Influenciado por amigos cuja opinião respeito, que por aqui andaram e detestaram, quase não vim a Dubai.
Mas como sei que gostar ou não de um determinado lugar depende muito do grau pessoal e intransferível de expectativa, baixei a guarda, vim, vi e gostei.
O que eles esperavam, afinal: Paris no deserto?
Como disse recentemente meu amigo Olavio: grana, apenas, não compra nada. No entanto, dentro do que é possível fazer “somente” com recursos financeiros (quase ilimitados!), Dubai tem coisas admiráveis e merece ao menos uma visita na vida.
Entendo o mau humor dos amigos. Também não sou fã da estética árabe e sei perfeitamente que este é um lugar sem alma. Mas, aqui, até o kitsch é relativo, não se vê todo aquele dourado e veludo vermelho que temia encontrar, pois, como disse em relação à Doha, até bom gosto pode ser comprádo.
Só agora no BR é que estamos deixando de ser provincianos no que tange à arquitetura (o fim da ditadura Niemayer?) e contratando um Santiago Calatrava para o museu do Rio, enquanto aqui eles já trabalham com Ando, Hadid, Norman Foster e outros do mesmo naipe há anos.
Há claro, construções de extremo mau gosto, como uma réplica muito maior do Big Ben (um tapa de luva de boxe na antiga metrópole?) e outras monstruosidades, mas veem-se também coisas muito belas como as torres Emirates e o Burj Khalifa,de onde escrevo e cujo desenho remete muito sutilmente a um minarete. Mesmo o Burj Arab, o tal hotel-vela que dizem ser horrendo por dentro (não quis pagar para ver), é lindo por fora.
Tem muito de preconceito nisso. Ninguém reclama, por exemplo, do castelo da Cinderela no meio dos pântanos da Florida, copiado do já ultra-cafona Neuschwanstein de Ludwig II da Baviera, o rei biruta. Nem de uma pirâmide egípcia, uma Veneza ou a torre Eiffel (olha Paris ai de novo gente...) no deserto de Nevada. Vegas não foi também uma forma de transformar areia em dinheiro? Aqui, ao menos, o genial Sheik Mohamed, o Deng Xiaoping local, não teve que lançar mão da casadinha infalível : jogo, bebida e prostituição.
Na China dos anos oitenta, permitiu-se a existência de zonas especiais onde o capitalismo era incentivado e que acabou tomando conta do resto do país. Aqui, cria-se pela mão de gente inteligente e bem intencionada como Mohamed (que, afinal, poderia ter enterrado esse dinheiro todo, como fizeram seus antecessores nas primeiras altas do petróleo, comprando, por exemplo, Paris!) um laboratório da mudança de costumes no mundo árabe.
Tudo bem que, como no Catar, o consumo de álcool ainda aconteça só nos hotéis e que beijos nos shoppings (as placas avisam) nem pensar. Mas, na Arábia Saudita ou no Irã, eu teria sido preso junto com o namorado da Paulinha Scalco, que vive aqui e me recebeu gentilmente, só pelo fato de estarmos os três no mesmo carro. Namorados por aqui não passam a noite juntos, me conta o concierge brasileiro (se os vizinhos dedam, correm risco de ser deportados), mas podem passear de mãos dadas na rua sem tê-las cortadas.
Gosto de skyscrapers desde que meu avô me contou que, ao passear por Nova York nos anos cinqüenta, teve que deitar no chão para poder ver o Empire State Building por inteiro. Naquela época, quase ninguém ia aos EUA. Era proibitivo. O dólar era Dólar, os transportes caríssimos e não havia as CBCs e Tias Augustas de hoje em dia, nem as passagens no crediario. Meus avos precisaram vender um carro e raspar a poupança para que minha mãe pudesse retirar um pulmão doente num hospital de lá , o que, hoje, seria feito, no máximo, em SP.
Por conta dessa fixação, me hospedei no Burj Khalifa, não no hotel fictício que o Tom Cruise escala no ultimo “Mission Impossible” (cuja trama é risível: quem venderia segredos nucleares num lugar tão high profile?), mas no Armani, que ocupa, para minha frustração, os andares mais baixos do edifício. De qualquer forma, é inusitado dormir em baixo de um milhão de toneladas de ferro , concreto e todos os badulaques que compõe um prédio.
Era para chamar-se Burj Dubai, mas a conta ficou alta demais e o califa de Abu Dhabi, que manda aqui, só liberou uns dinares a mais em troca do nome.
Com 800 metros de altura, às 17h46min do dia 22 de maio de 2012, quando escrevo esse texto, detem o titulo de edifício mais alto do mundo, e assim será até que outro sheik desses se invoque e faça um ainda mais alto, em qualquer outro dos Emirados. Ou aqui mesmo, como já está nos planos.
Meu avô teria de se enterrar na areia para vê-lo de baixo a cima . E o velho King Kong, comer muita banana para escalá-lo, já que tem mais do que o dobro da altura do seu avo nova-iorquino.
Na sua frente fica o Dubai Mall, também- adivinhe ? – o maior do mundo. Experimente perder uma criança por lá e irá encontrá-la já adolescente. Todas as marcas que interessam estão presentes, além de várias que nunca ouvi falar. Penso comigo que os curitibanos que levam uma existência bondosa, vêm parar aqui depois que morrem.
Por algum motivo que não entendi bem, a temperatura aqui em Dubai é bem mais amena que a do Catar, ja que fica a manos de maia hora de voo e no mesmo deserto.
Enfim, não vou substituir Londres, Chicago ou Barcelona por Dubai na minha escala de preferências urbanas, mas gostei de ter vindo aqui. Vale para perceber exatamente o que o dinheiro compra.
E o que não.
Thursday, May 31, 2012
Thursday, May 24, 2012
alah e quatariano
Abriram as portas do inferno. É o que penso cada vez que saio de um táxi e entro em qualquer recinto fechado - ou vice versa - aqui em Doha, no reino do Catar.
Todos os anos participo de uma conferência internacional sobre fertilizantes que já me levou a lugares fantásticos como Istambul, Moscou, Shangai e outros nem tanto.
Quanto a este aqui, só posso dizer que é surpreendente por certo aspecto, extremamente perturbador por outro e quente, quente como a sauna do capeta.
Mesmo durante a madrugada a temperatura é insuportável, desmentindo aquela ideia que o deserto é frio à noite. O mar, no qual mergulhei a mão por curiosidade, tem a temperatura de uma Jacuzzi. Os peixes por aqui já vêm cozidos no anzol.
Sempre li sobre esses “petroreinos” nos quais as fortunas das famílias reais se confundem com a riqueza do Estado, como se o Emir tivesse (e tem!) um cheque em branco do Banco Central. Ocorre que essa gente hoje é um pouco mais esclarecida (estudaram em Londres e na Suíça), mas ainda projetam seus egos imensos nas construções e na maneira com que administram seus potentados.
O “skyline” de Doha rivaliza com os de Shangai e Hong Kong. Desde que os americanos fizeram de Nova York um outdoor à sua pujança econômica no começo do século XX, todos os novos ricos do mundo almejam sua própria Manhattan. E, inevitavelmente, cometem exageros típicos do “novo-riquismo” (imagino quão jecas Rockfeller e Vanderbilt pareciam aos olhos da aristocracia europeia), ao mesmo tempo em que erguem coisas belas. Afinal, os grandes escritórios de arquitetura estão aí para isso mesmo. É só pagar.
O resto é calor, areia e tédio.
Os habitantes daqui pouco fazem além de fumar seu narguilés e andar em bando, fingindo nos ignorar. Os homens, vestindo as indefectíveis e idênticas túnicas brancas, e as mulheres, as burkas negras, mostrando que em qualquer sociedade quem sofre mais sempre são elas. (É curioso como uma das principais características da independência econômica, que é a afirmação da individualidade por meio da livre escolha das roupas que vestimos, por aqui não consegue superar a tradição.)
Não há como não pensar em Metrópolis (não a do Superman, mas a do Fritz Lang), no qual a belíssima cidade-modelo do futuro é viabilizada pelos escravos em seu submundo. Aqui, quem trabalha de verdade são os indianos, paquistaneses, sri lankans, filipinos e outros primos pobres, além dos nativos da África Sub Saariana.
Simpaticíssimos (simpatia do tipo “Sahib”, que fique claro) e incansáveis, vivem em condições terríveis em barracas no deserto e passam dois anos, no mínimo, sem poder voltar pra casa (“a.k.a” escravidão). Além disso, nunca recebem cidadania e após cinco anos têm de partir para sempre, uma política radical de prevenção a favelas que priva os verdadeiros construtores da cidade de desfrutá-la.
Provavelmente, também não entram na conta da renda per capta, que coloca o Qatar somente de Lichenstain , mais bairro suíço do que pais, povoado por vinte e três mil pessoas e vinte e quatro mil automóveis.
Quem paga isso tudo não é o petróleo, mas o gás natural, que turbina joint-ventures para produção de fertilizantes e petroquímicos. O Sheik se associa a empresas estrangeiras, mantendo a maioria do capital e entregando a gestão e a governança aos sócios. Uréia e areia.
Não é possível existir civilização a mais de 35º C, a menos que seja comprada. Portanto, o Catar não deixa de ser o reverso da medalha de Nunavut, território do Canadá no qual o governo paga cinco mil dólares para quem estiver disposto a morar a trinta graus abaixo de zero, com três horas de claridade por dia. Como aqui ninguém paga imposto, fica fácil de fazer, por exemplo, da Catar Airways, a companhia aérea com o melhor serviço do mundo, o que pude comprovar no tapete mágico que nos trouxe aqui.
Mas não ha, por outro lado, como não imaginar esses hotéis, réplicas maiores e mais luxuosas do templo de Amenófis III, onde príncipes árabes vindos de Estados mais rígidos bebem álcool no quartos, habitados por cabras e lagartos no futuro, quando o gás acabar. E se fosse eu o honorável Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani (conhecido aqui por الشيخ حمد بن خليفة ال ثاني), deixaria um gerentão cuidando do gás e compraria um pedaço de terra mais aprazível (praticamente qualquer lugar do mundo é mais aprazível do que esse) e mudaria o pais para la.
Quanto será que o Sarney quer pelo Maranhão?
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