Thursday, November 20, 2014

SOB O SIGNO DE MARTE (KIEFER E A BIELORÚSSIA)



Vim à Bielorússia a trabalho. Não conheço ninguém queviesse a passeio — exceto, talvez, meu primo Marcelo Madureira, que passou sua segunda lua de mel no eixo do mal” Irã, Afeganistão, Coreia do Norte.

A capital, Minsk, para minha surpresa, é uma cidade agradável, ainda com alguns traços soviéticos, como as avenidas largas e prédios baixos, mas mil anos-luz melhor que a minha expectativa.

Na verdade, a cidade é quase um monumento à resistência contra o exército alemão durante a Guerra Patriótica”,apelido regional dSegunda Guerra Mundial. Façanha que deu ao comunismo, desgastado pelos expurgos stalinistas,um novo fôlego e uma oportunidade e tanto para conquistar o poder em boa parte do leste europeu, até cair de podre no final dos anos 80.


Apesar de todos aqueles façanhudos filmes americanos, aII Guerra virou mesmo foi aqui e em Stalingrado, com grande
participação dos camponeses “partizans”, gente acostumada à dura vida das estepes, que, apesar e odiar o sistema, tinha o pavor de invasores estrangeiros na carga genética.


A Bielo-Rússia de hoje é, tecnicamente, a última ditadura de Europa (parece que a Rússia escapou  do título, já que Putin tirou férias como primeiro-ministro na gestão de seu sidekick Medelev), mas as pessoas parecem felizes com o raposão Lucachenco, cruza de Berlusconi, Lula e Maduro, capaz de gafes antológicas, brutal e nem um pouco disposto  a aturar essa bobagem inconveniente chamadaoposição.


Há que se entender que o povo daqui, após séculos de czares de todas as cores, tem um apreço menor àdemocracia e adora um líder forte e, de preferência, rude.Apesar de todo nacionalismo que foi o motor da vitória contra os Nazis, o país é e será, para sempre, um apêndiceda Rússia. Apesar de Luca se gabar de ter impedido que as riquezas locais, ao contrário da matriz, tivessem sido apropriadas por oligarcas — o que no fim das contas significa...


recém inaugurado Museu da Guerra, completíssimo e muito bem montado, vale a viagem. Tem a vantagem de contar com muitoarmamentos alemães originais e intactoscomo tanques e aviões, deixados para tras simplesmente por falta de combustível.


Da mesma forma, o Exército Vermelho, que aqui mantinha um arsenal imenso  (estamos justamente no estratégico meio do caminho entre Moscou e a EuropaOcidental), com o fim da URSS abandonou dezenas dejatos Mig, helicópteros Mamute e até mísseis (desarmados, espero) num cemitério nos arredores da cidade, que visitamos com nossos anfitriões, com direto a passeio de tanque e tiros de AK47.

Depois dessa overdose de armas e guerras, uma coincidência bacana (as famosas sincronicidades  do velhoJovem”) foi dar de cara com a exposição do artista alemão Anselm  Kiefer, cuja obra é permeada por motivos bélicos, na Royal Academy em Londres.

Kiefer nasceu em 1945, na Alemanha devastada, e incorporou em sua obra o horror nazista, elementos mitológicos germânicos e mitos judaicos. Um partizan a serviço da arte de primeira classe, num mundo cada vez mais pautado pelo entretenimento.

Enviado via iPhone

No comments: