Friday, August 01, 2014

O BODE RESPIRATÓRIO


Curitiba, 26 de julho de 2014.

 
Ao amigo Ogarito

 

A raça humana é louca. Se não fosse, jamais teríamos descido da arvore com todos aqueles dentes-de-sabre lá embaixo. Alguém achou de pegar um galho e usar como arma. Venceu as feras, mas deu início à corrida armamentista.

 

Tecnologia é assim, uma benção e uma maldição. Sem ela, ainda estaríamos na floresta — modo de vida horrível e brutal (como nos lembra o excelente Anticristo do criticado Lars Von Triers), em que pese as idealizações bobinhas de algumas trouxas. Por outro lado, talvez sofrêssemos menos de ansiedade e outros efeitos colaterais de inventos que, muitas vezes, vêm para resolver problemas que não tínhamos. Melhor dizendo, para nos tornar mortalmente dependentes de coisas que vivíamos muito bem sem.

 

Gosto de lembrar aos meus filhos que os maiores inventos da humanidade não são nem celulares e nem a Internet, mas, sim, os mais prosaicos. Como o arado, sem o qual não teríamos nos fixado na terra e estaríamos, provavelmente, tão extintos quanto os dodôs ou os inquilinos anteriores do Planeta, a família Sauro. Ou o vaso sanitário, cuja inexistência é hoje impensável, embora muita gente no mundo ainda tenha de se virar sem um à mão.

 

Li outro dia um bom artigo do Ruy Castro que falava de um novo dispositivo que a Amazon pretende lançar no mercado, para que você fotografe um artigo numa loja e envie ao Tio Jeff, que, promete, cobrirá qualquer preço. Isso significará transformar todos os estabelecimentos comerciais que ainda sobrevivem, pagando salários, aluguéis, impostos e ocupando áreas vitais das cidades (que sem elas estariam às moscas ou por conta de bichos piores) em meras vitrines não-remuneradas.

 

Transmutando para esta aldeia aqui, imaginem só a Rua das Flores sem as lojas, totalmente ocupadas por mendigões e viciados em crack, como num filme B de ficção pós-apocalíptica ou centros de cidades da vida real por aí a fora?  Uma Rua das Flores do Mal (mercy mouncier Baudelaire)

 

Não sou nostálgico e muito menos um ludista, mas sei que o progresso é implacável e deixa vítimas. Sou da época da Kodak e Olivetti, marcas hoje tão remotas quanto o lampião a gás. Considero que a beleza do capitalismo está precisamente no poder de se reinventar, o que só acontece com o advento de técnicas e produtos inéditos. Veja, por exemplo, como as livrarias viraram espaços muito mais agradáveis e hospitaleiros para competirem, não por coincidência, com a Amazon.

 

Mas, no limite, não sairemos mais de casa, recebendo produtos adquiridos on-line, correndo nas esteiras virtuais do tipo Wii e vendo aos amigos somente em suas versões pasteurizadas e sem defeitos do FB.

 

Paradoxalmente, soube que a Google, que juntamente com a Apple é a empresa mais inovadora que existe, responsável por coisas mirabolantes como o Google Earth e pelo vislumbre de soluções como o carro sem motorista e a conexão global de Internet por meio de balões, está usando bodes (sim, bodes!) para aparar a grama dos jardins de suas sedes. Como naquela anedota que conta que a NASA teria gasto milhões de dólares para desenvolver uma caneta que escrevesse no espaço, enquanto os russos optaram simplesmente por usar lápis, a Google entendeu que nada é mais barato e ecologicamente correto do que animais pastando em seus gramados. Já se fala em empresas terceirizando bodes.

 

A raça humana é louca.

 

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