Friday, August 06, 2010

when blue turns to grey

Nassau, 28 de julho 2010
Friday, August 06, 2010
when blue turns to grey


Quem conhece meu amigo John dos Santos sabe que não estou exagerando. Brasileiro de nascimento, americano por afinidade, Johnny fala um portuingles com genuíno sotaque texano, serviu no Vietnã e acha Richard Nixon meio comunista. Apesar disso é um doce de pessoa.Provavelmente o maior especialista no do trafego marítimo Brasil - Estados Unidos em todo o mundo, tornou-se uma lenda no shipping por trabalhar 24/7, conhecer cada um dos portos entre a Terra do Fogo e o Maine melhor do que os gerentes locais, e os navios da rota mais do que seus próprios comandantes.Recentemente, já com certa idade, resolveu relaxar um pouco e adquiriu o habito de mergulhar com tubarões. A cada chance que tem, sai mundo afora em companhia da mulher atrás de dentuços submarinos, documentando tudo de forma metódica em centenas de horas de filmagem.

Refere-se a esses animais que aterrorizam o inconsciente de toda uma geração pós-Jaws (valeu Spilberg!) como  maricas  ou democratas, o que para ele da no mesmo. Sharks are all sissy man, all democrats, costuma dizer ao passar os filmes,  pelo fato dos tubarões evitarem o confronto direto com as estranhas criaturas de pele de borracha, olhos de vidro e corcovas de ferro, principalmente quando tem coisa melhor para comer.

Para ele opinião somente os espécimes tigre e  branco podem ser considerados “Republicans” do mar.

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Eu já havia estado em Nassau em 73 durante um cruzeiro barato, no momento em que o príncipe Charles, a bordo de uma fragata fundeada à proa do nosso Flávia “C”, assinava, por procuração de mamãe, a independência das Bahamas.

Há quatro anos, justamente na época das comemorações da independência, voltei aqui para trazer as crianças para o ultra-kitsch mas bacanérrimo Atlantis, um theme resort cheio de criaturas marinhas e com um parque aquático imenso.

 Na ocasião pedi ao Johnny que me indicasse uma operadora especializada em shark encounters, mas acabei não mergulhando pois cometi o erro básico de marcar o mergulho para o mesmo dia do vôo de volta para Miami. A pressão reversa, segundo o instrutor, poderia ser fatal.

Dessa vez, quando junto com os amigos Adri e Zé resolvemos trazer outros pequenitos para o mesmo resort, programei a aventura de forma a ter um dia de intervalo entre os vôos, e me preocupar somente em sobreviver aos predadores do mar.

Já no barco, fazemos piadas e divagações de como os seres humanos somos capazes de pagar (e caro) para expormo-nos a riscos como aquele que estávamos prestes a correr, ate pararmos no lugar onde o mar do Caribe vai de azul piscina a indigo sem qualquer aviso prévio, denotando uma abrupta mudança de profundidade. Ali acontece o primeiro mergulho, mais como uma prévia do próximo.

 Embora avistemos a certa distancia os primeiros espécimes de Caribbeam Reef Shark, que é exatamente o tubarão que imaginamos, quando imaginamos um tubarão,essa primeira incursao  ainda era só um aperitivo (para nos, não para eles).

Voltamos então para o barco para sermos instruídos quanto ao segundo e definitivo encontro, que consiste em um instrutor (que ao falar veste uma preocupante malha de ferro por baixo da roupa de neuprenio) descer com uma caixa de peixes frescos, a ser ofertada ao cardume enquanto nós incautos nos sentamos em um circulo ritualístico, agarrados a pedras previamente posicionadas no fundo do mar.

A primeira e fundamental regra, diz o instrutor é nunca esticar o braço, já que os bichos associam esse movimento a oferta de comida. Seu maior risco ao fazê-lo não é o tubarão da frente, que afinal você pode evitar recolhendo a mão, mas os outros que vem por trás para disputar o acepipe.

Como na primeira descida eu havia me adiantado e pulado na água antes dos demais, gastando desnecessariamente o ar dos tanques, resolvi ficar por ultimo, o que me custou momentos de pavor:

Pavlov explica. Os peixões começam a circular a área assim que percebem mergulhadores que já haviam descido  se posicionando, portanto ao faze-lo, tive de atravessar uma nuvem deles nadando por cima do “templo” , até poder agarrar em segurança (?) a minha pedra.

Caixa aberta, o que acontece só pode ser descrito como um enxame de tubarões em frenesi. No mínimo duas dezenas passam por sobre nossas cabeças, roçam nossos braços, estapeiam nossas faces com suas caudas e last but not least, vem em nossa direção para desviar no ultimo segundo. Da ver de perto seus olhos inexpressivos de robô, e ate restos de peixe entre os dentes.

Um deles tinha a boca rasgada, provavelmente por um anzol, o que não melhorava nem um pouco seu aspecto.

Lembrar das palavras de Johnny não me foi la muito útil, já que sei que as piores guerras foram iniciadas justamente pelos democratas Wilson, Roosevelt e JFK.

Por algum motivo associado ao absurdo da situação e como se aquele estranho culto não estivesse realmente acontecendo, me acomete um acesso de riso e uma vontade imensa de sinalizar para os amigos ao meu lado, que trato de conter para evitar qualquer movimento além do necessário. Nas fotos, apareço sempre com o polegar em riste, enquanto o Zé por algum motivo protege o estomago. A outra, por eliminação é a Adri.

Passado uns minutos, a musiquinha tema de Jaws desaparece das nossas cabeças e com ela o pavor, ai passamos a admirar aquelas criaturas magníficas fazendo o que fazem melhor, devorar os peixes.







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