Geoffrey Arnold "Jeff" Beck e Eric Patrick Clapton são os guitarristas seminais do século 20. Esperneie se quiser. Existem outros, maravilhosos, mas nenhum deles levou a guitarra elétrica ao ápice como esses dois ingleses, nascidos com oito meses de diferença e a cerca de dez milhas de distância um do outro na Inglaterra do pós-guerra, que deu ao mundo alguns dos maiores nomes da música pop contemporânea. Gente que se apropriou da musica americana e a devolveu melhor que a encomenda.Jeff e Eric tiveram/têm carreiras brilhantes. Clapton, mais bem sucedido em termos financeiros e de reconhecimento pelo público, tornou-se uma das pessoas mais famosas do mundo. Jeff parece não se importar com isso: tem uma plateia mais seletiva, quase inteiramente formada por músicos e entendidos em música. De rivais viraram grandes amigos, até porque, como disse Eric num dos trechos do DVD da terceira edição do Festival Crossroads, que ele (quem mais teria cacife para tanto?) realiza a cada dois anos, ao comentar a performance do colega, um dos poucos guitarristas que participa de todas as edições: “se você tem uma moeda ai, cada um de nós é uma face”.Há poucos anos assisti no Canadá um concerto de ambos, em companhia do Prof. Corrêa e do Alexandre, no qual Jeff abria o show com seu set e era seguido por Eric. Ao final, Clapton chamava Beck de volta ao palco para uma série de números conjuntos, acompanhados por sua banda (e que banda: Gadd, Weeks e Stanton!). Desde então, um rascunho desse texto tem rondado minha mente. Enfim, pego a deixa de Eric e vou além da imagem da moeda.- Jeff é o sol da meia noite. Eric o sol do meio dia.
--Jeff é o fogo imprevisível. Eric é a agua fluida.
--Jeff é Beethoven e Tchaikovsky. Eric é Bach e Mozart.
--Eric é feeling, bends, fraseado, lirismo e precisão. Jeff é ataque, inovação e faz da imprecisão sua arte. Jeff usa o whammy bar e o volume como ninguém. Eric usa os dedos como só ele.--Jeff é Senna. Eric é Schumacher.
--Jeff é inventivo. Eric é inventor.
--Eric dilui os grandes mestres dos blues. Jeff dilui a si mesmo.
--O dom de Eric vem do topo do Olimpo. O dom de Jeff vem das profundezas do Hades.
--Jeff considera que Eric é o maior. Eric pensa que Jeff é o melhor. Jeff é o guitarrista dos guitarristas. Eric é o guitarrista dos guitarristas e dos não guitarristas.--Jeff olha para trás e vê Charles Christian, Les Paul e Cliff Gallup; para o lado vê Jimmy Page e para frente vê Adrian Bellew e Tom Morello. Eric olha para traz e vê Robert Johnson e os três reis magos Freddy, Albert e BB; para o lado vê Buddy Guy e para frente (por vezes, literalmente) vê Joe Bonamassa e Derek Trucks.-Eric é os Beatles. Jeff é os Rolling Stones (muito embora, o contrario também funcione). Jeff esnobou os Stones. Eric foi esnobado por eles (embora KR diga que não queria que a banda se transformasse em EC e os RS). Hendrix amava os dois, mas considerava Terry Kath, do Chicago, o melhor: “(reporter) how do you feel being the best guitarist in the world? (Hendrix) you have to ask Terry Kath that”.--O disco de Rogers Waters com Eric é um clássico. O disco de Roger Waters com Jeff, nem tanto.
--Jeff e irascível, idiossincrático e não faz muitas concessões. Eric (segundo Jeff) é esperto: aprendeu a cantar.
--Ambos tiveram dream team line ups, alguns dos maiores músicos do mundo, em suas bandas: Bruce, Baker, Winwood, Preston Hammer, Bozio, Stanton, Colaiuta, Weeks, Winfeld, Radle, Gordon, Page, Ronda Smith, Narada, Appice, Duck Dunn, Trucks, Bramlet, Miller, Clark, Borget, Stewart, Grech, Mason, Allman, Hymas, Hopkins, Lee, Wood, Knopfler, Gadd, Jordan, Keltner, Samborn, Sample, Hawkins, ufa...--Jeff não tem alma gêmea. Eric tem Steve Winwood.
--Jeff se veste como um guitar hero.Eric se veste como um homem da sua idade.
--Ninguém toca como Jeff. Todos tocam como Eric. E isso é um baita elogio.
Thursday, November 20, 2014
EleTric HE R O E S
SOB O SIGNO DE MARTE (KIEFER E A BIELORÚSSIA)
Vim à Bielorússia a trabalho. Não conheço ninguém queviesse a passeio — exceto, talvez, meu primo Marcelo Madureira, que passou sua segunda lua de mel no “eixo do mal” Irã, Afeganistão, Coreia do Norte.
A capital, Minsk, para minha surpresa, é uma cidade agradável, ainda com alguns traços soviéticos, como as avenidas largas e prédios baixos, mas mil anos-luz melhor que a minha expectativa.
Na verdade, a cidade é quase um monumento à resistência contra o exército alemão durante a “Guerra Patriótica”,apelido regional da Segunda Guerra Mundial. Façanha que deu ao comunismo, desgastado pelos expurgos stalinistas,um novo fôlego e uma oportunidade e tanto para conquistar o poder em boa parte do leste europeu, até cair de podre no final dos anos 80.
Apesar de todos aqueles façanhudos filmes americanos, aII Guerra virou mesmo foi aqui e em Stalingrado, com grande
participação dos camponeses “partizans”, gente acostumada à dura vida das estepes, que, apesar e odiar o sistema, tinha o pavor de invasores estrangeiros na carga genética.
A Bielo-Rússia de hoje é, tecnicamente, a última ditadura de Europa (parece que a Rússia escapou do título, já que Putin tirou férias como primeiro-ministro na gestão de seu sidekick Medelev), mas as pessoas parecem felizes com o raposão Lucachenco, cruza de Berlusconi, Lula e Maduro, capaz de gafes antológicas, brutal e nem um pouco disposto a aturar essa bobagem inconveniente chamada“oposição”.
Há que se entender que o povo daqui, após séculos de czares de todas as cores, tem um apreço menor àdemocracia e adora um líder forte e, de preferência, rude.Apesar de todo nacionalismo que foi o motor da vitória contra os Nazis, o país é e será, para sempre, um apêndiceda Rússia. Apesar de Luca se gabar de ter impedido que as riquezas locais, ao contrário da matriz, tivessem sido apropriadas por oligarcas — o que no fim das contas significa...
O recém inaugurado Museu da Guerra, completíssimo e muito bem montado, vale a viagem. Tem a vantagem de contar com muitos armamentos alemães originais e intactos, como tanques e aviões, deixados para tras simplesmente por falta de combustível.
Da mesma forma, o Exército Vermelho, que aqui mantinha um arsenal imenso (estamos justamente no estratégico meio do caminho entre Moscou e a EuropaOcidental), com o fim da URSS abandonou dezenas dejatos Mig, helicópteros Mamute e até mísseis (desarmados, espero) num “cemitério” nos arredores da cidade, que visitamos com nossos anfitriões, com direto a passeio de tanque e tiros de AK47.
Depois dessa overdose de armas e guerras, uma coincidência bacana (as famosas sincronicidades do velho“Jovem”) foi dar de cara com a exposição do artista alemão Anselm Kiefer, cuja obra é permeada por motivos bélicos, na Royal Academy em Londres.
Kiefer nasceu em 1945, na Alemanha devastada, e incorporou em sua obra o horror nazista, elementos mitológicos germânicos e mitos judaicos. Um “partizan” a serviço da arte de primeira classe, num mundo cada vez mais pautado pelo entretenimento.
Enviado via iPhone
Monday, August 04, 2014
Vai ser mao assim na china
Fotografei esses bibelôs da Revolução Cultural Chinesa numa vitrine de Roma, que por pouco não comprei. Não saberia onde expor.
A primeira relíquia parece representar um estudante, dois soldados e um trabalhador conduzindo um pobre coitado com chapéu de burro, provavelmente escrito “ inimigo do povo", jargão tomado emprestado (e nunca devolvido, que eu saiba) do genial HenrikIbsen.
A vítima era alguém que fora pego lendo um livro ocidental, um professor que vacilou numa aula de história e não teceu loas suficientes ao partido ou ainda um sujeito que simplesmente usava óculos ( o que no Camboja do maoista Khmer Vermelho era a morte.. ) e parecia portanto um "intelectual burguês".;
Note que o "trabalhador" miliciano carrega o fuzil e a soldada leva uma corneta, anunciando o contraventor para a massa, já que a ideia era constranger ao máximo o sujeito antes de manda-lo para um campo de "re-educação" . Ou simplesmente meter-lhe uma bala na cabeça.
; Muita gente das cidades grandes foi mandada para o campo, viver com e como os paupérrimos agricultores, heróis da revolução, numa tentativa de purificação da espécie ou volta às origens. Já imaginou uma menina do Sion indo catar arroz num banhado lá doscafundós?
A vítima era alguém que fora pego lendo um livro ocidental, um professor que vacilou numa aula de história e não teceu loas suficientes ao partido ou ainda um sujeito que simplesmente usava óculos ( o que no Camboja do maoista Khmer Vermelho era a morte.. ) e parecia portanto um "intelectual burguês".;
Note que o "trabalhador" miliciano carrega o fuzil e a soldada leva uma corneta, anunciando o contraventor para a massa, já que a ideia era constranger ao máximo o sujeito antes de manda-lo para um campo de "re-educação" . Ou simplesmente meter-lhe uma bala na cabeça.
; Muita gente das cidades grandes foi mandada para o campo, viver com e como os paupérrimos agricultores, heróis da revolução, numa tentativa de purificação da espécie ou volta às origens. Já imaginou uma menina do Sion indo catar arroz num banhado lá doscafundós?
Na próxima, o velho calhorda posando de santo. No fundo o comunismo sempre foi uma religião, com mártires, profetas, paraíso e todos os ingredientes básicos. Não a toa sempre houve gente querendo se imolar por ele.
Jânio (Janus) Quadros, aquele exemplo de coerência (eleito pela direita Lacerdista) curtia um modelito desses aí usado por Mao, pois dizia que terno e gravata era coisa de colonizados. Talvez até fosse, mas na China da época era só o que se vestia, já que Individualidade era um dos sete pecados capitais do regime.
O fato de seu sucessor, Jango ter dado tanta moleza pra a UNE, recebendo o Serra no palácio como se fosse um ministro e apoiado greves como a dos marinheiros, bradado jargões como reforma agraria etc..., dá vazão a gente que acha que ele era um sacerdote do Comunismo Universal do Reino de Mao. O fato de ele ter ido a China pouco antes de ser empossado também não ajuda. Não acredito. Em minha modesta opinião, acho que ele tinha mesmo era sonhos de Peron.
Nessa outra imagem, o camarada Mao desfila de jipe numa das inevitáveis e intermináveis paradas militares, próprias desses regimes. Alguém empunha o famoso livrinho vermelho, na verdade um amontoado de bobagens que tive curiosidade de folhear uma vez e que era matéria obrigatória nas escolas e fábricas. E aí de quem não soubesse recitar o seu conteúdo de orelhada .
Mal (com trocadilho) comparando, embora nossa ditadura tenha sido menos pavorosa em alguns aspectos (em outros foi tão horrenda quanto), como lembrou bem minha amiga Tânia, matérias de cunho humanista como sociologia e filosofia foram banidas do currículo escolar brasileiro, substituídas por Moral e Cívica e outras descaradamente propagandistas . Ate hoje sou capaz de cantar o hino do soldado e da bandeira, mas faço conta mal. E com seis ou sete anos, assim como a Tânia, amava o vovô Médici.
Além do mais, para aqueles que inevitavelmente citam odesenvolvimento do período militar (que realmente houve) como desculpa para tudo, lembro que o regime chinês lançou as sementes de uma das maiores viradas econômicas da história da humanidade. Nem por isso gostaria de ter visto meu pai com um cone na cabeça, sendo empurrado por meninos da minha idade e taxado de verme e cidadão de ultima classe, só por que errou o dia do aniversário de um pulha qualquer.
Da mesma forma que me solidarizo com o grande Marcelo Rubens Paiva, que deve ter enjoos com a recente moda de "volta ditadura" que vemos por aí. O pecado do pai dele, Rubens Paiva, foi dar guarida a alguns porra-loucas da esquerda armada. Terminou assassinado a porradas por um sargentão qualquer.
A verdade e que a Revolução Cultural chinesa não passou de uma artimanha do raposão das fotos, que vinha perdendo poder para as nem tão novas assim gerações do PCC (o sigla maldita) e foi aforra, usando a massa de manobra mais a mão, estudantes e militares de baixa patente do Exército Vermelho. Não foi difícil para o Grande Timoneiro convence-los que tinham de salvar o mundo vermelho dos hereges, entre os quais Deng Xiaoping, o reformador, que andou por baixo do rabo do dragão nessa época. Ate a mulher do líder, de quem ele devia estar cansado, dançou sob a acusação de pertencer a famosa "Gang dos Quatro".

Por fim os puxa-sacos habituais. Alguns devem ter ido para o fundo do Rio Amarelo, como em qualquer revolução.
No nosso caso, embora haja duvidas com reação a algumas mortes, a revolução foi mais branda ao devorar seus pais legítimos e ilegítimos, transformando Lacerda, Magalhães, Juscelino e outros mais em meros expectadores, se tanto.
Friday, August 01, 2014
para DP
Foi se a bromélia, ficou o
inseto.
Foi se o obsceno, ficou o
objeto direto.
Foi se o profeta, ficou o
projeto .
Foi se o poeta, ficou o
concreto.
-
O BODE RESPIRATÓRIO
Curitiba, 26 de julho de 2014.
Ao amigo Ogarito
A raça humana é louca. Se não fosse, jamais teríamos descido da
arvore com todos aqueles dentes-de-sabre lá embaixo. Alguém achou de pegar um
galho e usar como arma. Venceu as feras, mas deu início à corrida armamentista.
Tecnologia é assim, uma benção e uma maldição. Sem ela, ainda
estaríamos na floresta — modo de vida horrível e brutal (como nos lembra o
excelente Anticristo do criticado Lars Von Triers), em que pese as idealizações
bobinhas de algumas trouxas. Por outro lado, talvez sofrêssemos menos de
ansiedade e outros efeitos colaterais de inventos que, muitas vezes, vêm para
resolver problemas que não tínhamos. Melhor dizendo, para nos tornar
mortalmente dependentes de coisas que vivíamos muito bem sem.
Gosto de lembrar aos meus filhos que os maiores inventos da
humanidade não são nem celulares e nem a Internet, mas, sim, os mais prosaicos.
Como o arado, sem o qual não teríamos nos fixado na terra e estaríamos,
provavelmente, tão extintos quanto os dodôs ou os inquilinos anteriores do
Planeta, a família Sauro. Ou o vaso sanitário, cuja inexistência é hoje
impensável, embora muita gente no mundo ainda tenha de se virar sem um à mão.
Li outro dia um bom artigo do Ruy Castro que falava de um novo
dispositivo que a Amazon pretende lançar no mercado, para que você fotografe um
artigo numa loja e envie ao Tio Jeff, que, promete, cobrirá qualquer preço.
Isso significará transformar todos os estabelecimentos comerciais que ainda
sobrevivem, pagando salários, aluguéis, impostos e ocupando áreas vitais das cidades
(que sem elas estariam às moscas ou por conta de bichos piores) em meras
vitrines não-remuneradas.
Transmutando para esta aldeia aqui, imaginem só a Rua das Flores
sem as lojas, totalmente ocupadas por mendigões e viciados em crack, como num
filme B de ficção pós-apocalíptica ou centros de cidades da vida real por aí a
fora? Uma Rua das Flores do Mal (mercy mouncier Baudelaire)
Não sou nostálgico e muito menos um ludista, mas sei que o
progresso é implacável e deixa vítimas. Sou da época da Kodak e Olivetti,
marcas hoje tão remotas quanto o lampião a gás. Considero que a beleza do
capitalismo está precisamente no poder de se reinventar, o que só acontece com
o advento de técnicas e produtos inéditos. Veja, por exemplo, como as livrarias
viraram espaços muito mais agradáveis e hospitaleiros para competirem, não por
coincidência, com a Amazon.
Mas, no limite, não sairemos mais de casa, recebendo produtos
adquiridos on-line, correndo nas esteiras virtuais do tipo Wii e vendo aos
amigos somente em suas versões pasteurizadas e sem defeitos do FB.
Paradoxalmente, soube que a Google, que juntamente com a Apple é a
empresa mais inovadora que existe, responsável por coisas mirabolantes como o
Google Earth e pelo vislumbre de soluções como o carro sem motorista e a
conexão global de Internet por meio de balões, está usando bodes (sim, bodes!)
para aparar a grama dos jardins de suas sedes. Como naquela anedota que conta
que a NASA teria gasto milhões de dólares para desenvolver uma caneta que
escrevesse no espaço, enquanto os russos optaram simplesmente por usar lápis, a
Google entendeu que nada é mais barato e ecologicamente correto do que animais
pastando em seus gramados. Já se fala em empresas terceirizando bodes.
A raça humana é louca.
Friday, July 25, 2014
Tuesday, May 27, 2014
CATCHING UP WITH SALINGER
Você se chama Jerome David Salinger. O mundo te conhece por JD. Para os seus vizinhos, em Cornish, uma pequena localidade nas montanhas de New Hampshire — região linda, mas que não por acaso tem “corny” (jacu e/ou caipira) e “ish”, (que significa "ter característica de") no nome — você é apenas Jerry.
Você é o maior (e, provavelmente, o mais alto) escritor do mundo. Não pública nada nem dá entrevistas há mais de vinte anos. Mas continua escrevendo febrilmente. Sua filha pequena não pode chegar perto da casinha-bunker (reminiscência da Normandia?) que você construiu para poder trabalhar sossegado. Ela sabe que você está lá, mas não pode vê-lo. Sente-se órfã de pai vivo.
Você nasceu rico, morava na Madison Avenue (outro trocadilho do destino?) e foi servir o Exército, logo após Pearl Harbour. Talvez acreditasse nos valores americanos ou, quem sabe, considerasse que um escritor tinha que ter uma tragédia em sua vida, assim como seus heróis Hemingway, Orwell e outros tantos.
Você estava no desembarque em Omaha Beach (nome de guerra de Verlile-Sur-Mer) e aguentou como pode a eternidade que separou o “Dia D” do “VE Day”, o dia da vitória na Europa, quando Berlim finalmente caiu. Vício histórico nosso imaginar que, em 06 de Junho de 1944, as coisas se resolveram, só porque os americanos pisaram na França. A guerra duraria, ainda, longuíssimos 299 dias, com os alemães, sem mais nada a perder, oferecendo uma resistência empedernida e, por que não, heroica.
Seu batalhão vai parar em Dachau e seus horrores. Você dirá, mais tarde, que o cheiro de corpos queimados nunca sairá de suas narinas completamente.
Antes e depois da guerra, você namorou “Lolitas” de, no máximo, metade da sua idade. A primeira foi a lindíssima Oona O‘Neill, que provavelmente tinha sérios "dady issues", já que, aos 16 anos, já colecionava homens mais velhos e geniais — entre os quais, Orson Welles. Filha de Eugene (outro pai que preferia seus filhos imaginários aos reais), ela era figurinha fácil no Jet set nova-iorquino. Na Europa devastada, mas ainda capaz de publicar revistas de fofocas, enquanto escrevia nas trincheiras seu livro mais famoso — The Catcher In The Rye — entre uma batalha e outra, você lê que Oona, entãocom 18 aninhos, havia se casado com o cinquentão Charlie Chaplin, outro“Humbert Humbert” da vida. Daí em diante, todas suas mulheres em sua vida foram tentativas de reavê-la.
O Apanhador está longe de ser seu melhor livro, mas te transformou numa celebridade instantânea, principalmente entre os adolescentes de todas as idades. Combinemos: O baby boom do pós-guerra, a paz prolongada e o consequente enriquecimento do mundo transformaram a raça humana emeterna teenager. Resultado: Rye, que trata de um dia na vida de certo Holden Caulfield, garoto de 15 anos aka Jerry Salinger, que vaga pela cidade questionando tudo e todos, vendeu e continua vendendo mais que a bíblia ou o Dark Side of The Moon.
Já em seus dias de “Urtigão”, a Times pagava franco atiradores só para fotografar você saindo do correio ou do jantar da paróquia. E a New Yorker,que anos antes te esnobara, daria qualquer coisa por uma linha sua. Gente do mundo inteiro peregrinava até Cornish atrás de um contato imediato com o cara que "definia seus sentimentos melhor que eles mesmos". Você era protegido pelo código de silêncio das montanhas, mas, volta e meia, via-seobrigado a explicar a uma pobre alma perdida que era apenas um romancista e não tinha resposta para nada. Somente, talvez, mais perguntas.
Aí você fica sabendo que três malucos, em momentos diferentes, invocam seu livro para cometer atrocidades, como se o seu texto pudesse absolvê-los. Um deles, Marc David (como você) Chapman, descarregara um três-oitão em outro ícone recluso, John Lennon, que, em sua leitura tortuosa, seria um "vendido ao sistema".
Não sei que efeito isso pode ter surtido em sua cabeça, mas duvido que tenha te tornado mais sociável.
Você morreu aos noventa e poucos, deixando várias obras póstumas que deverão ser publicadas em breve (inclusive, espero, mais histórias de Seymour e os irmãos Glass, meus personagens favoritos) e uma instrução clara: que o Apanhador nunca seja filmado.
Monday, January 13, 2014
tragam me a cabeça de Eike Batista
Rio , 29 dez de 2012
tragam me a cabeça de Eike Batista
Eike Batista quebrou. E todos , sem exceção,
quebramos um pouquinho com ele, mesmo quem, como eu, não possui uma ação
“X” sequer. Não entendo a cara de satisfação das pessoas ao comentarem o fato.
O mundo moderno precisa de todos tipo de capitalistas,
inclusive os high profiles, que emprestam seu nome aos projetos
que encabeçam, e quando bem sucedidos , viram uma espécie de garantia de
retorno do capital. É isso que o nada contido Donald Trump tem feito no mercado
imobiliário americano há anos, não sem tropeços. Dinheiro seu, põe muito pouco
em seus projetos mirabolantes. Capta de investidores e empresta sua grife a
construções cada vez mais ousadas, e aparentemente tem conseguido manter a roda
girando.
Eike pretendia ser uma referencia de sucesso no incipiente
ramo de infraestrutura privada de que o pais precisa desesperadamente, e no de
commodities, ainda dominado por estatais, para-estatais e multis, que
devem estar comemorando seu fracasso por razões obvias. Já o cidadão comum
celebrar sua derrota, mais parece um desvio de conduta e um masoquismo biruta,
própria dos brasileiros.
Não simpatizo muito com figura nem do estilo de
Batista, mas me compadeço com ele, pois sei perfeitamente que lhe faltou um
componente fundamental, divisor de aguas entre “gênios dos negócios’’ e
“aventureiros que especulam com dinheiro alheio” (como se a maioria dos ricos
não o tivessem feito em algum momento de sua trajetória, mesmo que se tratasse
de recurso de bancos, que é em ultima analise, dinheiro de correntistas) :
- Sorte.
Caso tivesse achado petróleo, teria abastecido todos
seu manancial de negócios de estrutura vertical: petrolífera, estaleiros,
portos etc.., e mesmo outros que mantinha por pura vaidade ou grandeza, sabe-se
lá. Hoje seria , provavelmente não o homem mais rico do mudo, o que não sem uma
ponta de marketing e muito de fanfarronice ele bradava, mas um case de
sucesso mundial. Ter sido abatido na decolagem não deixa de ser uma imagem do
Brasil, cujo Cristo redentor ascendente da capa da Economist corre o
serio risco de explodir antes de alcançar a estratosfera, e isso não deveria
deixar ninguém contente.
Ainda ontem via a queda do Spider Anderson
Silva e me perguntava se estamos indelevelmente fadados ao fracasso.
Entendo que em algum momento nossas falta de preparo, financiamento e cultura
de vencedor acabem se interpondo , mas não acredito que seja um a sina
brasileira ou um fatalismo terceiro mundista.
Os EUA também desprezam seus perdedores, mas aqui
parece que temos problemas mesmo é com o sucesso. Temo que o Mr X. não tenha
virado o príncipe negro dos mercadosno imaginário popular pelo seu fracasso,
mas por ter dado certo por algum tempo.
Nos anos 70/80, Roberto Marinho era demonizado por
praticamente todos, esquerda e direita, e ainda hoje há quem chame sua empresa
de Rede Esgoto e outras vulgaridades. Ora, o que ele fez de errado que eclipse
o fato ter construído uma rede televisiva de qualidade mundial e se
transformado, de um retransmissor de enlatados americanos (alguns bons, off
course) em produtor de conteúdo de primeira, totalmente nacional e
autossuficiente? Um homem que virou o que virou depois de completar cinquenta
anos, numa época em que pessoas dessa idade estavam fora do jogo, e teve o
mérito de saber contratar bem e delegar corretamente, isso quando o
empresariado paulista ainda se comportava como fazendeiros de café.
Pior do que as pessoas que se regozijam com o tombo de
Eike, são as que assumem aquela atitude clássica do “eu sabia”. Por que então
não compraram ações da Apple no lançamento ? Por que tantos críticos dele
perderam dinheiro com as da Petrobras, essa sim vitima de uma previsível
derrotada causada por politicas alheias a seu interesse e que nada tem haver
com o acaso ou com o imponderável dos negócios. Como se o processo de
enriquecimento e sucesso financeiro não contivessem em sua origem um componente
de risco de fracasso tão grande quanto o de sucesso , que faz do mundo o que
ele é.
Se ele fraudou a Bolsa ou algo assim, aguardo os
próximos acontecimentos, mas até nesse aspecto, a experiência “X” terá feito um
bem imenso ao mercado de capitais ao depura-lo e por consequência ,
fortalece-lo. Ou alguém esquece que o Stock Exchange mais poderoso do
mundo só virou o que é por conta de muita gente esborrachada na calçada em
1929?
Sinto muito pelo Rio de onde escrevo, pois sei como
uma cidade necessita de tycoons que acabam por melhorá-la pelas razões
que forem, mesmo que por vaidade (bilionários não são santos, são seres
humanos como eu e você, mas com muito mais dinheiro), como fizeram por NY
Solomon Gugenhein com seu museu assinado por Lloyd Wright, Andreas Carnegie com
seu Hall homônimo ou os Rockefeller com o MoMA. Ou ate mesmo coloca-las no mapa
como Buffet fez por sua Omaha e o pai do meu amigo Chase, Charles Koch
pela insignificante Wichita.
Na nossa mitologia, um Icáro que tenta voar e chega
muito perto do Sol é um vilão. Já seu pai, grande homem (de fato o é) tal qual
Dédalo, que nunca ousou um centavo seu, já que o fazia com o saco sem fundo do
Governo em sua Vale, acertou muito sem o menor risco pessoal de errar.
Riqueza antes das pessoas e dos países mais nada, é
uma questão de atitude.
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