Friday, August 06, 2010
Quem conhece meu amigo
John dos Santos sabe que não estou exagerando. Brasileiro de nascimento, americano
por afinidade, Johnny fala um portuingles com genuíno sotaque texano, serviu no
Vietnã e acha Richard Nixon meio comunista. Apesar disso é um doce de
pessoa.Provavelmente o maior especialista no do trafego marítimo Brasil -
Estados Unidos em todo o mundo, tornou-se uma lenda no shipping por trabalhar
24/7, conhecer cada um dos portos entre a Terra do Fogo e o Maine melhor do que
os gerentes locais, e os navios da rota mais do que seus próprios
comandantes.Recentemente, já com certa idade, resolveu relaxar um pouco e
adquiriu o habito de mergulhar com tubarões. A cada chance que tem, sai mundo
afora em companhia da mulher atrás de dentuços submarinos, documentando tudo de
forma metódica em centenas de horas de filmagem.
Refere-se a esses animais
que aterrorizam o inconsciente de toda uma geração pós-Jaws (valeu Spilberg!)
como maricas ou democratas, o que para ele da no mesmo. Sharks are
all sissy man, all democrats, costuma dizer ao passar os filmes, pelo
fato dos tubarões evitarem o confronto direto com as estranhas criaturas de
pele de borracha, olhos de vidro e corcovas de ferro, principalmente quando tem
coisa melhor para comer.
Para ele opinião somente
os espécimes tigre e branco podem ser considerados “Republicans” do mar.
++++
Eu já havia estado em
Nassau em 73 durante um cruzeiro barato, no momento em que o príncipe Charles,
a bordo de uma fragata fundeada à proa do nosso Flávia “C”, assinava, por
procuração de mamãe, a independência das Bahamas.
Há quatro anos, justamente
na época das comemorações da independência, voltei aqui para trazer as crianças
para o ultra-kitsch mas bacanérrimo Atlantis, um theme resort cheio de
criaturas marinhas e com um parque aquático imenso.
Na ocasião pedi ao
Johnny que me indicasse uma operadora especializada em shark encounters, mas
acabei não mergulhando pois cometi o erro básico de marcar o mergulho para o
mesmo dia do vôo de volta para Miami. A pressão reversa, segundo o instrutor,
poderia ser fatal.
Dessa vez, quando junto
com os amigos Adri e Zé resolvemos trazer outros pequenitos para o mesmo
resort, programei a aventura de forma a ter um dia de intervalo entre os vôos,
e me preocupar somente em sobreviver aos predadores do mar.
Já no barco, fazemos
piadas e divagações de como os seres humanos somos capazes de pagar (e caro)
para expormo-nos a riscos como aquele que estávamos prestes a correr, ate
pararmos no lugar onde o mar do Caribe vai de azul piscina a indigo sem
qualquer aviso prévio, denotando uma abrupta mudança de profundidade. Ali acontece
o primeiro mergulho, mais como uma prévia do próximo.
Embora avistemos a
certa distancia os primeiros espécimes de Caribbeam Reef Shark, que é
exatamente o tubarão que imaginamos, quando imaginamos um tubarão,essa primeira
incursao ainda era só um aperitivo (para nos, não para eles).
Voltamos então para o
barco para sermos instruídos quanto ao segundo e definitivo encontro, que
consiste em um instrutor (que ao falar veste uma preocupante malha de ferro por
baixo da roupa de neuprenio) descer com uma caixa de peixes frescos, a ser
ofertada ao cardume enquanto nós incautos nos sentamos em um circulo
ritualístico, agarrados a pedras previamente posicionadas no fundo do mar.
A primeira e fundamental
regra, diz o instrutor é nunca esticar o braço, já que os bichos associam esse
movimento a oferta de comida. Seu maior risco ao fazê-lo não é o tubarão da
frente, que afinal você pode evitar recolhendo a mão, mas os outros que vem por
trás para disputar o acepipe.
Como na primeira descida eu
havia me adiantado e pulado na água antes dos demais, gastando
desnecessariamente o ar dos tanques, resolvi ficar por ultimo, o que me custou
momentos de pavor:
Pavlov explica. Os peixões
começam a circular a área assim que percebem mergulhadores que já haviam
descido se posicionando, portanto ao faze-lo, tive de atravessar uma
nuvem deles nadando por cima do “templo” , até poder agarrar em segurança (?) a
minha pedra.
Caixa aberta, o que
acontece só pode ser descrito como um enxame de tubarões em frenesi. No mínimo
duas dezenas passam por sobre nossas cabeças, roçam nossos braços, estapeiam
nossas faces com suas caudas e last but not least, vem em nossa direção para
desviar no ultimo segundo. Da ver de perto seus olhos inexpressivos de robô, e
ate restos de peixe entre os dentes.
Um deles tinha a boca
rasgada, provavelmente por um anzol, o que não melhorava nem um pouco seu
aspecto.
Lembrar das palavras de
Johnny não me foi la muito útil, já que sei que as piores guerras foram
iniciadas justamente pelos democratas Wilson, Roosevelt e JFK.
Por algum motivo associado
ao absurdo da situação e como se aquele estranho culto não estivesse realmente
acontecendo, me acomete um acesso de riso e uma vontade imensa de sinalizar
para os amigos ao meu lado, que trato de conter para evitar qualquer movimento
além do necessário. Nas fotos, apareço sempre com o polegar em riste, enquanto
o Zé por algum motivo protege o estomago. A outra, por eliminação é a Adri.
Passado uns minutos, a
musiquinha tema de Jaws desaparece das nossas cabeças e com ela o pavor, ai
passamos a admirar aquelas criaturas magníficas fazendo o que fazem melhor,
devorar os peixes.
No comments:
Post a Comment