Thursday, May 24, 2012

alah e quatariano


Abriram as portas do inferno. É o que penso cada vez que saio de um táxi e entro em qualquer recinto fechado - ou vice versa - aqui em Doha, no reino do Catar.

Todos os anos participo de uma conferência internacional sobre fertilizantes que já me levou a lugares fantásticos como Istambul, Moscou, Shangai e outros nem tanto.

Quanto a este aqui, só posso dizer que é surpreendente por certo aspecto, extremamente perturbador por outro e quente, quente como a sauna do capeta.

Mesmo durante a madrugada a temperatura é insuportável, desmentindo aquela ideia que o deserto é frio à noite. O mar, no qual mergulhei a mão por curiosidade, tem a temperatura de uma Jacuzzi. Os peixes por aqui já vêm cozidos no anzol.

Sempre li sobre esses “petroreinos” nos quais as fortunas das famílias reais se confundem com a riqueza do Estado, como se o Emir tivesse (e tem!) um cheque em branco do Banco Central. Ocorre que essa gente hoje é um pouco mais esclarecida (estudaram em Londres e na Suíça), mas ainda projetam seus egos imensos nas construções e na maneira com que administram seus potentados.

O “skyline” de Doha rivaliza com os de Shangai e Hong Kong. Desde que os americanos fizeram de Nova York um outdoor à sua pujança econômica no começo do século XX, todos os novos ricos do mundo almejam sua própria Manhattan. E, inevitavelmente, cometem exageros típicos do “novo-riquismo” (imagino quão jecas Rockfeller e Vanderbilt pareciam aos olhos da aristocracia europeia), ao mesmo tempo em que erguem coisas belas. Afinal, os grandes escritórios de arquitetura estão aí para isso mesmo. É só pagar.

 O resto é calor, areia e tédio.

Os habitantes daqui pouco fazem além de fumar seu narguilés e andar em bando, fingindo nos ignorar. Os homens, vestindo as indefectíveis e idênticas túnicas brancas, e as mulheres, as burkas negras, mostrando que em qualquer sociedade quem sofre mais sempre são elas. (É curioso como uma das principais características da independência econômica, que é a afirmação da individualidade por meio da livre escolha das roupas que vestimos, por aqui não consegue superar a tradição.)

Não há como não pensar em Metrópolis (não a do Superman, mas a do Fritz Lang), no qual a belíssima cidade-modelo do futuro é viabilizada pelos escravos em seu submundo. Aqui, quem trabalha de verdade são os indianos, paquistaneses, sri lankans, filipinos e outros primos pobres, além dos nativos da África Sub Saariana. 

Simpaticíssimos (simpatia do tipo “Sahib”, que fique claro) e incansáveis, vivem em condições terríveis em barracas no deserto e passam dois anos, no mínimo, sem poder voltar pra casa (“a.k.a” escravidão). Além disso, nunca recebem cidadania e após cinco anos têm de partir para sempre, uma política radical de prevenção a favelas que priva os verdadeiros construtores da cidade de desfrutá-la. 

Provavelmente, também não entram na conta da renda per capta, que coloca o Qatar somente de Lichenstain , mais bairro suíço do que pais, povoado por vinte e três mil pessoas e vinte e quatro mil automóveis.

Quem paga isso tudo não é o petróleo, mas o gás natural, que turbina joint-ventures para produção de fertilizantes e petroquímicos. O Sheik se associa a empresas estrangeiras, mantendo a maioria do capital e entregando a gestão e a governança aos sócios. Uréia e areia.

Não é possível existir civilização a mais de 35º C, a menos que seja comprada. Portanto, o Catar não deixa de ser o reverso da medalha de Nunavut, território do Canadá no qual o governo paga cinco mil dólares para quem estiver disposto a morar a trinta graus abaixo de zero, com três horas de claridade por dia. Como aqui ninguém paga imposto, fica fácil de fazer, por exemplo, da Catar Airways, a companhia aérea com o melhor serviço do mundo, o que pude comprovar no tapete mágico que nos trouxe aqui.

Mas não ha, por outro lado, como não imaginar esses hotéis, réplicas maiores e mais luxuosas do templo de Amenófis III, onde príncipes árabes vindos de Estados mais rígidos bebem álcool no quartos, habitados por cabras e lagartos no futuro, quando o gás acabar. E se fosse eu o honorável Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani (conhecido aqui por الشيخ حمد بن خليفة ال ثاني‎), deixaria um gerentão cuidando do gás e compraria um pedaço de terra mais aprazível (praticamente qualquer lugar do mundo é mais aprazível do que esse) e mudaria o pais para la. 

Quanto será que o Sarney quer pelo Maranhão?





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