Wednesday, December 07, 2011

satis-fashion

Londres 29.11

Gosto da The Eye. Acho que a roda gigantesca a beira do Thames de alguma forma quebrou um pouco da sisudez e da pompa da Casa do Parlamento e adjacências, sem ter de se apelar para um Guy Fawkes da vida.


A iris monumental que os aros de bicicleta sugerem evoca signos da Britania (ou e viagem minha?), de Orwell e seu onipresente Big Brother (o deus, oque fizeram com esse nome..)e à discreta indiscrição desse povo, louco por tablóides.

De Sherlock Holmes, o private eye original, ao fato de Londres ter o maior numero de câmeras nas ruas por habitantes em todo mundo, contradição estranha aqui no berço das liberdades individuais.

Um moinho que retira energia do "dirty old river" e movimenta a cidade que deve quase tudo a ele, Mr. Thames.

Ontem assisti na BBC a uma edição do programa de entrevistas Eye to Eye cuja piada (britânica, off course) é entrevistar celebridades dentro de uma das cabines da Eye, olho no olho, por assim dizer.

A própria palavra interview da pano pra manga, principalmente por que a vitima era o fashion designer e empresário Paul Smith, dono da grife cujas roupas, descontando algum exagero em uma ou outra peça, sempre me agradaram.

Imaginava-o porem, completamente diferente. Meia idade (mais para inteira) lembra uma cruza de Ronnie Wood com Dudley Moore, e se veste de forma discreta, sem casacos de mink ou coletes do Minc. Fala e age como um legítimo businesman da City, embora, assim como Branson e outros de sua geração, seja visivelmente contaminado pela radiação da Londres swinguing dos 60.


Simpático, engraçado, falante e claramente heterossexual. Um sujeito comum, até por que seu nome equivale a algo como Jose da Silva aqui nessas ilhas. Mas bem sucedido ao ponto de transformar esse mesmo nome em marca mundial.

À inevitável pergunta: - “ Você se arrepende de algo? “ Paul responde que sim, de um tal agasalho azul com estampas de dinossauro de uma antiga coleção. Dias atrás numa estação do Metro – sim, bilionários aqui são gente como você e eu, só que com muito mais dinheiro - ao topar com alguém vestindo um exemplar do quase extinto item, teve ganas de empurrar o desavisado jurássico sob as rodas do trem. Melhor seria ter (re) comprado a peça e queimado num ritual pagão, de preferência em Stonehenge.

No final da entrevista, ao perceber um helicoptero
Agusta passando rente ao Olho, o leve, feliz e viril, Mr.Smith se despede. : - Here´s my cab...

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Pouco antes de viajar para ca, tinha visto o Louco Amor, documentário que conta a relação do infante terrível Yves de Saint Laurent e seu marido e complemento existencial, Pierre Berger.

No final dos anos 50, Yves ,o mais talentoso designer da Maison Dior é defenestrado pela família assim que o velho Cristian vestiu seu derradeiro terno. Se obriga a abrir uma pequena loja na preferia de Paris. Pede entao a Pierre (um sujeito razoavelmente masculino na postura e nos trejeitos) que se encarregue dos negócios e nunca mais toma conhecimento de nada que não seja a criação.

O resto é historia. YSL, o homem e a grife se tornam aquilo que são ate hoje, um sucesso planetário. Sua criatividade e genialidade porem, só eram comparáveis a sua imensa tristeza, a qual PB tentava mitigar adquirindo uma das mais impressionantes coleções de arte particulares já reunida, e recentemente leiloada, logo da morte do companheiro.


Ainda que jovial no aspecto, Yves tinha milhares de anos de melancolia acumulada, e suas pequenas vitórias pessoais a cada desfile anual, embora sucessos enormes no mundo fashion, eram precedidas de um calvário, pré e pós.

Berger fazia o que podia. Esperava-o acordado chegar bêbado e drogado das farras com os Rolling Stones, Andy Warhol e outros bichos. Comprava mais um Goya aqui, um Picasso ali. Arrematou propriedades fantásticas em Marrakesh e na Normandia e aprendeu inclusive a pilotar helicópteros quando Y já não tinha mais disposição de viajar de automóvel. Tudo na tentativa frustrada de animar o proustiano e trágico personagem. Não conheço melhor marido.

Fica a impressão que gênios sem relação nenhuma com aspectos práticos da vida sofrem muito (não vou falar da intrínseca tristeza do universo gay, para não polemizar desnecessariamente) e o desafio de se superar a cada nova investida, acaba por virar um fardo. A busca pelo sucesso financeiro, embora não um fim em si mesmo, tem a vantagem de nos manter ativos e em contato com a realidade.

PS não é YSL, mas tem um PB dentro de si que lhe ajuda a balancear as coisas.