Friday, August 26, 2011
cotton fields
A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil (Joaquin Nabuco via Caetano)
Dias atrás ouço no radio do carro as denúncias sobre corrupção no Ministério do Turismo. Logo depois uma matéria sobre os remédios brasileiros que, dada a carga tributaria, são os mais caros do mundo.
Minha primeira reação é pensar que vivemos numa espécie de regime feudal, onde a malta se mata para alimentar pessoal do Castelo.
Mas é ainda pior. Talvez nunca tenhamos abolido completamente a escravatura, e a Casa Grande ainda se imagina com direitos inalienáveis sobre a Senzala.
Em termos históricos a distancia que nos separa da Abolição é perigosamente curta. Se a “Lei do Ventre Livre” de 1871 significa dizer que quando nasci, há quarenta e muitos anos, ainda havia ex-escravos vivos.
Sem querer incorporar meu quase parente Gilberto, penso que isto ajuda a explicar aquela impressão gravada no inconsciente de nossas classes altas de que somos melhores do que os outros , alem de dar o que pensar sobre alguns fenômenos mais localizados:
- O RJ foi à cidade com maior numero de escravos da historia, exceção talvez da Roma antiga. Não há como não relacionar esse fato com a violência urbana , comum a qualquer metrópole, mas intrínseca naquele caso. E da questão
das favelas, que foram e continuam a ser uma adaptação urbana dos ex-escravos (agora “empregados”) a fim de viver próximos aos locais de trabalho.
- Paranaguá, onde vivi por alguns anos (como cantou Keef Richards “gonna find my way to heaven, because I did my time in hell”) sempre me intrigou por certa tristeza latente e uma espécie de culpa karmica pairando no ar. Não me surpreendeu descobrir que seu estuário, menos policiado pelos Ingleses contrários a escravatura, tenha sido usado pelos traficantes e seus navios negreiros. Na ilha das Pecas (peças=escravos), a fim de quebrar a resistência dos indivíduos, os membros das famílias eram separados entre si para sempre antes de seguirem para o interior, e misturados a outros africanos de procedências e línguas diversas, o que reduziria a chance de motins e revoltas. Tamanha dor não se dissipa assim tão rapidamente.
Alem do mais, não houve no BR como nos EUA, uma ruptura efetiva no processo histórico. Nada parecido com a Guerra da Secessão, nem com os movimentos mais recentes pelos diretos civis, uma epopéia americana que envolveu estadistas da envergadura de um (dois na verdade) Kennedy e outros líderes, desde mais pacíficos como Dr. King aos mais violentos como Malcolm X e Farrakhan, passando pelos doídos varridos da Klan e dos Panteras Negras.
Aqui onde tudo é quase sempre farsa ou antecipação à própria historia, em que pese o mérito de gente como Nabuco e outros, o que se fez foi melhorar minimamente as relações trabalhistas . Antes que virássemos outro Haiti, palco de uma revolta escrava de proporções bíblicas e que tirava o sono das nossas elites.
Não quero dizer que tenhamos hoje escravos, no sentido literal da palavra, embora voltimeia a PF ache uma propriedade rural num grotão qualquer que utiliza mão-de-obra não remunerada e gente mantida em cativeiro. Mas não há como negar que a relação entre as classes no BR ainda é pautada de certa forma pelo fato de termos sido a maior nação escravagista do mundo moderno.
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