Ela é um caso raro de multiartista: excelente cantora, inspirada compositora, poeta sofisticada e guitarrista de mão cheia.
Minha paixão por ela reacendeu-se ao assistir pela milésima vez “Love Actually”, filme que o Cescatto chamou acertadamente de “a comédia romântica definitiva”, no qual ela canta “Both Sides Now” enquanto Emma Thompson interpreta uma das mais tristes cenas do cinema, ao menos do ponto de vista feminino: a cena do presente de natal.
Logo após a reprise do filme, revi “Painting With Words and Music”, registro em DVD de um mix de concerto e vernissage que rolou em Los Angeles, no qual ela, JONI MITCHELL, canta e expõe seus personalíssimos quadros.
Depois de uma magnífica versão de “Hejira”, a canadense engata um discurso ao qual eu não havia prestado a devida atenção em minhas visitas anteriores ao disco, que me emocionou a ponto de me tirar do bloqueio para escrever que eu atravessava:
Logo após os “L.A. Riots” de 1992, quando os negros dos bairros pobres tocaram fogo em metade da cidade dos anjos, em resposta à morte de certo Rodney King pela “LAPD”, Joni parou num sinal de transito atrás de um Cadillac em cuja placa dizia tão apenas: “Just Ice”.
O trocadilho a intrigou tanto que ela chegou a consultar vários advogados sobre o conceito de Justiça. Nenhum deles a satisfez. Alguém, então, sugeriu a ela que lesse a República, de Platão, texto em que a justiça social é descrita como uma sociedade de especialistas – o que, tomado ao pé da letra, só deu errado pela história a fora.
Nunca li filosofia a sério e sou pouco familiarizado com Platão (talvez porque tenha elegido Joni, Leo, Bob, John, Pete e outros como meus “filósofos”), mas acho tudo aquilo um tanto fascista, algo como uma sociedade de formigas.
Joni prossegue contando que a pintora Georgia O’Keeffe disse a ela que adoraria ter aprendido a tocar um instrumento (JM é eximia guitarrista e já teve em sua banda gente do calibre de Pastorius, Brecker, Metheny, Hancock e Shorter,“to name a few”),mas que achava não ser possível fazer decentemente as duas coisas no intervalo de uma vida. Ela, que passou a vida cantando, pintado, escrevendo e compondo, de forma magistral, disse achar perfeitamente possível e lamentou que Georgia tivesse sido criada numa época em que lhe foi imposta essa espécie de conceito de criatividade “monofásica”. E imagina que a velha e genial pintora poderia ter sido, também, por exemplo, uma grande violinista.
Quanto à sua sede de justiça, provavelmente a única coisa que a saciou, ainda que parcialmente, foi escrever essa bela letra que traduzi em sociedade com o sábio Prof. Correa, de forma meio literal. Admito que o contexto da época (AIDS e destruição da camada de ozônio, problemas relativamente sob controle hoje em dia) soe ultrapassado, mas vivi aquele momento e gosto da forma com que ela o descreve.
Além do mais, a ânsia por compreender essa estátua de gelo, com os olhos vendados e a balancinha na mão é algo, a meu ver, atemporal.
“Sex Kills”
Parei atrás de um Cadillac outro dia
E li a placa que dizia:
“Just Ice”!
Será só isso mesmo a justiça:
“Just Ice”?
Uma roleta movida por cobiça e luxuria?
Os fortes dando as fichas
E os fracos sempre entrando numa fria?
E dá-lhe gasolina pingando.
Olha quanto óleo derramado.
Sexo vende qualquer coisa.
Sexo mata!
As pílulas dos doutores causam novas dores.
E uma avalanche de contas soterrou
Nossos valores.
Advogados nunca foram tão populares
Desde que Robespierre mandou
As guilhotinas pela França cantarem.
.
Os velhos caciques sabem
Que o equilíbrio se desfez –
Os átomos endoidaram de vez!
Veja o trânsito: motoristas aos gritos,
Volantes voláteis,ódio e conflito.
E dá-lhe gasolina pingando.
Olha quanto óleo derramado.Sexo vende qualquer coisa.
Sexo mata!
Masturbadores malucos nos escritórios,
Molestadores subaquáticos nas piscinas,
Tragédias nos berçários,
Garotos aos tiros nas escolas,
Úlceras na camada de ozônio,
Tumores brotando na pele,
E o sol,nem aí,lá no alto,
Botando fogo na casa.
E dá-lhe gasolina pingando.
Olha quanto óleo derramado.
Sexo vende qualquer coisa.
Sexo mata!
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