Thursday, February 11, 2010

o dono do mar

Caetano Veloso perguntado certa vez sobre ACM disse o seguinte: Antonio Carlos me trata bem, assim como à minha mãe D. Canô. E é um homem que ama profundamente a Bahia. Mas não aprecio a sensação de viver num lugar que tem dono.


Jose Ribamar Ferreira das Quantas, vulgo Sarney é o dono do Maranhão. E é um dono que a exemplo dos velhos landlords ingleses da revolução industrial, ou dos proprietarios dos cortiços brasileiros de todos os tempos, cuida mal da sua propriedade.


Embora nem tão belo quanto os outros estados do norte em termos de praias e mar já que, assim como o Paraná sofre de uma baia onipresente, o Maranhão poderia sim ser um paraíso de outra natureza.


Conta com um porto natural de águas profundas, quatro dias mais próximo do mundo consumidor em relação aos seus concorrentes do sul, e cuja viabilização (o que existe de bom foi feito pela para-estatal Vale) seria a redenção do Estado.

Assim como Rotterdan foi para a Holanda ou Antuérpia apara Bélgica, um porto é fator quase que suficiente para enriquecer uma região. No caso de Itaqui, obras assim nem tão chinesas dariam vazão ao plantio de todo o serrado, região pobre mas extremamente agriculturável, beneficiando de quebra, vários outros estados.


Sabe-se disso há anos, mas nunca se conseguiu que o terminal ultrapassasse a capacidade de dois milhões de toneladas de cereal, embora a larger than life Vale carregue por la mais de mais de 80 em minério de ferro.

São Luiz, terra de Souzandrade, com um pouco de carinho seria um destino turístico fantástico, dado à riqueza arquitetônica colonial portuguesa, alem de ser ponto de partida para os lençóis, onde não fui, mas acredito serem imperdíveis.

E talvez não custasse quase nada. Muitas das empresas que já operam no estado, se bem orientadas e incentivadas, adotariam de bom grado vários casarões, mantendo-os pintados e em ordem e até eventualmente ocupando alguns. Outros poderiam servir as repartições públicas e faculdades, que abandonariam os horrendos sub bauhaus que ora ocupam. Bares e restaurantes, deslocados das margens da fétida lagoa da Jansen (um estranho tributo a Ana Jansen, mulher má e com fama de assombração que matava seus escravos e os jogava na lagoa, antecessora, portanto da atual dona do pedaço), e mais outras medidas que não conheço, mas que deram certo em Lisboa e Salvador e que estão ai para serem copiadas.

Mas talvez não tenha graça mandar num lugar onde sua riqueza não apareça tanto. Vai ver que essa gente gosta é de reinar na lama. O que mais explica esse homem que influencia a republica a meio século, tendo inclusive sentado no trono maximo por um acidente histórico, e que nada ou tão pouco tem feito pela terra onde, imagino vá enterrar seus ossos.

Mas se Sarney não ama o Maranhão, o Maranhão também não ama Sarney. Ao contrario de outros capos de base regional, há anos ele não se elege senador por aqui, e a filha só se tornou governadora com um golpe palaciano do tipo que nem em Honduras colaria.

De Zequinha Usay e Fernandinho Kuday , nem falo.

Recentemente o clã quis fundar no interior do estado onde tem mais força, uma verdadeira Sanreylandia, já que essa aqui anda meio rebelde. Chamariam de algo como Maranhão do Sul, replicando assim o poder que tem no do Norte. Cargos, representações federais e cabides de emprego, tudo em dobro. Imagino que teriam conseguido se tivessem se empenhado mais, caso não recuperassem o poder para a menina. Afinal “se o estado não é mais totalmente nosso, criamos outro”.


Poderia fazer uma piada infame sobre o fato de o dono do mar ser também dono de suas criaturas, entre as quais as tentaculares, mas o assunto é serio. Mesmo que alguém invoque a governabilidade, Realpolitik, o pragmatismo, a necessidade de se atender o Congresso ou qualquer outra justificativa dessas que se arruma para perdoar o Líder, fico feliz de nunca ter sido um fã do filho do BR, ou essa aliança em especial me teria arrasado.

Posso concordar com Dawkins e Hitchens que Deus não exista. E muito menos o Céu. Mas o inferno, ah esse tem de existir.

Tuesday, February 02, 2010

human rights (and wrongs)

I

Normalmente não escrevo sobre assuntos do momento. Simplesmente por que provavelmente alguém o fará muito melhor do que eu poderia. Se o BR não é la muito prodigo em escritores, temos alguns bons cronistas.

Ocorre que domino o assunto. Li praticamente tudo que me caiu nas mãos sobre as guerras internas entre a esquerda armada e a direita militar nos diversos países da AL durante os tais anos de chumbo, portanto me acho credenciado a mexer nesse vespeiro.

Considero meio esdrúxula essa discussão sobre direitos humanos, o tal PNDH do Lula, principalmente no que se refere a fatos ocorridos há mais de trinta anos. È como se abusos contra presos e pobres e principalmente presos pobres não fossem cometidos todos os dias por aqui, e a sociedade ainda não tivesse de ser convencida que justiça nada tem haver com vingança.

Como se da ditadura para ca, tivéssemos virado a Suécissia.

Gosto de me aprofundar nesse período histórico, assim como quem estuda a Revolução Francesa ou as Guerras Púnicas, desapaixonadamente. Ou quase, ja que vivi tudo aquilo, embora menino que pouco entendia o que se passava. Absolutamente influenciado pela opinião publicada, lembro que a cada rapto de embaixador me imaginava transformado numa espécie de Capitão Brasil, partindo para o resgate, surrando os terroristas e sendo condecorado pelo vovô Médici em pessoa. Sim, pois éramos todos facistinhas, cantando o hino duas vezes por dia, não só o nacional, mas do soldado, o da bandeira (salve o lindo pendão da esperança..), e, graças às doses massivas de propaganda e aulas de OSPB, tinhamos como certo de que vivíamos no melhor lugar do mundo. Muito embora as vezes eu mudasse de lado e partisse para “seqüestrar” o Galaxie do meu avo, pilotado pelo impagável seu Milton, para um lugar estranho chamado Cuba.

Para começo de conversa, não houve no BR uma Guerra Suja como na Argentina. Aqui foi mais uma caça ao coelho dada assimetria das forças, como dizem os americanos. De um lado um exército coeso e bem aparelhado. Do outro, grupelhos mal armados e mal amados. Tanque contra atiradeira.

La embaixo o buraco era outro. Los combatientes tinham algum apoio popular, principalmente entre peronistas de esquerda (uma contradição em termos já que Peron era proto-nazista, e mais do que tudo um oportunista), e contavam com armamento pesado e recursos financeiros vultosos, provenientes de seqüestros e extorsões. Só o dos irmãos Born, donos e época da empresa que viria ser a Bunge rendeu aos Montoneros 60 milhões de dólares, e isto em 1974!! E as forças armadas, sem querer lutar por uma presidenta que desprezavam, nunca desferiam um golpe mortal as guerrilhas. Ate que tomaram o poder em 76, e ai descerem a borduna.

Embora processo "civico - militar" argentino tenha sido de longe o pior do Cone Sul (ate como reposta a uma guerrilha mais cruenta, mas que não se limitou a ela), a questão foi resolvida no momento oportuno e da forma correta. Raul Alfonsim, o primeiro presidente civil pos ditadura, que a Deusa da Justiça o tenha, meteu todo mundo na cadeia, desde o líder fujão dos Montoneros, Mario Fiermenich que abandonou o barco nos primeiros meses do golpe deixando a meninada para morrer, até o ex-presidente Videla e toda a cúpula militar-facínora.

Se o seu sucessor, o mega pilantra e ultra cafona Menem concedeu anistia aos fascismos das duas extremidades, supondo como todo populista messiânico que inaugurava a historia, isso é outra conversa.

Talvez tenha sido mais fácil para Alfonsín, advogado ligado a presos políticos , do que teria sido para o conciliador Tancredo ou vira casacas Sir Ney, mesmo por que o galho dos gorilas argentinos caiu de podre depois do fiasco das Malvinas. Ja aqui e em outros lugares a saída da milicada foi “negociada” fuzil na mão. Ainda assim Raul teve de encarar o movimento dos Carapintadas e outras escaramuças, perpetradas por parte da tropa que via como uma infâmia julgar os generais salvadores da Pátria.

No momento certo, cadeia teria sido aqui o lugar para os dois demônios, como Alfonsín definiu os dois lados da mesma moeda, tanto aqueles que pegaram em armas para tentar impor suas idéias de felicidade aos outros (que não as compraram, ou nenhuma repressão teria sido suficiente), quanto para os que os combateram a margem da sociedade.

Quem pretende o poder que se organize politicamente, mesmo que leve anos. E quem o exerce tem obrigação de fazê-lo dentro a lei, mesmo que o tenha tomado a força.

Farred Zacharia disse com razão que se o pai que denunciou recentemente o filho terrorista preso a bordo de um avião nos EUA imaginasse por um segundo que o ele seria torturado ou morto (mesmo com Guantánamo e tudo mais), não o teria entregado as autoridades

Ao combater o terrorismo com as próprias mãos sujas, os militares Sudacas perderam a legitimidade e o suporte da população, que na maioria dos países da região os apoiou num primeiro momento como alternativa a corrupção civil e a delinqüência da esquerda.

II

Sou adepto a Teoria dos Dois Demônios. Execro esse aspecto means to an end dos militares do continente que os nivelou aos stalinistas que combatiam – mesmo podendo reconhecer algum mérito neles.

E embora despreze a maioria dos movimentos guerrilheiros da época e mais ainda os que viriam depois como 0o Sendero e as Farc, confesso ter certa simpatia histórica pelos Tupamaros uruguaios. Assim mesmo somente em sua primeira fase, quando eram surpreendentemente ousados e inteligentes, pero sin perder la ternura jamas.

Nunca matavam e escapavam por baixo da terra , usando os esgotos de Montevidéu como os vietcongs usavam seus tuneis, cujo traçado, após terem pacientemente trocado as plantas originais do subsolo da cidade na prefeitura por registros falsos, só eles conheciam.

Perderam-se quando os líderes históricos foram substituídos por uma geração mais nova e militarista, alinhada ao perros do ERP argentino e críticos da postura Robin Hood dos primeiros tempos. Foram os primeiros a negociar seu salvo conduto com os militares, entregando os velhos líderes de bandeja.

Após presos, a cúpula histórica, nove ao todo, foram sacados numa noite do presídio de Liberdade (!) e, em grupos de três, revezados pelos quartéis do país. Trancados pelos catorze anos seguintes em buracos mínimos e sem janelas, quando não em poços com água até o joelho, passavam dias sem que lhes dessem de beber e comiam no chão aquilo que a tropa se recusava a ingerir. Proibidos de ler, escrever e receber visitas, alguns ficaram ao todo até cinco anos sem comunicação com ninguém alem das sentinelas, que não perdiam chance de maltratá-los, principalmente os mais jovens e aqueles que, por não ter tido a chance (ou a coragem) de combatê-los, tentavam impressionar o comando.

O que a não ser a reles vingança e sentimento de impunidade dos donos do poder, ultrajados com o fato de alguém haver questionado o monopólio do uso das armas que as forças armadas entendem ter, explica tal punição? Afinal eles não tinham mais nenhuma informação relevante e o movimento ja havia sido destruído.

Acontece que tiro saiu pela culatra. Ao tirá-los do convívio da militância encarcerada em Liberdade (!!), os militares os pouparam de longos debates e autocríticas próprias da esquerda, que fatalmente os teria desmoralizado e os devolvido a reles condição humana. Ao isolá-los dos outros e submetê-los a um tratamento barbaro, criaram os mártires e mitos com fama de indestrutíveis que quiseram evitar ao não matá-los no momento de suas prisões.

O fundador do movimento Raul Sendic, baleado no rosto ao ser preso em 72, não foi morto por que não se queria “criar outro Che Guevara”.

Embora tenha morrido em 89, quatro anos após liberado, em conseqüência das seqüelas da prisão, outro dos Reféns da Ditadura (sim por que os generais alegavam que os matariam se o movimento continuasse a combater) Pepe Mujica é hoje o presidente da República Oriental do Uruguai. Coisa impensável para um Fierminich ou Vaca Narvaja na Argentina. Seu companheiro de movimento e calabouço Fernandes Huidobro, senador mais votado nas eleições que disputou, disse que pela primeira vez na historia o Uruguai tinha um presidente que já havia tomado a própria urina.

Aqui no BR, a esquerda armada não empolgou a época, mas também não é odiada. Dilma, que segundo a própria lavou muita louça com Lamarca é séria candidata a colega de Mujica. Assim como Serra, que não foi guerrilheiro, mas esteve exilado e quase foi morto no famigerado Estádio Nacional, transmutado em campo de concentração durante o golpe do Chile.

Trinta e sete anos depois daquele outro onze de setembro, Marco Enriquez, o filho do líder do MIR - Movimento da Esquerda Radical, foi também bem votado nessa eleição presidencial. Seu pai Miguel, morto pela Dina, poderia ter tomado o poder se Pinochet não o tivesse feito, já que Allende iria cair para um lado ou para o outro. Apesar da boa votação da esquerda, a presidente Bachelet acabou saindo pela direita, no movimento pendular próprio do continente.

Prova que o mundo mudou, durante seu mandato que agora finda no pico da sua popularidade, a dama do Chile optou por construir um museu que mostrasse para as novas gerações uma parte importante de sua historia, a perseguir esse ou aquele, apesar de também ter tido o pai assassinado pelo bondoso General Contreras e ter sido ela própria torturada.


E mesmo o velho Tupa parece não querer se alinhar com a esquerda carnívora do continente, representada por Chaves, cuja folha de lutas ao contrario da de Pepe e outros, é marcada pela covardia e oportunismo.

III

Mas voltemos ao Plano iluminado. É extremamente difícil entender e julgar comportamentos e atitudes daqueles tempos, auge da quentíssima guerra fria, seus maniqueísmos, perigos reais e inventados, pela ótica atual de um mundo completamente diverso e praticamente resolvido nos aspectos ideológicos. A grande questão hoje não é mais optar-se entre socialismo e capitalismo, já que o primeiro, esta provado, só funciona (e mal) com a policia na rua e o outro não necessariamente. Hoje se discute com muito mais propriedade o que deve permanecer publico e o que deve ser privado.

Alguns dos ex combatentes da esquerda mais esclarecidos, o presidente uruguaio entre eles, se alegram de não ter vencido, já que teriam de ter dizimado muitíssima gente pára consolidar e manter o poder. Allende não quis fazê-lo e caiu para direita, como teria caído para a esquerda um pouco mais a frente.

Se o preço a pagar pela paz social foi deixar facínoras de ambos os bandos soltos, agora é tarde. Parece mais demagogia eleitoral do que compromisso com a historia. Ou algo muito pior, uma desculpa esfarrapada para dar vazão ao ímpeto totalitario de parte da turma no poder.

Já que não foi feito na época devida, melhor seria fazer como disse o Marley via Gil:

-Deixar pra trás.

+++
`Epilogo:

Quanto a velha Argentina, que adotem agora e para sempre o slogan :

“O Peronismo se evita”.