Vim à Bielorússia a trabalho. Não conheço ninguém queviesse a passeio — exceto, talvez, meu primo Marcelo Madureira, que passou sua segunda lua de mel no “eixo do mal” Irã, Afeganistão, Coreia do Norte.
A capital, Minsk, para minha surpresa, é uma cidade agradável, ainda com alguns traços soviéticos, como as avenidas largas e prédios baixos, mas mil anos-luz melhor que a minha expectativa.
Na verdade, a cidade é quase um monumento à resistência contra o exército alemão durante a “Guerra Patriótica”,apelido regional da Segunda Guerra Mundial. Façanha que deu ao comunismo, desgastado pelos expurgos stalinistas,um novo fôlego e uma oportunidade e tanto para conquistar o poder em boa parte do leste europeu, até cair de podre no final dos anos 80.
Apesar de todos aqueles façanhudos filmes americanos, aII Guerra virou mesmo foi aqui e em Stalingrado, com grande
participação dos camponeses “partizans”, gente acostumada à dura vida das estepes, que, apesar e odiar o sistema, tinha o pavor de invasores estrangeiros na carga genética.
A Bielo-Rússia de hoje é, tecnicamente, a última ditadura de Europa (parece que a Rússia escapou do título, já que Putin tirou férias como primeiro-ministro na gestão de seu sidekick Medelev), mas as pessoas parecem felizes com o raposão Lucachenco, cruza de Berlusconi, Lula e Maduro, capaz de gafes antológicas, brutal e nem um pouco disposto a aturar essa bobagem inconveniente chamada“oposição”.
Há que se entender que o povo daqui, após séculos de czares de todas as cores, tem um apreço menor àdemocracia e adora um líder forte e, de preferência, rude.Apesar de todo nacionalismo que foi o motor da vitória contra os Nazis, o país é e será, para sempre, um apêndiceda Rússia. Apesar de Luca se gabar de ter impedido que as riquezas locais, ao contrário da matriz, tivessem sido apropriadas por oligarcas — o que no fim das contas significa...
O recém inaugurado Museu da Guerra, completíssimo e muito bem montado, vale a viagem. Tem a vantagem de contar com muitos armamentos alemães originais e intactos, como tanques e aviões, deixados para tras simplesmente por falta de combustível.
Da mesma forma, o Exército Vermelho, que aqui mantinha um arsenal imenso (estamos justamente no estratégico meio do caminho entre Moscou e a EuropaOcidental), com o fim da URSS abandonou dezenas dejatos Mig, helicópteros Mamute e até mísseis (desarmados, espero) num “cemitério” nos arredores da cidade, que visitamos com nossos anfitriões, com direto a passeio de tanque e tiros de AK47.
Depois dessa overdose de armas e guerras, uma coincidência bacana (as famosas sincronicidades do velho“Jovem”) foi dar de cara com a exposição do artista alemão Anselm Kiefer, cuja obra é permeada por motivos bélicos, na Royal Academy em Londres.
Kiefer nasceu em 1945, na Alemanha devastada, e incorporou em sua obra o horror nazista, elementos mitológicos germânicos e mitos judaicos. Um “partizan” a serviço da arte de primeira classe, num mundo cada vez mais pautado pelo entretenimento.
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