entrar no Abbey Road chegou perto. Começa pela famosa e histórica faixa na rua, que gente do mundo inteiro passa o dia atravessando, para desespero dos motoristas que moram nas redondezas. Alguns até tiram o sapato para simular Paul, que, à época da foto, supostamente estaria morto. Há, inclusive, uma e-câmera escondida, filmando aquele trecho da rua 24 horas por dia, cujo link não consegui achar.

Nossa primeira session foi no estudio 2, onde o “Let it Be”, e, mais recentemente, o altamente recomendável “Chaos and Creation in Abbey Road”, do Paul, foram gravados. Trata-se de um espaço enorme, com um pé direito de uns oito metros e um mezanino onde ficam os técnicos e a mesa. O que posso dizer? Tecnicamente, o estúdio é impecavel e muita coisa é feita de forma analógica. Por exemplo: quando eu precisei de um efeito flanger para a guitarra, ao invés de apertar um botão na mesa ou usar um pequeno pedal, os técnicos trouxeram um imenso amplificador Leslie, com aquela cornetinha dupla rodando dentro e tudo mais. O som, claro, saiu fantástico. Tudo muito inglês, tudo muito perfeito. Nossa versão para "Making Love Fun" saiu surpreendentemente bela. Carol cantou, a meu ver, melhor do que a original, com Stevie Nicks ou Christy Mcvie, não sei bem.

A poucos metros de nós, Miss Lizzy, o Steinway Grand Piano cujo som sobrenatural pode ser ouvido em "Let it Be", "Lady Madonna" e outras, nos concedia a honra de sua atenção

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