Navegamos pelo litoral norte do Rio de Janeiro próximo à Paraty, há algumas semanas. Fazia um desses dias de inverno com sol e visibilidade quase infinita, e era possível divisar no horizonte aquela cadeia de montanhas que alguém com muita propriedade, batizou de Serra do Mar.
O litoral sul do Brasil, ao contrário do Norte e Nordeste, onde somente em raros pontos o oceano não encontra com grandes extensões de terra plana, é cercado por essa muralha natural. Alias, que contava, até ser dizimada, com uma floresta tão exuberante quanto à amazônica: a Floresta Atlântica, que hoje sobrevive apenas em pequenos trechos como este aqui.
Mais do que uma muralha, trata-se de um degrau que ascende para um platô cuja altura varia, mas que nunca tem menos de 500 metros de altitude.
A paisagem local é acachapante, mas não quero me deter aqui na geografia e sim avançar pela história. Penso o quão difícil deve ter sido para os primeiros europeus que aqui chegaram (a quem, talvez por nossa intrínseca falta de auto-estima, quase sempre taxamos de preguiçosos e vilões, principalmente quando comparados aos “virtuosos ingleses”) transpor essa barreira natural e construir lá em cima uma cidade que estaria entre as maiores do mundo.
Ainda hoje essa barreira nos tira competitividade logística, principalmente no agronegócio, já que nosso maior rival, os EUA, tem um rio navegável que chega praticamente às fazendas.
Mas de volta a historia. Sempre me intrigou que a baixada santista não tivesse se desenvolvido em detrimento da serra, até por que seria muito mais fácil construir lá embaixo. Sei perfeitamente que SP só iniciou o seu processo de transformação para a megalópole atual em meados do século 20, mas sempre achei curioso que ela e Curitiba tivessem prosperado mais do que Santos e Paranaguá, mais antigas e acessíveis. Ouvi atento a todas as teorias, mas as que mais me convenceram foram aquelas em torno de argumentos como terras mais férteis (para a agricultura de subsistência, é claro) e o fato de ambas terem sido base para a conquista do interior.
Quando estive em Machu Picchu, no Peru, percebi que a lorota dessas teorias dos “Deuses Astronautas” só cola por que perdemos completamente a capacidade de realizar grandes coisas sem a tecnologia hoje existente. Não há como não pensar como somos frouxos hoje em dia. Alguém chegava da Europa de navio (o que já era um inferno) e ainda tinha que subir a serra com o peso de tralhas e bagagens pelas estreitas e escorregadias trilhas da Atlantic Rain Forest. Hoje, temos preguiça de realizar o mesmo percurso de carro – sem falar que nos sentimos “mortos” depois de passar míseras doze horas a bordo de um jato.
Anos atrás a Globo realizou uma míni serie chamada “A Muralha”,que resgatava esses tempos heróicos, muito melhor do que qualquer livro de história desses de escola. Numa cena marcante, uma dessas tropas subia com um piano que seria o primeiro da vila de São Paulo dos Campos de Piratininga. Um belo resgate dessa historia que nunca havia sido bem explorada. O próprio Pedro I, provavelmente o homem mais poderoso do BR em todos os tempos, após uma visita bíblica à Marquesa, teve de subir de burrico, depois de atravessar de balsa aqueles canais, hoje servidos por pontes, para declarar a Independência.
Outra coisa que me inflama a imaginação é pensar aqueles navegadores dando de cara com essa costa, já que nada pode ser mais diferente das secas, desoladas e planas paisagens espanholas e portuguesas. Mesmo eles já conhecendo a África, nada poderia prepará-los para o que viram aqui e no Caribe, em termos de fauna e flora.
Embora a maciça presença humana afaste as criaturas selvagens, topamos com uma tartaruga no mar,e em terra com um pássaro vermelho como um capeta. Imagine o que se via naqueles tempos.
Embora a maciça presença humana afaste as criaturas selvagens, topamos com uma tartaruga no mar,e em terra com um pássaro vermelho como um capeta. Imagine o que se via naqueles tempos.
Cá entre nós: perto das descobertas, a viagem da Apollo 11 foi um programa – com imperdoável trocadilho – de índio.