Tuesday, May 27, 2014

CATCHING UP WITH SALINGER

Você se chama Jerome David Salinger. O mundo te conhece por JD. Para os seus vizinhos, em Cornish, uma pequena localidade nas montanhas de New Hampshire  região linda, mas que não por acaso tem “corny” (jacu    e/ou caipira) e ish, (que significa "ter característica de") no nome —            você é apenas Jerry.

Você é o maior (e, provavelmente, o mais alto) escritor do mundoNão pública nada nem dá entrevistas há mais de vinte anos. Mas continua escrevendo febrilmente. Sua filha pequena não pode chegar perto da casinha-bunker (reminiscência da Normandia?) que você construiu para        poder trabalhar sossegado. Ela sabe que você está lá, mas não pode vê-lo. Sente-se órfã de pai vivo.

Você nasceu rico, morava na Madison Avenue (outro trocadilho do destino?  e foi servir o Exército, logo após Pearl Harbour. Talvez acreditasse nos valores americanos ou, quem sabe, considerasse que um escritor tinha que ter uma tragédia em sua vida, assim como seus heróis Hemingway, Orwell e outros tantos.

Você estava no desembarque em Omaha Beach (nome de guerra de Verlile-Sur-Mere aguentou como pode a eternidade que separou o “Dia D do “VE Day”, o dia da vitória na Europa, quando Berlim finalmente caiu.   Vício histórico nosso imaginar que, em 06 de Junho de 1944, as coisas             se resolveram, só porque os americanos pisaram na França. A guerra duraria, ainda, longuíssimos 299 dias, com os alemães, sem mais nada a perder, oferecendo uma resistência empedernida e, por que nãoheroica.

Seu batalhão vai parar em Dachau e seus horrores. Você dirá, mais tarde, que o cheiro de corpos queimados nunca sairá de suas narinas completamente.

Antes e depois da guerra, você namorou Lolitas” de, no máximo, metade da sua idade. A primeira foi a lindíssima Oona O‘Neill, que provavelmente tinha sérios "dady issues", já que, aos 16 anos, já colecionava homens mais velhos          e geniais — entre os quaisOrson Welles. Filha de Eugene (outro pai que preferia seus filhos imaginários aos reais), ela era figurinha fácil no Jet set nova-iorquino. Na Europa devastadamas ainda capaz de publicar revistas de fofocasenquanto escrevia nas trincheiras seu livro mais famoso — The Catcher In The Rye — entre uma batalha e outra, você lê que Oona, entãocom 18 aninhos, havia se casado com o cinquentão Charlie Chaplin, outroHumbert Humbert” da vida. Daí em diante, todas suas mulheres em sua vida foram tentativas de reavê-la.

O Apanhador está longe de ser seu melhor livro, mas te transformou numa celebridade instantânea, principalmente entre os adolescentes de todas as idades. Combinemos: O baby boom do pós-guerra, a paz prolongada e o consequente enriquecimento do mundo transformaram a raça humana emeterna teenager. Resultado: Rye, que trata de um dia na vida de certo Holden Caulfield, garoto de 15 anos aka Jerry Salinger, que vaga pela cidade questionando tudo e todos, vendeu e continua vendendo mais que a bíblia          ou o Dark Side of The Moon.

Já em seus dias de “Urtigão”, a Times pagava franco atiradores só para fotografar você saindo do correio ou do jantar da paróquia. E a New Yorker,que anos antes te esnobara, daria qualquer coisa por uma linha sua. Gente           do mundo inteiro peregrinava até Cornish atrás de um contato imediato com o cara que "definia seus sentimentos melhor que eles mesmos". Você era protegido pelo código de silêncio das montanhas, mas, volta e meia, via-seobrigado a explicar a uma pobre alma perdida que era apenas um romancista e não tinha resposta para nada. Somente, talvez, mais perguntas.

Aí você fica sabendo que três malucos, em momentos diferentes, invocam seu livro para cometer atrocidades, como se o seu texto pudesse absolvê-los.    Um deles, Marc David (como você) Chapman, descarregara um três-oitão em outro ícone recluso, John Lennon, que, em sua leitura tortuosa, seria um "vendido ao sistema".

Não sei que efeito isso pode ter surtido em sua cabeça, mas duvido que tenha te tornado mais sociável.

Você morreu aos noventa e poucos, deixando várias obras póstumas que deverão ser publicadas em breve (inclusiveespero, mais histórias de Seymour e os irmãos Glass, meus personagens favoritos) e uma instrução clara       que o Apanhador nunca seja filmado.