Wednesday, June 01, 2011

dylan, julio e marcelo.

Montreal 24.05


Bob Dylan faz 70 anos hoje.

Destacar a importância dele no contexto da musica popular do século passado (e presente) é chover no oceano, contudo nunca é demais lembrar como com Dylan a temática pop amadureceu.

Das letras primarias que falavam de amores idealizados e carrões (ok, algumas maravilhosas como as de Chuck Berry, mas ainda assim tolinhas) passamos a ter em certas composições pop a profundidade da literatura. Mesmo os Beatles que se limitavam a “Querer Segurar Sua Mão” ou dizer-lho o quanto “Ela o Ama”, devem a ele a quebra de paradigmas que os levou à coisas bem mais viscerais como Eleonor Rigby (Paul) e A Day in The Life (John).

Quem mais teria peito ou tarimba para em 1965 sair com Like a Rolling Stone, a história do anjo caído, a riquinha mimada que, espoliada por um amante picareta (You used to ride on the chrome horse with your diplomat /Who carried on his shoulder a Siamese cat... que imagem!) perde tudo e cai de boca na sarjeta tendo de dividir o pão dormido com um vagabundo misterioso que alias, remete ao próprio autor.

Joni Mitchell diz que ao ouvir pela primeira vez Positvelly 4th Street, ode a inveja e ao distanciamento que a fama e o sucesso causam nas pessoas próximas (dedicada, dizem a Joan Baez), pensou:

- Agora sim podemos escrever sobre o que quisermos.


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Tenho uma passagem engraçada envolvendo Dylan. Anos atrás ele abriu um concerto para os Stones no BR, alem de subir ao palco com eles para cantar, adivinhem, Like a Rolling Stone. Hospedei-me no Maksoud SP com a Ex, na esperança de topar os glimmer twins pelos corredores, ou no mínimo com a divertida entourage da banda. Mas os velhos nos ludibriaram e tomaram logo após o show, um jatinho de volta para o Rio, onde a festa provavelmente comia solta. Bem feito para Jagger que acabou levando o golpe da barriga da tal Luciana, mas isso é outra história.

Mas Bob estava la. Ao chegarmos ao hotel deparamos com ele no lobby visivelmente inquieto, andando de um lado para o outro. Depois soubemos pelo Zé Buffo que assistiu a cena, que ele esperava impaciente por um mensageiro que traria um chapéu de caubói vindo sabe se la de onde e que seria usado na performance.

Na volta demos novamente com ele, desta vez conversando animadamente (tanto quanto Dylan é capaz de mostrar animação) com um sujeito que pela indumentária e inglês espanholado me pareceu um argentino rico. A Ex, exibida como ela só e abusando da condição de grávida, se meteu no meio dos dois e pediu para ser fotografada. O tal sujeito, simpaticíssimo (talvez por isso eu devesse ter desconfiado não se tratar de um argentino) concordou de pronto e ainda fez o seguinte comentário apontando para o barrigão: “This boy will be a genius, being photografed beteween two genius’’. Portenho da gema, pensei .

Dylan ficou em baixo com uma moça que havia chegado, enquanto o personagem misterioso adentrou conosco o elevador panorâmico mais o carregador de malas vestido (idiossincrasia dos doidos irmãos Maksoud) aquela roupinha cor de vinho barato com botões dourados e chapéu ridículo de mico de realejo.
Imediatamente lembrei-me da ótima cena do Mistery Train de Jim Jarmush, na qual Screaming Jay Hawkins faz um gerente de um hotel decadente em Memphis que achincalha um rapaz vestido da mesma maneira.

O tal caballero galante, cuja pele de perto notei, era bem esburacada, como um alguém que tivesse sofrido de varíola,(o que comprova algumas lendas sobre seu controle obsessivo com fotos) seguiu gentil e gabola no trajeto ate nosso andar. Despediu-se de nos que, acompanhados por “miquinho” nos dirigimos ao quarto e continuou subindo, provavelmente em direção a suíte presidencial. Comento, para a total indignação do rapaz que nos acompanhava visivelmente um fã: “mas que figuraça, quem será que ele pensa que é?”

“Como assim?” diz ele, “Júlio Iglesias, ora”.

Epilogo: Th não é um gênio, mas é um menino fantástico e a foto, única evidencia, não saiu.

Hoje também é aniversário do meu primo e amigo Marcelo Barreto a.k.a Madureira. Junto com alguns colegas de faculdade ele ajudou a reinventar o humor no Brasil pós-abertura, quando esse se encontrava num beco sem saída. Simplesmente burlar a censura já não era mais suficiente para fazer ninguém rir.

Happy birthday to both.

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