Friday, August 26, 2011

carta pro leandro

Li em poucas horas o Guia do Politicamente Correto da America Latina. Resolvi escrever para o autor, que e amigo da Paula.




Caro Leandro, Li seu Livro e gostei. Sou um aficionado por história recente da America Latina e também escritor, embora numa perspectiva quase artesanal e sem pretensões de alcançar o mercado editorial, como você tem feito com sucesso. Primeiramente quero lhe parabenizar pela iniciativa. Acho importante que mitos consagrados sejam desmontados, como foram Che, Allende, Perón e outros no seu Guia. Alem do mais já existem obras demais exaltando essa gente, cuja herança e em maior ou menor escala, foi realmente danosa para o continente.

Ocorre que realidade é mais complexa e alguns desses personagens (que repito, precisam ter seus “lados maus” expostos) não me parecem totalmente retratados, embora eu tenha entendido perfeitamente que a intenção não era essa. Vou me abster de comentar sobre Bolívar e Pancho Vila de quem pouco sei. Mas me considero conhecedor da historia recente de Cuba, Argentina, Chile e do não citado no livro, mas igualmente fascinante Uruguai. Se não vejamos, - Allende, assim como 99,9999% dos políticos de qualquer lado ou facção, não era flor que se cheirasse. Mas consta a seu favor que tinha intenção de chamar um plebiscito, para que o povo pudesse dar sua impressão sobre as reformas que vinha imprimindo no Chile, justamente no dia (óh dia) 11 de Setembro. Seu partido, a Unidade Popular, já havia ganhado uma eleição no ano anterior e provavelmente venceria o tal plebiscito.

Mas alguns líderes mais afoitos, como de resto gente como o Lacerda aqui no BR (a quem, em parte, admiro) achava que mais valia jogar o pais nas mãos de tipos bem mais facínoras do que SA, imaginado que o poder lhes seria entregue logo em seguida. Ocorre que como na velha lenda do diabo na garrafa, é mais fácil tirar o exercito dos quartéis do que colocá-lo de volta. Não há divida que o Chile de hoje é um sucesso econômico, o que para muitos inocenta Pinochet et corja. Eu discordo de tal indulto, até por que quem gosta de justificar os meios pelos fins é justamente a esquerda, e ai vale dizer que Stalin industrializou a agrária Rússia, Fidel deu educação e saúde ao povo and so forth. Pode se dizer também que Allende estava fadado cair. Nisso eu acredito. Os pessoal da ultra-esquerda do MIR, (correspondente à esquerda dos fascistas do “Pátria e Liberdade”), o achavam muito blando por não fuzilar uns tantos e não fechar o Congresso . Na certa acabariam derrubando o velho, caso o Exercito não chegasse antes..

Mas nem isso inocenta Pinochet et Cia (com trocadilho), que tinham obrigação, sim de manter a democracia intacta, alem do alcance das bestas extremistas dos dois lados. Sei perfeitamente que as coisas não funcionavam assim naqueles tempos e o próprio presidente poderia ter sido obrigado a radicalizar para se manter vivo. Nunca saberemos. O que sei é o que vi. Há um documentário chamado a Batalha do Chile, que apesar do viés claramente esquerdista, vale a pena. Salvador aparece dizendo a malta que não iria fechar o Congresso, e não o fez, nem quando negaram a ele o direito de decretar Estado de Sitio, o que poderia ter evitado o golpe.

Don Augusto não teve tanto fairplaiy quando assumiu. Fechou o Congresso e chutou a bunda da própria direita civil (Frey e turma) que o colocara no poder. O belo filme A Casa dos Espíritos, baseado numa obra de Isabel, a sobrinha de SA, traz uma cena de um senador conservador da elite do campo, humilhado pela rude soldadesca que costumava lhe bater continência antes do golpe. È claro que o socialismo é um horror, que desorganiza a produção e quebra a hierarquia tão necessária para o bom funcionamento econômico, alem de coibir a mola mestra da historia, que é justamente o progresso individual. È obvio que não é recomendável entregar a gerencia de uma empresa a uma comissão de fabrica como se fez no Chile, assim como não se pode querer que as galinhas administrem o galinheiro (ou os porcos como quis Orwell), mas não há como negar o embargo americano e a sabotagem empresarial foi fundamental para a derrocada da UP. Não que eu culpe os EUA. Após a ameaça nuclear que Cuba chegou a ser em 1962, não vejo como um império pudesse agir diferente em relação a qualquer paizinho que se metesse à besta. E Deus sabe como são necessários os impérios num mundo violento e bárbaro como esse. Mas na qualidade de Império, eles têm também de ser violentos e impiedosos, e o são. Minimizar a participação da CIA nesse episodio, assim como em Jacarta ou Terã anos antes, é um erro. Alem do mais, America Latrina da época era um lugar muito diferente num mundo muito diverso do que vivemos hoje, e experiências como as da UP foram importantes até para mostrar que aquele não era o caminho.

Concordo com vocês, entretanto que o errado é essa nostalgia dessa coisa que deve ser tratada apenas como historia, sem paixões contra ou a favor. Mas talvez o imperialismo (sim, ele existe) tenha se tornado mais civilizado do que era antes, por que percebeu que não poderia seguir derrubando governos e financiando facínoras indiscriminadamente. Este mérito a esquerda latina tem. - Che Guevara não e o herói que a engenharia política de Fidel tentou fazer colar, mas tampouco é o demônio desalmado que vocês pintam. È um personagem histórico, com todas as suas contradições e que também não deve ser analisado pela ótica atual. È o mesmo erro que a esquerda incorre ao atribuir uma moral moderna a gente como Cortez e Pizarro, para quem (pensamento comum a época) aqueles que não eram batizados ou brancos, nem poderiam ser chamados de seres humanos.



Desancar Che que teve o mérito de morrer antes de suas idéias (ao contrario de Fidel e outros) é mais ou menos como pintar a juventude dos anos 60, que protestou no mundo inteiro com o que tinha a mão (mesmo em países ricos e até no mundo socialista) por que parecia o certo a fazer, como um bando de zumbis estalinistas a serviço do império soviético.


Sou mais velho que vocês e posso dizer de cadeirinha que isso aqui era o fim do mundo. A desigualdade social e a indiferença das elites doíam (como doem ate hoje, ainda que menos) e havia muito de autentico nesse sentimento de revolta.

Incomoda-me um pouco esse revisionismo histórico (também tão caro à esquerda!) de que tudo não passou de um diabólico plano para entregar o mundo ocidental de bandeja a Brejnev et caterva. Os EUA, em que pese ser provavelmente a mais bem sucedida experiência social da história, cometeram erros imensos que precipitaram muitas dessas situações south of the border. Provavelmente Che matava traidores por que em sua lógica um processo revolucionário, por mais horrível que isso possa ser, passa por eliminar uma classe (Allende não entendeu e foi eliminando), numa espécie de Darwinismo histórico. Mas também há registros de que ele, enquanto medico, atendia feridos entre os inimigos e não admitia tortura. Há que admirar caras como Che e Allende que morreram quando podiam ter fugido. Tinham falhas de caráter sim, mas num continente de Sarneys, Videlas, Malufs, Fiermenichs (o maldito e fujão líder dos ensandecidos montoneros argentinos), Hugo Banzers, Somozas, Fleuris, Menens, Fujimores, Abimaeis ufa.. e outros tipos horrendos, não me parecem tão ruins assim. Perón eu não discuto. Lembro sempre de Piazolla dizendo que, mais que os militares, Perón destruiu a Argentina por impor a idéia de nos (os bons) contra eles (os maus). Trata-se de um maniqueísmo tremendo, mas que encontra eco no inconsciente coletivo argentino, ou não colaria por tanto tempo. Não à toa Buenos Aires tem um bairro chamado Vila Freud e é a cidade com maior numero de terapeutas por habitante. Aquilo é um pais no divã, embora seja surpreendente em muitas coisas. Admiro a coragem de Che, Allende, Raul Sendic e gente como o Bacuri e Stuart Angel (que foram destroçados sem abrir a boca), assim como admiro Roberto Campos e mesmo alguns generais brasileiros, porque sou um ser ideológico. Ja JDP só via seu umbigo, e por informações que obtive no seu livro, um pouco abaixo também. Manipulou a esquerda e a direita a seu bel-prazer, a ponto de inspirar uma guerra entre as duas facções (montoneros x Triple A) da sua própria e falsa ideologia. Por fim, sou um liberal, pro economia de mercado, mas fruto dos anos 60 e assim como o grande FHC que diz saber exatamente o que se passa em Cuba, mas afirma não conseguir se afastar completamente daquilo, sou apegado a alguns daqueles ideais. Preocupa-me um pouco essa “direritização” do mundo, não no aspecto do capitalismo liberal e democrático que me parece o único regime possível, mas pelo desprezo a solidariedade e a alguns valores caros ao pessoal daqueles anos, que sem duvida nenhuma fizeram do mundo um lugar melhor.


Aceitem meus parabéns pelo livro, vindo de alguém que imagina que discordar em parte é o maior elogio possível ao todo.





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