Nassau, 28 de julho 2010
Quem conhece meu amigo John dos Santos sabe que não estou exagerando. Brasileiro de nascimento, americano por afinidade, Johnny fala um portuingles com genuíno sotaque texano, serviu no Vietnã e acha Richard Nixon meio comunista. Apesar disso é um doce de pessoa.
Provavelmente o maior especialista no do trafego marítimo Brasil - Estados Unidos em todo o mundo, tornou-se uma lenda no shipping por trabalhar 24/7, conhecer cada um dos portos entre a Terra do Fogo e o Maine melhor do que os gerentes locais e os navios da rota mais do que seus próprios comandantes.
Recentemente, já com certa idade, resolveu relaxar um pouco e adquiriu o habito de mergulhar com tubarões. A cada chance que tem, sai mundo afora em companhia da mulher atrás de dentuços submarinos, documentando tudo de forma metódica em centenas de horas de filmagem. Refere-se a esses animais que aterrorizam o inconsciente de toda uma geração pós Jaws como maricas (sharks are sissy man, all democrats) pelo fato de evitarem o confronto direto com as estranhas criaturas de pele de borracha, olhos de vidro e corcovas de ferro, principalmente quando tem coisa melhor para comer. Em sua opinião somente o tigre e o branco são “Republicans” do mar.
Eu já havia estado em Nassau em 73 durante um cruzeiro barato, no momento em que o príncipe Charles, a bordo de uma fragata fundeada à proa do nosso Flávia”C”, assinava, por procuração de mamãe, a independência das Bahamas.
Há quatro anos, justamente na época das comemorações da independência, voltei aqui para trazer as crianças para o ultra-kitsch mas bacanérrimo Atlantis, um theme resort cheio de criaturas marinhas e com um parque aquático imenso. Na ocasião pedi ao Johnny que me indicasse uma operadora especializada em shark encounters, mas acabei não mergulhando. Cometi o erro básico de marcar o mergulho para o mesmo dia do vôo de volta para Miami. A pressão reversa, segundo o instrutor, poderia ser fatal.
Dessa vez, quando junto com os amigos Adri e Zé resolvemos trazer outros pequenitos para o mesmo Atlantis, programei a aventura de forma a ter um dia de intervalo entre os voos, e me preoucupar somente em sobreviver aos predadores do mar.
Já no barco, fazemos piadas e divagações de como os seres humanos somos capazes de pagar (e caro) para expormo-nos a riscos como aquele que estavamos prestes a correr, ate pararmos no lugar onde o mar do Caribe vai de azul piscina a indigo sem qualquer aviso previo, denotando uma abrupta mudança de profundidade. Ali acontece o primeiro mergulho, mais como uma prévia do proximo, embora avistemos a certa distancia os primeiros especimes de Caribbeam Reef Shark, que é exatamente o tubarão que imaginamos, quando imaginamos um tubarão.
Voltamos então para o barco para sermos instruidos quanto ao segundo e definitivo encontro, que consiste em um instutor (que ao falar veste uma preucupante malha de ferro por baixo da roupa) descer com uma caixa de peixes frescos, a ser ofertada ao cardume enquanto nós incautos nos sentamos em um circulo ritualistico, agarrados a pedras previamente posicionadas no fundo do mar.
A primeira e fundamental regra, diz o instrutor é nunca esticar o braço, já que os bichos associam esse movimento a oferta de comida. Sua maior preucupação ao faze-lo não é o tubarão da frente, e sim os outros vem por tras para disputar o acepipe.
Como na primeira descida eu havia me adiantado e pulado na agua antes dos demais, gastando desnecessariamente o ar dos tanques, resolvi ficar por ultimo o que me custou momentos de pavor.
Pavlov explica. Os peixões começam a circular a area assim que percebem mergulhadores se posicionando, portanto ao descer, tive de atravesar uma nuvem deles nadando por cima do “templo” , até poder agarrar em segurança (?) a minha pedra.
Caixa aberta, o que acontece so pode ser descrito como um enxame de tubarões em frenesi. No minimo duas dezenas passam por sobre nossas cabeças, roçam nossos braços, estapeam nossas faces com suas caudas e last but not least, vem em direçao a nossos olhos para desviar no ultimo segundo.
Lembrar das palavras de Johnny não me foi muito la muito util, já que sei que as piores guerras foram inciadas justamente pelos democratas Wilson, Roosevelt e JFK.
Por algum motivo associado ao absurdo da situação e como se aquele estranho culto não estivesse realmente acontecendo, me acomete um acesso de riso e uma vontade imensa de sinalizar para os amigos ao meu lado, que trato de conter para evitar qualquer movimento alem do necessario. Nas fotos, apareço sempre com o polegar em riste, enquanto o Zé por algum motivo protege o estomago.A outra, por eliminação é a Adri.
Passado uns minutos, a musiquinha tema de Jaws desaparece das nossas cabeças e com ela o pavor.
Ai passamos a admirar aquelas criaturas magnificas fazendo o que fazem melhor, devorar peixes.
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