Thursday, March 17, 2011

monstro de filme B

fiquei sem sono ontem e fiz uma letrinha boboca prum roquinho adolescente


MONSTRO DE FILME B

Meu amor por você

é como um monstro de filme B.

Você corta a cabeça, o corpo vem.

Corta o braço, vem a mão.

Não para por nada, não morre com nada, nem com estaca afiada, enfiada no meio do coração.


Meu amor por você

é como um monstro de filme B.

gosta de alho e não foge da cruz,

Não derrete no sol, não tem medo da luz.

Não teme bala de prata, nem adaga sagrada.

Não morre com tiro, não morre com nada.



Meu amor por você

É como um monstro de filme B.

Não acaba nem quando você

desliga a TV.

Monday, March 14, 2011

mario é o maior

davos fev 2011

Reconheço que elogiar um escritor que acabou de ganhar o premio Nobel de literatura é redundante, para não dizer suspeito. Meu álibi é que sou fã de Mario Vargas Llosa há anos.

Mais precisamente desde que me caiu nas mãos o seu A Festa do Bode, magistral retrato da ditadura de Trujillo na Republica Dominicana e de resto todas as que vieram antes e principalmente depois, como atestam os recentes acontecimentos mundiais.

Desde de então li boa parte da sua obra, alem de ter tido a sorte de topar com ele recitando contos e passagens literárias num teatro de Madrid.

Talvez por que a história seja ambientada em seu país natal, esse misto de Tibete, México e Egito, mas de características muito próprias que é o Peru.

Ou por que ao ler, eu estivesse habitando outra majestosa cordilheira. Provavelmente tenha haver também com o ambiente literário do hotel, que hospedou por varias ocasiões Hermann Hesse em suas temporadas de esqui, e em cujo prédio funcionou até os anos 30 o sanatório retratado por seu amigo e conterrâneo Thomas Mann em A Montanha Mágica. O fato é que devorei Lituma Nos Andes de MVL em poucas horas, e o considero seu melhor livro so far.

A trama acontece nos anos 80 ou 90, quando o sanguinário e demente Sendero Luminosos, grupo guerrilheiro de orientação maoísta-stalinista (justamente quando essas ideologias estavam sendo banidas da face da Terra) atuava nas serras peruanas. O movimento havia sido fundado pouco antes pelo medíocre professor universitário Abimael Guzman , o Presidente Gonzalo, para quem Fidel e Che não passavam de uma dupla de maricas e todos os lideres soviéticos, Kruschev em diante, traidores revisionistas. Gordo e portador de psoríase, o auto intitulado “Quarta Espada do Socialismo” (Lênin, Stálin, Mao e ele, pode?), Abimael nunca ia selva e despachava de seu apartamento no centro de Lima, até ser preso, não pelos brucutus de Fujimori e Montesinos, mas graças a um brilhante trabalho de inteligência da policia cientifica, coisa inédita na AL.

Na trama, contada em vários tempos que se intercalam sem aviso prévio à moda de Mario, seu personagem constante o Cabo Lituma e seu auxiliar que nutre uma paixão incondicional por uma vagaba costeira, são designados para resolver um misterioso desaparecimento em um acampamento de mineiros nas serras andinas. Isso em meio à ameaça real dos terrucos do Sendero, bem como as crendices e superstições dos serranos, que naquelas noites frias e estreladas dos Andes devem parecer igualmente bem reais.

Alguns trechos, habilmente deslocados do enredo, dariam por si só belos argumentos para peças, filmes ou mesmo outros livros. Como quando a certa altura somos transportados para uma vila miserável onde os senderistas instalam outro de seus “Tribunais Revolucionário Popular”. Os habitantes são “convidados” a julgarem uns aos outros, revelando assim toda sua mesquinhez, mágoas e ressentimentos. Mulheres entregam maridos violentos que são chicoteados pelas próprias. Clientes obrigados a pagar medicamentos com dentes de ouro ou com seu ultimo porquinho, esmagam a pedradas o crânio do farmacêutico sovina. O padre com fama de pedófilo é decapitado pelos fieis. E assim por diante, ate que o exercito chega no dia seguinte, e tudo é debitado ao Sendero. A comunidade volta à normalidade como se nada houvesse passado, não sem antes entregar mais alguns supostos colaboradores dos terroristas, barbarizados pela topa.

Shakespeare na Cordilheira.

Em outro momento, a narrativa é interrompida e somos apresentados a uma antiga lenda peruana, que remete (sem nunca mencionar), a Jung seus arquétipos e o conceito de consciência universal que unem civilizações distintas e estanques. Um Pistacho, o mítico degolador de homens que seca a gordura dos corpos das vitimas e as fatia, é caçado e morto num labirinto de cavernas locais por uma espécie de Teseu caboclo, com Ariadne queucha e tudo, que da uma solução, digamos “peruana” ao conceito do fio.

Parabéns a academia sueca que de certa forma fez justiça, quae será tamen, por ter negado o prêmio ao também latino americano Jorge Luis Borges 25 anos atrás, considerado muito de direita para os padrões da época. Bobagem, Borges era somente (como se fosse pouco), Borges.

A propósito, Mario Vargas Llosa é um liberal pro - mercado que teve sua cabeça posta a premio durante os anos malucos do Sendero. Perdeu a eleição para presidente para o sub-yakuza Fujimori, mas ganhou o mundo.
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