Curitiba, 26 de julho de 2014.
Ao amigo Ogarito
A raça humana é louca. Se não fosse, jamais teríamos descido da
arvore com todos aqueles dentes-de-sabre lá embaixo. Alguém achou de pegar um
galho e usar como arma. Venceu as feras, mas deu início à corrida armamentista.
Tecnologia é assim, uma benção e uma maldição. Sem ela, ainda
estaríamos na floresta — modo de vida horrível e brutal (como nos lembra o
excelente Anticristo do criticado Lars Von Triers), em que pese as idealizações
bobinhas de algumas trouxas. Por outro lado, talvez sofrêssemos menos de
ansiedade e outros efeitos colaterais de inventos que, muitas vezes, vêm para
resolver problemas que não tínhamos. Melhor dizendo, para nos tornar
mortalmente dependentes de coisas que vivíamos muito bem sem.
Gosto de lembrar aos meus filhos que os maiores inventos da
humanidade não são nem celulares e nem a Internet, mas, sim, os mais prosaicos.
Como o arado, sem o qual não teríamos nos fixado na terra e estaríamos,
provavelmente, tão extintos quanto os dodôs ou os inquilinos anteriores do
Planeta, a família Sauro. Ou o vaso sanitário, cuja inexistência é hoje
impensável, embora muita gente no mundo ainda tenha de se virar sem um à mão.
Li outro dia um bom artigo do Ruy Castro que falava de um novo
dispositivo que a Amazon pretende lançar no mercado, para que você fotografe um
artigo numa loja e envie ao Tio Jeff, que, promete, cobrirá qualquer preço.
Isso significará transformar todos os estabelecimentos comerciais que ainda
sobrevivem, pagando salários, aluguéis, impostos e ocupando áreas vitais das cidades
(que sem elas estariam às moscas ou por conta de bichos piores) em meras
vitrines não-remuneradas.
Transmutando para esta aldeia aqui, imaginem só a Rua das Flores
sem as lojas, totalmente ocupadas por mendigões e viciados em crack, como num
filme B de ficção pós-apocalíptica ou centros de cidades da vida real por aí a
fora? Uma Rua das Flores do Mal (mercy mouncier Baudelaire)
Não sou nostálgico e muito menos um ludista, mas sei que o
progresso é implacável e deixa vítimas. Sou da época da Kodak e Olivetti,
marcas hoje tão remotas quanto o lampião a gás. Considero que a beleza do
capitalismo está precisamente no poder de se reinventar, o que só acontece com
o advento de técnicas e produtos inéditos. Veja, por exemplo, como as livrarias
viraram espaços muito mais agradáveis e hospitaleiros para competirem, não por
coincidência, com a Amazon.
Mas, no limite, não sairemos mais de casa, recebendo produtos
adquiridos on-line, correndo nas esteiras virtuais do tipo Wii e vendo aos
amigos somente em suas versões pasteurizadas e sem defeitos do FB.
Paradoxalmente, soube que a Google, que juntamente com a Apple é a
empresa mais inovadora que existe, responsável por coisas mirabolantes como o
Google Earth e pelo vislumbre de soluções como o carro sem motorista e a
conexão global de Internet por meio de balões, está usando bodes (sim, bodes!)
para aparar a grama dos jardins de suas sedes. Como naquela anedota que conta
que a NASA teria gasto milhões de dólares para desenvolver uma caneta que
escrevesse no espaço, enquanto os russos optaram simplesmente por usar lápis, a
Google entendeu que nada é mais barato e ecologicamente correto do que animais
pastando em seus gramados. Já se fala em empresas terceirizando bodes.
A raça humana é louca.
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