Geoffrey Arnold "Jeff" Beck e Eric Patrick Clapton são os guitarristas seminais do século 20. Esperneie se quiser. Existem outros, maravilhosos, mas nenhum deles levou a guitarra elétrica ao ápice como esses dois ingleses, nascidos com oito meses de diferença e a cerca de dez milhas de distância um do outro na Inglaterra do pós-guerra, que deu ao mundo alguns dos maiores nomes da música pop contemporânea. Gente que se apropriou da musica americana e a devolveu melhor que a encomenda.Jeff e Eric tiveram/têm carreiras brilhantes. Clapton, mais bem sucedido em termos financeiros e de reconhecimento pelo público, tornou-se uma das pessoas mais famosas do mundo. Jeff parece não se importar com isso: tem uma plateia mais seletiva, quase inteiramente formada por músicos e entendidos em música. De rivais viraram grandes amigos, até porque, como disse Eric num dos trechos do DVD da terceira edição do Festival Crossroads, que ele (quem mais teria cacife para tanto?) realiza a cada dois anos, ao comentar a performance do colega, um dos poucos guitarristas que participa de todas as edições: “se você tem uma moeda ai, cada um de nós é uma face”.Há poucos anos assisti no Canadá um concerto de ambos, em companhia do Prof. Corrêa e do Alexandre, no qual Jeff abria o show com seu set e era seguido por Eric. Ao final, Clapton chamava Beck de volta ao palco para uma série de números conjuntos, acompanhados por sua banda (e que banda: Gadd, Weeks e Stanton!). Desde então, um rascunho desse texto tem rondado minha mente. Enfim, pego a deixa de Eric e vou além da imagem da moeda.- Jeff é o sol da meia noite. Eric o sol do meio dia.
--Jeff é o fogo imprevisível. Eric é a agua fluida.
--Jeff é Beethoven e Tchaikovsky. Eric é Bach e Mozart.
--Eric é feeling, bends, fraseado, lirismo e precisão. Jeff é ataque, inovação e faz da imprecisão sua arte. Jeff usa o whammy bar e o volume como ninguém. Eric usa os dedos como só ele.--Jeff é Senna. Eric é Schumacher.
--Jeff é inventivo. Eric é inventor.
--Eric dilui os grandes mestres dos blues. Jeff dilui a si mesmo.
--O dom de Eric vem do topo do Olimpo. O dom de Jeff vem das profundezas do Hades.
--Jeff considera que Eric é o maior. Eric pensa que Jeff é o melhor. Jeff é o guitarrista dos guitarristas. Eric é o guitarrista dos guitarristas e dos não guitarristas.--Jeff olha para trás e vê Charles Christian, Les Paul e Cliff Gallup; para o lado vê Jimmy Page e para frente vê Adrian Bellew e Tom Morello. Eric olha para traz e vê Robert Johnson e os três reis magos Freddy, Albert e BB; para o lado vê Buddy Guy e para frente (por vezes, literalmente) vê Joe Bonamassa e Derek Trucks.-Eric é os Beatles. Jeff é os Rolling Stones (muito embora, o contrario também funcione). Jeff esnobou os Stones. Eric foi esnobado por eles (embora KR diga que não queria que a banda se transformasse em EC e os RS). Hendrix amava os dois, mas considerava Terry Kath, do Chicago, o melhor: “(reporter) how do you feel being the best guitarist in the world? (Hendrix) you have to ask Terry Kath that”.--O disco de Rogers Waters com Eric é um clássico. O disco de Roger Waters com Jeff, nem tanto.
--Jeff e irascível, idiossincrático e não faz muitas concessões. Eric (segundo Jeff) é esperto: aprendeu a cantar.
--Ambos tiveram dream team line ups, alguns dos maiores músicos do mundo, em suas bandas: Bruce, Baker, Winwood, Preston Hammer, Bozio, Stanton, Colaiuta, Weeks, Winfeld, Radle, Gordon, Page, Ronda Smith, Narada, Appice, Duck Dunn, Trucks, Bramlet, Miller, Clark, Borget, Stewart, Grech, Mason, Allman, Hymas, Hopkins, Lee, Wood, Knopfler, Gadd, Jordan, Keltner, Samborn, Sample, Hawkins, ufa...--Jeff não tem alma gêmea. Eric tem Steve Winwood.
--Jeff se veste como um guitar hero.Eric se veste como um homem da sua idade.
--Ninguém toca como Jeff. Todos tocam como Eric. E isso é um baita elogio.
Thursday, November 20, 2014
EleTric HE R O E S
SOB O SIGNO DE MARTE (KIEFER E A BIELORÚSSIA)
Vim à Bielorússia a trabalho. Não conheço ninguém queviesse a passeio — exceto, talvez, meu primo Marcelo Madureira, que passou sua segunda lua de mel no “eixo do mal” Irã, Afeganistão, Coreia do Norte.
A capital, Minsk, para minha surpresa, é uma cidade agradável, ainda com alguns traços soviéticos, como as avenidas largas e prédios baixos, mas mil anos-luz melhor que a minha expectativa.
Na verdade, a cidade é quase um monumento à resistência contra o exército alemão durante a “Guerra Patriótica”,apelido regional da Segunda Guerra Mundial. Façanha que deu ao comunismo, desgastado pelos expurgos stalinistas,um novo fôlego e uma oportunidade e tanto para conquistar o poder em boa parte do leste europeu, até cair de podre no final dos anos 80.
Apesar de todos aqueles façanhudos filmes americanos, aII Guerra virou mesmo foi aqui e em Stalingrado, com grande
participação dos camponeses “partizans”, gente acostumada à dura vida das estepes, que, apesar e odiar o sistema, tinha o pavor de invasores estrangeiros na carga genética.
A Bielo-Rússia de hoje é, tecnicamente, a última ditadura de Europa (parece que a Rússia escapou do título, já que Putin tirou férias como primeiro-ministro na gestão de seu sidekick Medelev), mas as pessoas parecem felizes com o raposão Lucachenco, cruza de Berlusconi, Lula e Maduro, capaz de gafes antológicas, brutal e nem um pouco disposto a aturar essa bobagem inconveniente chamada“oposição”.
Há que se entender que o povo daqui, após séculos de czares de todas as cores, tem um apreço menor àdemocracia e adora um líder forte e, de preferência, rude.Apesar de todo nacionalismo que foi o motor da vitória contra os Nazis, o país é e será, para sempre, um apêndiceda Rússia. Apesar de Luca se gabar de ter impedido que as riquezas locais, ao contrário da matriz, tivessem sido apropriadas por oligarcas — o que no fim das contas significa...
O recém inaugurado Museu da Guerra, completíssimo e muito bem montado, vale a viagem. Tem a vantagem de contar com muitos armamentos alemães originais e intactos, como tanques e aviões, deixados para tras simplesmente por falta de combustível.
Da mesma forma, o Exército Vermelho, que aqui mantinha um arsenal imenso (estamos justamente no estratégico meio do caminho entre Moscou e a EuropaOcidental), com o fim da URSS abandonou dezenas dejatos Mig, helicópteros Mamute e até mísseis (desarmados, espero) num “cemitério” nos arredores da cidade, que visitamos com nossos anfitriões, com direto a passeio de tanque e tiros de AK47.
Depois dessa overdose de armas e guerras, uma coincidência bacana (as famosas sincronicidades do velho“Jovem”) foi dar de cara com a exposição do artista alemão Anselm Kiefer, cuja obra é permeada por motivos bélicos, na Royal Academy em Londres.
Kiefer nasceu em 1945, na Alemanha devastada, e incorporou em sua obra o horror nazista, elementos mitológicos germânicos e mitos judaicos. Um “partizan” a serviço da arte de primeira classe, num mundo cada vez mais pautado pelo entretenimento.
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