bariloche, 07 de setembro
(aos meus companheiros de viagem, grandes e pequenos)
Nem o Nahuelito, a versão patagônica do monstro do Loch Ness, ou mesmo o Rato Perez, colega argentino da fada do dente. Muito menos o fantasma de Gardel. Nenhum ser real ou imaginario leva a serio os atuais moradores da Quinta de Olivos/Casa Rosada, suas bravatas e seu descaso para com a lógica e senso comum. Acontece que o povo daqui tem certo fetiche por esse tipo de gente, e ai não tem muito jeito.
K-macho pretende suceder K-fêmea (quem viria depois dele, ela de novo ou o K-chorro do casal?) mostrando que a tendência dos partidos únicos na America Latina é mesmo para valer, apesar do mau exemplo ainda insepulto do PRI mexicano, que reinou por setenta anos e ainda reina, mesmo fora do poder.
Mas não estou aqui para falar da dupla Pingüim Estrábico/Magra Patológica . Minha intenção é discorrer um pouco sobre aspectos da Argentina que me vem à mente quando penso nesse pais que me fascina desde que a falta de uma autorização especifica de nossos pais impediu meu irmão e eu, meninos, de embarcar com nossos avos num aliscafo através do Plata. Ficamos em Colônia do Sacramento no Uruguai durante o final de semana, consolados pela piscina do hotel e sob a guarda do anjo negro Seu Milton, misto de motorista e baba e figura marcante da minha infância. De vez em quando olhávamos para o rio barrento cujo nome me pareceu inadequado, imaginando um lugar mítico chamado Buenos Aires em algum ponto da outra margem.
- Gosto dos argentinos (mesmo dos portenhos), o que faz de mim um brasileiro raro. Fatalistas, cultos e com uma rara capacidade de fazer graça de si mesmos, por algum motivo me dão a impressão de viver mais intensamente do que nos. Torci por eles nessa ultima Copa após nossa desclassificação, sabendo que poderia significar Maradona presidente. Mesmo por que não faria a menor diferença.
- Quase tudo na historia argentina é mais intenso do que na do Brasil, como se a trilha sonora da nossa fosse bossa-nova e a deles, claro, tango. Ao contrário dos nossos barões do café que se contentavam em mandar nos políticos, os estancieiros aqui governavam eles próprios. Alguns caudilhos como Rosas, com o chicote na mão. Riquíssimos, esses senhores do campo moldaram a elite local a sua imagem e semelhança, enquanto nos tivemos principalmente em SP uma riqueza mais urbana e, portanto um pouco mais progressista. Perón, o Vargas daqui, foi muito mais nefasto do que o nosso, criando para sempre a noção/nação de nós (os justos) contra eles (os injustos) - não à toa o nome oficial de seu partido é Justicialista – dividindo os argentinos até mais que os militares antes e depois dele, como disse o grande Astor Piazolla. Seu movimento, turbinado por um culto a sua mulher precocemente morta e com pinta de santa do pau oco, acolheu desde nazistas fugitivos da Alemanha até guerrilheiros estalinistas, comparados aos quais os nossos Lamarca e Marighela eram escoteiros mirins. A ultima ditadura militar que reinou por aqui era quase toda de Frotas e Burniers, para quem o próprio Videla era muito blando. Seu lema: mataremos primero los subversivos, despues sus colaboradores, luego sus simpatizantes, e por fin los indiferientes. Resultado: 30.000 mortos.
- Os argentinos nutrem por nosotros um misto de admiração e desprezo. Eram mais industrializados até 1975 e, conseqüência da radicalização política e de um sindicalismo desenvolvido mas desvirtuado, perderam para nos a posição de queridos do capital internacional no sul da America. E se nos gabamos de ter hoje multinacionais brazucas, eles já as tinham há muito, como por exemplo a Bunge (Y Born) que depois de ter seus donos seqüestrados por peronistas de esquerda (uma contradição em termos já que o General era fã de Hitler e Mussolini e hospede de Franco) mudaram a sede para SP.
O pavor de se tornarem satélites do Brasil acabou por fazê-los quase reféns de gente muito mais perigosa, como o nosso velho conhecido Hugo Refugo, que (e isso vi na televisão Venezuelana na única noite que passei naquele buraco) trata Cristina com uma suspeitíssima intimidade.
- O motorista que nos leva para o aeroporto comenta da ingerência americana na Argentina, coisa que não ouço mais no BR nem dos petistas mais encarniçados. Parece mais um arroubo da lendária pretensão desse povo, ou será que os EUA se preocupam com a Argentina a essa altura do campeonato? Sei muito bem que num passado recente Kissinger e Cia fizeram bobagem apoiando facínoras locais, mas são erros menores na política externa americana quando se pensa que se eles não fossem intervencionistas, a suástica (ou a foice e martelo) ainda poderia estar tremulando no alto da Torre Eiffel.
- O gosto musical médio é muito melhor que o nosso. Nos bares do Cerro Catedral ouve-se boa musica dos anos 60/70 enquanto em seus similares nas praias brasileiras tocam coisas de lascar. Muitos artistas se apresentam somente em BA na America do Sul e mesmo gente como os Stones ou U2 cujo mega-custo de produção obriga a passar primeiro por outros países, se sentem muito mais a vontade diante da platéia argentina, mais sintonizada em musica popular universal do que o resto do continente.
- BA tem provavelmente mais cafés e livrarias do que o Brasil todo, e provavelmente mais psicólogos e psiquiatras por metro do que qualquer lugar do mundo, quase todos concentrados num bairro chamado Vila Freud.
- Embora SP seja hours concour em restaurantes, aqui é possível comer-se bem até em cidades pequenas, o que não ocorre norte da fronteira. Por outro lado, eles comem partes do boi que não daríamos nem para os cachorros.
- Temos Pelé, eles têm Maradona. Temos Tom, eles Piazzola. Para por ai. Eles vários prêmios Nobel, um ícone do comunismo mundial (o que não é pouco se pensarmos que nunca houve uma revolução comunista aqui) e um escritor universal, Borges (ah, espera ai, nós temos Paulo Coelho, cujo ultimo livro chama-se, ó vida, ó dia - o Aleph).
- O cinema entao, tudo que produzimos ate hoje , Galiber (o chato ) inclusive, nao pagam os primeiro cinco minutos de O Segredo de Tus Ojos.
No banca do aeroporto me chama a atenção um mapa da AL a venda, desses que representam cidades e acidentes geográficos em alto relevo e de forma desproporcional. BA aparece muito maior do que SP, Santiago não existe, e no canto inferior direito um arquipélago maior do que o Pólo Sul onde se le: Malvinas Argentinas.