Monday, March 14, 2011

mario é o maior

davos fev 2011

Reconheço que elogiar um escritor que acabou de ganhar o premio Nobel de literatura é redundante, para não dizer suspeito. Meu álibi é que sou fã de Mario Vargas Llosa há anos.

Mais precisamente desde que me caiu nas mãos o seu A Festa do Bode, magistral retrato da ditadura de Trujillo na Republica Dominicana e de resto todas as que vieram antes e principalmente depois, como atestam os recentes acontecimentos mundiais.

Desde de então li boa parte da sua obra, alem de ter tido a sorte de topar com ele recitando contos e passagens literárias num teatro de Madrid.

Talvez por que a história seja ambientada em seu país natal, esse misto de Tibete, México e Egito, mas de características muito próprias que é o Peru.

Ou por que ao ler, eu estivesse habitando outra majestosa cordilheira. Provavelmente tenha haver também com o ambiente literário do hotel, que hospedou por varias ocasiões Hermann Hesse em suas temporadas de esqui, e em cujo prédio funcionou até os anos 30 o sanatório retratado por seu amigo e conterrâneo Thomas Mann em A Montanha Mágica. O fato é que devorei Lituma Nos Andes de MVL em poucas horas, e o considero seu melhor livro so far.

A trama acontece nos anos 80 ou 90, quando o sanguinário e demente Sendero Luminosos, grupo guerrilheiro de orientação maoísta-stalinista (justamente quando essas ideologias estavam sendo banidas da face da Terra) atuava nas serras peruanas. O movimento havia sido fundado pouco antes pelo medíocre professor universitário Abimael Guzman , o Presidente Gonzalo, para quem Fidel e Che não passavam de uma dupla de maricas e todos os lideres soviéticos, Kruschev em diante, traidores revisionistas. Gordo e portador de psoríase, o auto intitulado “Quarta Espada do Socialismo” (Lênin, Stálin, Mao e ele, pode?), Abimael nunca ia selva e despachava de seu apartamento no centro de Lima, até ser preso, não pelos brucutus de Fujimori e Montesinos, mas graças a um brilhante trabalho de inteligência da policia cientifica, coisa inédita na AL.

Na trama, contada em vários tempos que se intercalam sem aviso prévio à moda de Mario, seu personagem constante o Cabo Lituma e seu auxiliar que nutre uma paixão incondicional por uma vagaba costeira, são designados para resolver um misterioso desaparecimento em um acampamento de mineiros nas serras andinas. Isso em meio à ameaça real dos terrucos do Sendero, bem como as crendices e superstições dos serranos, que naquelas noites frias e estreladas dos Andes devem parecer igualmente bem reais.

Alguns trechos, habilmente deslocados do enredo, dariam por si só belos argumentos para peças, filmes ou mesmo outros livros. Como quando a certa altura somos transportados para uma vila miserável onde os senderistas instalam outro de seus “Tribunais Revolucionário Popular”. Os habitantes são “convidados” a julgarem uns aos outros, revelando assim toda sua mesquinhez, mágoas e ressentimentos. Mulheres entregam maridos violentos que são chicoteados pelas próprias. Clientes obrigados a pagar medicamentos com dentes de ouro ou com seu ultimo porquinho, esmagam a pedradas o crânio do farmacêutico sovina. O padre com fama de pedófilo é decapitado pelos fieis. E assim por diante, ate que o exercito chega no dia seguinte, e tudo é debitado ao Sendero. A comunidade volta à normalidade como se nada houvesse passado, não sem antes entregar mais alguns supostos colaboradores dos terroristas, barbarizados pela topa.

Shakespeare na Cordilheira.

Em outro momento, a narrativa é interrompida e somos apresentados a uma antiga lenda peruana, que remete (sem nunca mencionar), a Jung seus arquétipos e o conceito de consciência universal que unem civilizações distintas e estanques. Um Pistacho, o mítico degolador de homens que seca a gordura dos corpos das vitimas e as fatia, é caçado e morto num labirinto de cavernas locais por uma espécie de Teseu caboclo, com Ariadne queucha e tudo, que da uma solução, digamos “peruana” ao conceito do fio.

Parabéns a academia sueca que de certa forma fez justiça, quae será tamen, por ter negado o prêmio ao também latino americano Jorge Luis Borges 25 anos atrás, considerado muito de direita para os padrões da época. Bobagem, Borges era somente (como se fosse pouco), Borges.

A propósito, Mario Vargas Llosa é um liberal pro - mercado que teve sua cabeça posta a premio durante os anos malucos do Sendero. Perdeu a eleição para presidente para o sub-yakuza Fujimori, mas ganhou o mundo.
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