Friday, August 05, 2011

carta pro walmor

O Face book é para mim um espaço de debates. Dane-se que você esta feliz ou foi para a China. Tive alguns acalorados. Um com um anjo que não conheço chamada Paco, por defender o direito de um humorista fazer humor, ainda que de mau gosto. Outro com meu amigo Gastão por ter feito uma brincadeira com o nome de um restaurante que ele havia decorado (muito bem alias) o Elvis Costella. Disse que o lugar punha Curitiba no mapa das cidades com estabelecimentos de nomes infames, cuja liderança incontestável é de Florianópolis com seus Maria Vai com As Ostras, Churrascaria Ex-Touro e Ostradamus, embora SP também tenha La os seus Quiabos Vestem Prada pra mostrar. Por fim tive um micro-debate com o Walmor Goes, (que alias posta coisas muito interessantes e de bom gosto no FB) sobre um assunto tão religioso quanto times de futebol e política: guitarristas favoritos. O dele parece ser Jimmy Page a quem respeito como talvez o maior arranjador de cordas do chamado Rock, mas que sempre me pareceu funcionar melhor dentro de um estúdio .
O Frank/Walmor esta como musico 1000 andares acima de mim na torre das cordas, mas embora eu nunca tenha aprendido a tocar direito, acho que aprendi a ouvir.

Mas gosto é gosto, como dizem por ai. De qualquer forma dedico a ele a tradução que fiz de um texto do escritor, ator (Família Soprano), DJ e apresentador do programa Underground Garage( http://undergroundgarage.com/) e last but not least, guitarrista da E Street Band de Bruce Springsteen, Steve Van Zandt para a bacanérrima edição da Rolling Stone chamada de 100 Greatest Artists of All Times e que eu adoraria ter escrito, sobre o meu herói da guitarra favorito:


ERIC CLAPTON é o mais importante e influente guitarrista de todos os tempos, passados, presentes e futuros. Faça um favor a si mesmo, não discuta isso comigo. Antes de Clapton, guitarra de rock era o método Chuck Berry, posteriormente modernizada por Keith Richards, e o som do rockabilly – Scotty Moore, Cliff Gallup , Carl Perkins – popularizada por George Harrison. Clapton absorveu tudo aquilo e introduziu a essência do blues elétrico negro e o vocabulário de Buddy Guy, Hubert Summlin e dos Três Reis Magos, Albert, BB e Freddie para criar um ataque que definiu o fundamento da guitarra solo de rock and roll.

E talvez o mais importante de tudo, ele aumentou o volume do amplificador para 11 o que por si só fundiu a cuca de todo mundo nos anos 60. No estúdio, ele removeu o microfone para o lado oposto da sala, criando aquele efeito de ambiente enquanto todo mundo ainda usava o amplificação colada a caixa. E ai ele envenenou o maldito aparelho.

Fez-se o sustain. Fez-se o feed back. E o guitarrista solo transformou-se no cara mais importante da banda.

Intelectualmente, Clapton era um purista, embora haja pouca evidencia disso no começo. Ele dava sua carga pessoal em todo o riff que usava, mesmo coisas que lembro serem tributos nota por nota , como “Hideway” de Freddie King do álbum John Mayall Bluesbrakers with Eric Clapton (Beano) . Solando com aquele fantástico timbre e com a ressonância criada a partir da distorção, escrevias sinfonias maravilhosas a partir de licks de blues. Você pode cantar seus solos como temas que eram.

A primeira vez que o vi, foi com o Cream no Café a Go-Go em NY, 1967 – mais ou menos. Fiquei de fora, o lugar estava completamente lotado, mas podia vê-los tocando pela janela da frente. E era altíssimo, mesmo la fora. Naquele tempo, musicalmente Eric era um selvagem . Ficava la sem mover um músculo, emitindo o que seria a maior surra musical de sua vida, a não ser que você tenha estado presente na premiere de “1812 Ouverture” de Tchaikovsky e sentado em frente ao canhão. Quando sua criatividade, paixão, frustração e raiva se encontravam, era apavorante. Seu solo em Crossroads do Wheels of Fire é impossível, não tenho idéia como ele segura o tempo enquanto toca.

Eu nunca troquei mais do que um casual ola com Eric, portanto nada disso é informação privilegiada, mas acredito que sua forma de tocar mudou radicalmente entre os anos 60 / 70 por que cantar e compor se tornaram mais importantes para ele. Robert Johnson tem tudo haver com isso. Clapton estava tão envolvido pela musica de Johnson que queria ser capaz de escrever e cantar daquela forma. Você pode ouvir sua frustração - de não ser capaz de fazê-lo- em sua guitarra dos anos 60.

A primeira vez que ouvi raiva e agressividade sexual expressas no som de uma guitarra foi nos discos de John Mayall . Se o solo de “Have you Heard” não é o som de um pinto rompendo as calças em direção a terra prometida, não sei o que é .

Basement Tapes de Dylan e Songs from the Bing Pink do Band iniciaram uma volta ao som da America e aqueles discos foram uma grande influencia para Clapton. Na mesma época, Delayne e Bonnie Bramlet o encorajaram a compor e cantar, e è possível conferir o quão bom ele se tornou em ambas as coisas no seu álbum de estréia Eric Clapton, que gravou ao mesmo tempo em que passava da suja Gibson para limpa Strato.

Layla para mim foi a ultima vez em que voz, composição e guitarra estão na mesma intensidade. Trata-se da mais original interpretação do blues por Clapton, justamente por que os cães do inferno que o perseguiam tinham uma face: amor não correspondido.

Mas a guitarra de Clapton ainda hoje é magnífica. O caso é que ele foi por sete anos o mais extraordinário guitarrista de todos os tempos e passou os quarenta anos subseqüentes fazendo apenas um bom trabalho.

Ser o melhor te consome portanto ele se retirou, assim como fizeram Lennon e Dylan . Correr os cem metros rasos é legal mas completar uma a maratona é ainda mais . Clapton seguiu os passos de seus heróis, virou um viajante.

Todo mundo que toca guitarra lhe deve alguma coisa. Ele escreveu a linguagem fundamental, definiu o código binário que todos usamos hoje em dia.

Vira o dia, se você é um jovem roqueiro, que ira ouvir uma balada melosa dele no radio e dirá – Qual é a graça disso?

Ponha Stepping Out e curve-se.

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