Rio , 29 dez de 2012
tragam me a cabeça de Eike Batista
Eike Batista quebrou. E todos , sem exceção,
quebramos um pouquinho com ele, mesmo quem, como eu, não possui uma ação
“X” sequer. Não entendo a cara de satisfação das pessoas ao comentarem o fato.
O mundo moderno precisa de todos tipo de capitalistas,
inclusive os high profiles, que emprestam seu nome aos projetos
que encabeçam, e quando bem sucedidos , viram uma espécie de garantia de
retorno do capital. É isso que o nada contido Donald Trump tem feito no mercado
imobiliário americano há anos, não sem tropeços. Dinheiro seu, põe muito pouco
em seus projetos mirabolantes. Capta de investidores e empresta sua grife a
construções cada vez mais ousadas, e aparentemente tem conseguido manter a roda
girando.
Eike pretendia ser uma referencia de sucesso no incipiente
ramo de infraestrutura privada de que o pais precisa desesperadamente, e no de
commodities, ainda dominado por estatais, para-estatais e multis, que
devem estar comemorando seu fracasso por razões obvias. Já o cidadão comum
celebrar sua derrota, mais parece um desvio de conduta e um masoquismo biruta,
própria dos brasileiros.
Não simpatizo muito com figura nem do estilo de
Batista, mas me compadeço com ele, pois sei perfeitamente que lhe faltou um
componente fundamental, divisor de aguas entre “gênios dos negócios’’ e
“aventureiros que especulam com dinheiro alheio” (como se a maioria dos ricos
não o tivessem feito em algum momento de sua trajetória, mesmo que se tratasse
de recurso de bancos, que é em ultima analise, dinheiro de correntistas) :
- Sorte.
Caso tivesse achado petróleo, teria abastecido todos
seu manancial de negócios de estrutura vertical: petrolífera, estaleiros,
portos etc.., e mesmo outros que mantinha por pura vaidade ou grandeza, sabe-se
lá. Hoje seria , provavelmente não o homem mais rico do mudo, o que não sem uma
ponta de marketing e muito de fanfarronice ele bradava, mas um case de
sucesso mundial. Ter sido abatido na decolagem não deixa de ser uma imagem do
Brasil, cujo Cristo redentor ascendente da capa da Economist corre o
serio risco de explodir antes de alcançar a estratosfera, e isso não deveria
deixar ninguém contente.
Ainda ontem via a queda do Spider Anderson
Silva e me perguntava se estamos indelevelmente fadados ao fracasso.
Entendo que em algum momento nossas falta de preparo, financiamento e cultura
de vencedor acabem se interpondo , mas não acredito que seja um a sina
brasileira ou um fatalismo terceiro mundista.
Os EUA também desprezam seus perdedores, mas aqui
parece que temos problemas mesmo é com o sucesso. Temo que o Mr X. não tenha
virado o príncipe negro dos mercadosno imaginário popular pelo seu fracasso,
mas por ter dado certo por algum tempo.
Nos anos 70/80, Roberto Marinho era demonizado por
praticamente todos, esquerda e direita, e ainda hoje há quem chame sua empresa
de Rede Esgoto e outras vulgaridades. Ora, o que ele fez de errado que eclipse
o fato ter construído uma rede televisiva de qualidade mundial e se
transformado, de um retransmissor de enlatados americanos (alguns bons, off
course) em produtor de conteúdo de primeira, totalmente nacional e
autossuficiente? Um homem que virou o que virou depois de completar cinquenta
anos, numa época em que pessoas dessa idade estavam fora do jogo, e teve o
mérito de saber contratar bem e delegar corretamente, isso quando o
empresariado paulista ainda se comportava como fazendeiros de café.
Pior do que as pessoas que se regozijam com o tombo de
Eike, são as que assumem aquela atitude clássica do “eu sabia”. Por que então
não compraram ações da Apple no lançamento ? Por que tantos críticos dele
perderam dinheiro com as da Petrobras, essa sim vitima de uma previsível
derrotada causada por politicas alheias a seu interesse e que nada tem haver
com o acaso ou com o imponderável dos negócios. Como se o processo de
enriquecimento e sucesso financeiro não contivessem em sua origem um componente
de risco de fracasso tão grande quanto o de sucesso , que faz do mundo o que
ele é.
Se ele fraudou a Bolsa ou algo assim, aguardo os
próximos acontecimentos, mas até nesse aspecto, a experiência “X” terá feito um
bem imenso ao mercado de capitais ao depura-lo e por consequência ,
fortalece-lo. Ou alguém esquece que o Stock Exchange mais poderoso do
mundo só virou o que é por conta de muita gente esborrachada na calçada em
1929?
Sinto muito pelo Rio de onde escrevo, pois sei como
uma cidade necessita de tycoons que acabam por melhorá-la pelas razões
que forem, mesmo que por vaidade (bilionários não são santos, são seres
humanos como eu e você, mas com muito mais dinheiro), como fizeram por NY
Solomon Gugenhein com seu museu assinado por Lloyd Wright, Andreas Carnegie com
seu Hall homônimo ou os Rockefeller com o MoMA. Ou ate mesmo coloca-las no mapa
como Buffet fez por sua Omaha e o pai do meu amigo Chase, Charles Koch
pela insignificante Wichita.
Na nossa mitologia, um Icáro que tenta voar e chega
muito perto do Sol é um vilão. Já seu pai, grande homem (de fato o é) tal qual
Dédalo, que nunca ousou um centavo seu, já que o fazia com o saco sem fundo do
Governo em sua Vale, acertou muito sem o menor risco pessoal de errar.
Riqueza antes das pessoas e dos países mais nada, é
uma questão de atitude.